GRAHAMSTOWN 2012: Sob a controvérsia, a memória de um povo

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A mudança do "avant-garde"

Hoje, a programação conta quase com o mesmo número de artistas brancos e negros, com um lugar feito para as danças tradicionais sul-africanas. Para muitos visitantes sul-africanos, este lugar é essencial pois, vinte anos após a queda do apartheid a sociedade sul-africana continua em construção.

No coração de Grahamstown, existe a biblioteca de músicas africanas, grupo de dançarinos chegaram de toda a região do cabo oriental para representações. No grupo, Sanobile Makokolo desenha alguns passos e exprime com orgulho: " esta música, estas danças conectam-me com os meus antepassados, com as minhas raízes. Tudo isto diz-me de onde venho e quem sou: eu sou um Xhosa, um Africano."A busca das suas origens está muito presente neste festival

pois o país encontra-se ainda marcado por uma história segregacionista como faz menção o coreografo sul-africano de raça negra, Vincent Mantsoe: " hoje a África do Sul mudou.

Ficaram ainda algumas reminiscências do Apartheid mas a vida continua. Já não existem as batalhas como outrora, já não existem as repressões violentas contra os negros mas de certa maneira, está camuflado.

O importante é de avançar no tempo, conservando em memória as suas tradições." A criação de Vincent Mantsoe, Ópera for Fools, conta a história de vários personagens num Shebeen (bar clandestino mantido por sul-africanos), durante os anos setenta.

Ele descreve, graças à dança e à música, o universo feliz e triste desses lugares clandestinos tradicionais situados nas favelas, esgotando a sua inspiração nas suas lembranças da infância. Uma infância passada numa favela do Soweto onde os seus pais tinham um shebeen, que acolhia os amantes da música tradicional e do soul negro americano.

Para ele, a mestiçagem dos géneros musicais e culturais começara aqui. Em cena os corpos dos dançarinos de Vincent Mantsoe são ora tensos, ora descontraídos, restituindo assim o ritmo da vida de outrora dos negros sul-africanos.

O Apartheid é uma temática recorrente no festival, largamente evocada pelos artistas negros sul-africanos, mesmo se falar deste assunto é difícil como mostra bem o espetáculo Exhibit A.

Esta criação ao serviço do dever da memória é representado pela primeira vez na África do Sul no quadro do National Art's Festival, porque ela foi inicialmente criada para a Europa pela artista sul-africana Barbara Mathers.

Ela dirige-se a um público branco como precisam os textos que acompanham as diferentes cenas. Cada visitante está convidado a mergulhar na história dos Zoológicos humanos do século XIX. Num edifício, cada divisória é consagrada a uma história ligada à escravatura, à colonização e à imigração contemporânea.

Os artistas locais encarnam os personagens que existiram outrora. Uma mulher nua amarrada por uma corrente a uma cama, um homem de pé, rodeado de diferentes instrumentos colocados sobre uma mesa com croquis e índices colorímetros para medir a pigmentação da pele daquela mulher. Um casal sul-africano branco, agarrando-se pela mão, chorou durante toda a visita.

Eles saíram dali desfeitos. Hoje ainda o festival faz apelo ao debate e ao diálogo. Para alguns, acham-no simplista, outros consideram-no pertinente.

À procura “d’avant garde”

Entebeko tem 29 anos, ela ensina o francês e o xhosa, sua língua materna, aos estrangeiros que se instalam na África do Sul. Originário da região, ele conhece muito bem o festival.

Ele tinha por hábito vir todos os anos, hoje a sua motivação desapareceu: "É sempre a mesma coisa, não há nada de novo. Tudo o que é aqui representado, encontramos nos teatros a Johannesburg e a Port Elisabeth.

Em relação ao plano musical, descubro mais coisas nos pubs da periferia da capital que propriamente aqui." O festival perderia então a frescura na sua programação, como a cidade fantasma que ela é fora destes onze dias de emulação cultural e artística? Uma realidade bem empírica poderia explicar esta impressão: o orçamento. O festival tem um custo, mesmo se ele ganha amplitude a cada ano que passa.

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