GRAHAMSTOWN 2012: Sob a controvérsia, a memória de um povo

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Convidar artistas, financiar as viagens e estadia, necessitam de fundos de maneio. Esta restrição orçamental sente-se na programação internacional e particularmente na africana.

Existem muito poucos artistas da África de leste e nenhum da África do oeste, lamenta-se o diretor do festival desde há cinco anos, Ismail Mahomed: "Nós tentamos trazer até aqui artistas da África do oeste mas torna-se financeiramente difícil.

Nós poderíamos pagar o alojamento, a alimentação, os transportes locais mas, não podemos assegurar os bilhetes de avião. A África deve apoiar os seus artistas como o faz a França, a Argentina, etc.

Infelizmente só existem três países africanos que têm conselheiros artísticos nas suas Embaixadas: A África do Sul, o Malawi e o Uganda."

Este ano, os artistas franceses têm um espaço muito grande no âmbito da estação cruzada França-África do Sul. É através destes artistas estrangeiros que a arte do "avant garde" põe em prática, como indica Ismail Mahomed: " é muito importante que existam criações como Vortex de Phia Ménard para instaurar o diálogo e suscitar a inspiração.

Esta obra é uma perfeição." O espetáculo da coreografa francesa mereceu lotação esgotada. A sua criação artística sobre o vento á volta de um personagem central que vai evoluindo sobre uma plataforma circular rodeada de ventoinhas em funcionamento, obteve a admiração profunda dos espectadores.

A mensagem da sua peça criada no centro coreográfico de Caen, foi comentada no seio do público sul-africano: "Vortex é a relação humana. O vento é um pretexto para despir o ser humano.

A que momento temos a certeza que ele está nu? Trata-se de despi-lo no primo sensus, mas sobretudo de saber a que momento estamos certos de sermos nós mesmos, a que momento deixa de mentir, de vestir uma carapaça que não é a nossa, para tentarmos viver simplesmente dentro da nossa sociedade.

" Inspirar, desafiar, os objetivos da direção deste festival prendem-se com a provocação para suscitar a criatividade. E é isso que traz aqui o público quer sul-africano quer estrangeiro. Com The Cradle of Humankind (o berço da humanidade), de Steven Cohen, o festival alcança o seu objetivo: o "avant garde" sul-africano.

O autor sul-africano branco, recai na fonte do homem num espetáculo contemporâneo com um fino décor de design. Vestido simplesmente de um corset justo e de um tubo transparente sobre o pénis, ele move-se em salto alto estilo cunha de 20 cm. Ao lado dele, Nomsa Dlamini, de 93 anos de idade, vestida de Eva.

Os dois evoluem sobre a cena, andando lentamente mas sem falar, deixando os rostos exprimirem os seus sentimentos, enquanto atrás deles desfila no ecrã, os espaços da natureza em que eles aparecem. O homem quase nu, sai da cena e volta com um macaco embalsamado sobre os ombros.

Alguns assentos da sala fazem ruídos, risos nervosos ou incomodados se fazem sentir e na saída alguns gritam pelo nome do génio, outros à infâmia. Steven Cohen já foi alvo de numerosas críticas porque se a sua peça teatral desacomoda pelo sentimento que é exposto, o outro detalhe importante é a identidade da sua parceira em palco. Nomsa Dlami.

Esta mulher foi a sua bábá, foi ela que o criou e o veducou a Johannesburg. A criação artística de Steven Cohen não é exclusivamente sul-africana, pois o artista vive na Europa e é lá que cria em parte, as suas obras. Se o festival nacional de arte de Grahamstown é mundialmente conhecido entretanto, o caminho ainda é longo na pesquisa ao "avant garde" e ao recomeço.

A arte sul-africana continua a trabalhar para a sua transformação, indo buscar tudo na sua própria história mas sempre olhando para além fronteiras. Porque se a pretensão é de reabilitar a história sul-africana no seu todo sem distinção de cores e de raças, este festival abre-se também ao exterior, à universidade das artes. O National Art's festival continua a ser antes de tudo uma plataforma de trocas de criação internacional.

“A arte sul-africana continua a trabalhar para a sua transformação, indo buscar tudo na sua própria história mas sempre olhando para além fronteiras.”

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