Haiti no Grand Palais, o efeito de estufa

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De 19 de Novembro de 2014 a 15 de Fevereiro de 2015, o Grand Palais acolhe a exposição Haiti, dois séculos de criação artística.

Haiti no Grand Palais,  o efeito de estufa
Haiti no Grand Palais, o efeito de estufa

Foi preciso empreender um trabalho colossal a montante para reunir estas obras. Dois longos anos. Paris, capital das artes, presta uma nova homenagem à Pérola das Antilhas.
Em Dezembro de 1975, André Malraux efectuava a sua última viagem, uma dezena de anos após se ter deixado deslumbrar pela arte haitiana. As cores de Dakar no Festival de Artes Negras de 1966 revigoraram os sentidos do homem de cultura francesa. Foi ao Haiti com a sua última companheira, Sophie de Vilmorin, membro de uma célebre família de botânicos e comerciantes de cereais. O sinal foi claro. O homem político, que tinha devoção pela arte haitiana, foi o piscar de olhos do destino que gravita por cima da vidraça deste local privilegiado de Paris, cujas vastas alamedas ele teria adorado percorrer.
Este segundo dia de inverno é singular, desde há uns dias que as temperaturas sobem, o clima está mais clemente. Um calor suave parece escapar-se não sei donde para aquecer a atmosfera acrescentando-lhe alguns graus benfazejos. Talvez o Grand Palais se tenha convertido durante a exposição sobre o Haití numa maravilhosa estufa. No plano simbólico, imaginamos que a galeria do prestigioso edifício permite hoje ver sob uma luz viva o crescimento de uma cultura, criando as condições climáticas favoráveis para uma exposição “fora de estação”. O interior do museu abriga a energia, o brilho e os cultos de Ayiti Chéri. Se a arte permite entrar em contacto com um povo, uma nação, a rica proliferação da haitianidade poderia desconcertar muitas pessoas. Aqui, não se dá muita atenção à Arte Naïf. Diga-se em abono da verdade que a escrita escultural e pictural desta ilha não se resume a este tipo de arte; a ilha tem uma grande tradição plástica, particularmente fecunda. Aqui celebra-se mais o patriotismo artístico direccionado para a construção da primeira República negra. Este país, eterno e absoluto farol do mundo negro livre, demonstra que o poder da criação artística reside na sua densidade intelectual. A arte é emancipadora e estádio último da emancipação. Os espaços imaginários ou reais dos artistas apresentados contam, cada um à sua maneira, a história intelectual da sua terra natal. A insularidade é um adubo propício à eclosão de talentos. Da arte combate à arte resiliente, o Haiti continua a inventar a sua tradição plástica. Entre folclore haitiano plenamente reivindicado em numerosas obras e arte contemporânea assumida com Jean-Michel Basquiat, génio artístico da diáspora haitiana, a visita explora esta famosa haitianidade de geometrias variáveis. O discurso estético surpreende pela sua radicalidade e diversidade. A expressão haitiana vive, goza e abraça a sua singularidade. A especificidade da linguagem plástica haitiana continua a ser esta liberdade, esta independência indómita, face aos espaços ocidentais e africanos. A polinização dessas duas eras de influências germina nos labirintos criativos da psique dos artistas haitianos. Essas duas águas configuram o leito de um diálogo intercultural onde o desenvolvimento das culturas taïnos, daomeanas, francesas e ibéricas, deu lugar a uma mescla sem igual. O culto Vodu de Daomé encontra-se nos soberbos crânios de Dubréus Lhérisson ou nos frescos têxteis de David Boyer, rebordados de lantejoulas. Nada existe aí de macabro, apenas uma explosão de cores vivas. A arte haitiana é penetrante porque não se desprende da sua dimensão religiosa, maravilhosa, africana. A França, a Europa, encontram-se na arte do retrato. Os quadros de Gervais Emmanuel Ducasse e Edouard Goldman. Figuras negras, nobres, orgulhosas. A herança desta ilha é universal, os povos que aspiram à liberdade, esta modernidade patriótica, irrigam o trabalho de prometedores artistas, alguns dos quais jovens talentos nascidos nos anos 70.
O Grand Palais, monumento mítico, que acolhe as maiores exposições de arte da capital, presta homenagem aos artistas haitianos, à história do seu país e à sua cultura de origem. Cerca de sessenta artistas e de cento e setenta obras, apresentadas pela primeira vez em França e especialmente concebidas para a exposição, muitas vezes realizadas in situ, restituem de maneira fidedigna a extraordinária vitalidade e a permanente criatividade dos artistas durante um período que se estende do século XIX aos nossos dias. Quatro grandes capítulos que percorrem a exposição ostentam um título em crioulo e declinam-se em várias temáticas. Santit yo/ Sem títulos representa as figuras populares e as cenas do quotidiano. Lespri yo/ Espíritos confronta as obras de carácter profano ou sagrado das religiões vudu e católica e os símbolos franco-maçons, Peyizaj yo/ Paisagens privilegia o trabalho de artistas ostracizados nos anos 1950-1960 por serem considerados demasiado «contemporâneos», Chéf yo/Chefes reflecte, enfim, sobre a construção política e intelectual haitiana. Estes capítulos estão em destaque na exposição através de três Tètatèt/ tête-à-tête que fazem dialogar dois artistas por intermédio das suas obras. Essa fragmentação em quatro espaços harmoniosos mal consegue explicar o fenómeno haitiano. A arte talvez ajude a resolver conflitos internos. O imaginário desta ilha permaneceu vivo, intacto. A dissidência compensa. Aplaudimos a nova vaga de artistas como Sébastien Jean nascido em 1980, David Boyer nascido em 1977. A passagem do testemunho está a acontecer. Pneus, osso, plástico, madeira, metal reciclado, borracha, pérolas, chifre, materiais brutos, nada de muito precioso; mas que sofisticação emana destes espíritos habitados pela restituição estética da alma haitiana, fermento das lutas passadas. O exercício resume-se essencialmente a sublimar o país natal. A ilha é frequentemente pintada como um jardim edénico. Deste cantinho de terra crioula nasceram todas as dissidências negras. No entanto, a doçura apaziguadora dos quadros da colecção Claude e Farah Douyon levanta o véu sobre a intimidade familiar.
Como os escritores e poetas haitianos, os artistas são médiuns que servem de intermediários entre Deus e os humanos. A magia opera, o magnetismo vence. Nesse dia, vieram alguns jovens haitianos ver um pouco da sua ilha. Um deles ficou extasiado diante de um quadro de Jean-Michel Basquiat. Vibrando com o seu herói. Depois tirou algumas fotos. Uma jovem abraçou a sua mãe adoptiva vendo até que ponto esta estava submersa pela emoção. Sim, esta potência estética é obra dos seus. Malraux tinha, segundo consta, uma necessidade imperiosa de observar a pintura haitiana; calha bem, nós também. No Haití, moun pa jam désespéré.

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