GRAHAMSTOWN 2012: Sob a controvérsia, a memória de um povo

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A arte como porta-voz

Dentro da programação deste ano, várias foram as criações artísticas que suscitaram reações vivas no auditório. É o caso de Mayhem. A primeira parte deste espetáculo foi criada por Luyanda Didiya, coreógrafa originária de uma favela de Johannesbourg. Em cena, os seus dançarinos, homens e mulheres, apresentam-se carecas.

Ao longo do espetáculo, eles evoluem numa simbiose sinergética com influências múltiplas africanas e asiáticas. O que Luyanda Sidiya pretende transmitir, é a unidade graças à coesão profunda.

Este festival que reúne artistas do mundo inteiro, é um universo empírico quase como um conto de fadas, como ele diz: "existe aqui um ambiente particular de criatividade, um odor particular.

Temos aqui um Porridge típico que comemos todos os dias. Cada vez que sentimos este cheiro, mergulhamos nas lembranças do passado. Aqui é igual, é o odor da arte criativa, da arte que nos mantém criativos.

Alguns veem aqui para esgotar uma inspiração ou uma energia, outros aqui vêm para construírem uma agenda de endereços como Khwezi, uma jovem sul-africana que habita a 140 km a leste de Londres (Inglaterra).

Ela tem uma pequena agência de artistas com o objetivo de promovê-los: " vim aqui para promover os meus artistas. Aqui está uma plataforma excecional, encontramos gente de toda a África do Sul e do mundo inteiro.

Também permite-me de ver o que se faz no meu país. Encontro artistas locais e fico orgulhosa."

Por em ligação autores das artes é uma missão fundamental proporcionada por este festival que existe há uma vintena de anos sob a impulsão de uma mulher branca com carácter de origem sul-africana, Lynette Marais.

Ela dirigiu este festival durante vinte anos a partir de 1989, dando-lhe uma dimensão multi-cultural. Abriu as portas às artes pluridisciplinares, fugindo ao classicismo puritano que esteve na origem da criação deste festival. Alargou também as portas para permitir a entrada de artistas de origens diferentes.

De um festival de brancos para brancos, criado sob o Apartheid, Lynette Marais fez um festival arco-íris virado para a arte sem barreiras e isso, antes mesmo da abolição da segregação que ocorreu em 1991.

Se a cidade estava dividida em dois durante todo o ano, nos onze dias do festival, apagavam-se as fronteiras, negros e brancos expunham a sua arte, o que não é ao gosto de todos, como explica a antiga diretora do festival: "todos os anos as pessoas chegavam de Johannesbourg, Pretória, dos 4 cantos do país, nas suas imponentes viaturas; as senhoras chegavam dentro dos sobretudos de pele.

Quando chegavam aqui e viam a mistura de raças diziam: "Oh que horror!". Mas voltavam no ano seguinte, Lynette Marais não fala dos telefonemas anónimos que recebia regularmente durante a noite. Do outro lado da linha, era ameaçada por vozes masculinas.

Esta tensão atingiu o seu paradoxo em 1991 a alguns meses antes do fim do apartheid mas, ela nunca cedeu, ao contrário. Em Julho de 1991, um mês após a abolição da segregação, ela acolheu Bárbara Joyce Mosima Masekela, uma figura emblemática do ANC ­ Congresso Nacional Africano, partido político de Nelson Mandela.

Esta senhora estava na altura na liderança do Conselho para a cultura do partido político ANC que combateu pela igualdade de raças. Ela fez um discurso brilhante sobre a complexidade da arte como vetor dos valores morais e das ideias políticas.

O festival de Grahamstown já não é uma plataforma puramente artística, tornou-se num lugar de expressão social como explica J. Brooks Spector, um ex-diplomata americano, director do teatro The Market à Johannesburg, um fiel espectador do festival desde os anos oitenta: " nos anos noventa, o país transformava-se cada vez mais e o festival tornava-se um lugar de trocas de ideias, um espaço livre, onde se encontravam todas as correntes de pensamentos, opiniões de todos os tipos de diferentes correntes de pensamentos sem sofrer qualquer repressão.

Era um espaço simplesmente livre e acessível a todos, independentemente da cor da pele e das convicções. Era suficiente vir até aqui para se aperceber como a sociedade sul-africana se comportava na altura, o que a importunava e o que não estava bem." O festival era então um lugar de expressão, um espaço de liberdade artística, uma tribuna de pensamentos não controlados, uma tribuna para o indivíduo pensante e criativo.

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