"Idioma Comum":Contribuição africana para uma nova proposta dos cânone

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A maioria das obras enuncia determinados assuntos e que os artistas que integram

Idioma Comum
Miguel Amado

“Idioma Comum” é o título de um livro bilingue (português e inglês) que contempla diferentes artistas das artes ligados pelo mesmo idioma, especialmente africanos de língua portuguesa, publicado em Portugal em Dezembro do ano passado, sob a égide da Fundação PLMJ. Na introdução à obra, o seu curador, o português Miguel Amado, destaca que “Idioma Comum” apresenta 25 artistas através da reprodução das suas obras (85, no total) e de notas biográficas respeitantes a cada um deles redigidas pelo curador (com a colaboração de Adelaide Duarte).
Do livro, desenvolve que a sua estrutura espelha a composição do acervo em função das seguintes variáveis: geografia, período ou geração, género, meio de expressão e problemática.
“O livro contempla, essencialmente, artistas angolanos e moçambicanos (sete e 11, respectivamente); os restantes são dois do Brasil (que expuseram, recentemente, em Portugal), um de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe e dois portugueses, um com pais de Timor-Leste e outro com filiação angolana e cabo-verdiana. A generalidade dos artistas iniciou a sua carreira na década de 2000 ou, relativamente aos africanos, a seguir às independências de Portugal de 1974-75. Entre os artistas, consta somente uma mulher”, detalha.
Acrescenta que as obras incluídas no livro enquadram-se, predominantemente, em três disciplinas: pintura e desenho, por um lado; fotografia, por outro. A maioria das obras enuncia determinados assuntos e que os artistas que integram “Idioma Comum” desfilam pelas páginas do livro à luz das associações que vislumbrou entre si. Por outro lado, em vez da usual rigidez de categorias como nacionalidade, disciplina ou cronologia, habitualmente empregues para mostrar acervos, propôs constelações de imagens, em que uma funciona como ponto de partida para a apreensão das restantes, numa fluidez rítmica que provoca significados para além do expectável.
“Ao folhear-se o livro, prevalece uma sensação de consistência, apesar da heterogeneidade das obras. A razão para isso é que estes 25 artistas partilham uma linguagem que, à falta de melhor palavra, pode ser classificada como contemporânea, caracterizada por uma mundividência de índole cosmopolita. É essa linguagem, o idioma comum destes 25 artistas, que o livro sintetiza, demonstrando que é na comunhão desta “arte de outros lugares” que radica o potencial do acervo da Fundação PLMJ”, reforça o crítico português.

Contribuição africana para uma nova proposta dos cânones

Da necessidade de ultrapassar os ditames impostos por alguns produtores da arte moderna, o crítico português aponta que fruto da globalização, processo que suprimiu os limites espácio-temporais do Ocidente, algumas das principais instituições europeias e norte-americanas reconheceram, nos últimos anos, que as suas programações e as suas colecções, tanto em termos da sua estratégia aquisitiva quanto da sua apresentação, privilegiam artistas nascidos ou residentes nos Estados Unidos da América e na Europa (essencialmente, no Reino Unido, na Alemanha e em França).
“A crítica desta falta de diversidade provocou um realinhamento da sua acção, que enfatiza uma “arte de outros lugares” – a “viragem geográfica”. Assim, na actualidade, ensaiam uma compreensão das ideias e práticas nascentes a nível global e, retrospectivamente, equacionam modernismos alternativos. Esta atitude obriga a uma tomada de consciência, por parte dos comissários ocidentais (como é o meu caso), do eurocentrismo reinante na sua prática, bem como ao combate a tal enviesamento através da abertura de novos horizontes, tanto intelectual quanto metodologicamente. Tal pressupõe activar narrativas subalternas. Para isso, importa observar a “arte de outros lugares” sob uma perspectiva “pós-ocidental”, que não incorra na repetição de hierarquias familiares, como a Norte/Sul ou a colonial, dada a conexão ideológica que sempre existiu entre a geografia e o “estilo” artístico. Assim, entender a “arte de outros lugares” implica prestar atenção – dir-se-ia, mesmo, respeitar – o sentido do lugar e, simultaneamente, resistir à tentação do fascínio pelo exótico, de que a produção do tipo “folclórico” é, somente, um exemplo”.

Artistas
Além dos artistas angolanos Paulo Kapela, Lino Damião, Yonamine, Edson Chagas, Kiluanji Kia Henda, Benjamim Sabby,Délio Jasse, estão presentes o cabo-verdiano Abraão Vicente, os brasileiros Rosana Ricalde e Felipe Barbosa, os moçambicanos Pinto, Mauro Pinto, Celestino Mudaulane, David Mbonzo, Mário Macilau, Gonçalo Mabunda, Ídasse, Gemuce, Jorge Días, Filipe Branquinho, Maimuna Adam, a são tomense René Tavares, o guineense Nú Barreto e os portugueses Flávio Miranda e Francisco Vidal.

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