IL VA PLEUVOIR SUR CONACKRY Um filme de Cheick Fantamady Camara

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Kesso, a protagonista feminina deste drama intenso, afirma poeticamente, a dada altura da narrativa:«Não se pode mandar fechar o mar».

IL VA PLEUVOIR SUR CONACKRY  Um filme de Cheick Fantamady Camara
IL VA PLEUVOIR SUR CONACKRY Um filme de Cheick Fantamady Camara Fotografia: Paulino Damião

 Esta convicção pode servir de mote para um amplo debate, que o realizador promove, corajosamente, sobre a inevitabilidade do progresso, sobre a real impossibilidade de manter num universo fechado toda uma sociedade, sobretudo os jovens, com uma visão do mundo mais global e abrangente. Realmente, não se pode travar o curso da História.
O filme agarra o espectador desde o primeiro instante, através de uma forte cena de intimidadeentre o casal Kesso e “Bibi”, o irreverente caricaturista Bangali, aliás, BB. Este processo afigura-se-me como uma escolha consciente do realizador, na sua primeira e brilhante longa-metragem profusamente premiada, para denunciar uma certa hipocrisia social, para além de cativar, com um misto de crueza e romantismo. É a visão idílica da vida que opõe o jovem casal à família de origem de Bangali, presidida pelo pai, o Imã Karamo Bayo, de convicções arreigadas e inegociáveis sobre a religião e o valor das tradições ancestrais.
Nesta magnífica viagem de quase duas horas são abordados vários conflitos e tabus: o choque das ideias, o conflito de gerações, o pragmatismo e as superstições, as máscaras sociais, a violência de género e até o paradoxo entre o purismo da doutrina religiosa e o respeito pelas práticas tradicionais; i.e., as contradições locais são observadas e denunciadas a partir «de dentro» (a dado passo da narrativa, o Imã é confrontado pelo seu primogénito, que afirma: «A feitiçaria e o Islão não seguem o mesmo rumo»).
São muitos os conceitos dissecados com extraordinária lucidez e humanismo: será o respeito pela religião ou pelos ritos ancestrais mais importante do que a vida humana? Na óptica de Karamo não há hesitações, embora a sua obstinação tenha, felizmente, resultado num processo judicial do qual adivinhamos o desfecho.
A história desdobra-se em vários planos que se intersectam com coerência. Bangali mantem uma relação amorosa com Kesso, a filha do dono do jornal l’Horizon, em que trabalham ambos. Kesso, cuja confidente é uma médica da terra, provém de uma família de classe média, progressista, que privilegia afelicidade dos filhosem detrimento dosespartilhos e constrangimentos sociais. Não obstante, Sidiki, pai de Kesso, mantem uma estratégica relação de respeito com o poder, que lhe permite viver em paz, pois, como diz com sabedoria: «É preciso aprender a assumir compromissos»; e remata: «Não se diz de dia o que se passa de noite»
O idealistaBangali desentende-se com o seu pai, cuja palavra não costuma ser contestada pelos seus próximos. Karamo declara ter tido um sonho no qual recebeuinstruções dos espíritos,indicando-lhe Bangali como seu sucessor! Assim, decide unilateralmente a sua partida para a Arábia Saudita para aprofundar a sua formação religiosa, o que o filho contesta abertamente, assumindo a sua relação e gerando um clima de grande tensão. O pai acaba por encontrar-se encurralado na sua teimosia, quando as várias esposas começam a unir-se para enfrentá-loe questionar a sua autoridade no seio da família, negando-lhe «companhia» e respondendo com astúcia e determinação às suas agressões verbais. O filho, ao assumir que possui uma certa espiritualidade enquanto ser humano e ao afirmar que a religião deve ser uma escolha e não uma imposição à nascença, atinge como um murro no estômagotoda uma cultura de cega submissão na qual não se revê.
O ritmo das conversas na família polígama é delicioso: tudo se processa com uma lentidão pautada ora pelo temor ora pelo respeito e o que parece ser uma busca de consensoconfunde-se com um meroflash informativo; os assistentes devem acatare cumprir, emanter-se em silêncio excepto quandodirectamente interpelados pelo patriarca.
Por outro lado, Kesso, a heroína, decide participar num concurso de misses. Porém, quando está prestes a ser coroada, num gesto de cedência em prol da relação que preza, acaba por renunciar ao título, mostrando claramente ao seu companheiro quais as suas prioridades.Ao enfrentar o pai, este dá também um passo significativo, favorecendo uma união cada vez mais consistente com a namorada, qua acaba por engravidar.
Paralelamente, o realizador não se coíbe de apontar o dedo à violência de género, inclusive dentro do próprio universo familiar. Amine, o irmão mais velho de Bangali, arroga-se o direito de agredir brutalmente a caçula Kadiatou, apenas porqueesta frequenta locais de diversão ese veste de maneira ocidentalizada. Outroforte momento de violência, levado a cabo pelo mesmo Amine e seus acólitos é o ataque à sede do concurso de misses, sentido como uma afronta à moral religiosa.
Nesta trama denuncia-se igualmente a utilização de líderes religiosos por políticos corruptos, explorando a sua ingenuidade, com vista à obtenção de benefícios em futuras eleições. Em face de uma situação de seca grave e prolongada, o Imã é instado a organizador uma prece pela chuva, visando aumentar a sua popularidade, quando o boletim meteorológico já previa a queda de chuvas sem que tal facto fosse do conhecimento público!
Uma palavra de louvor para as prestações seguras e empolgantes de Tella Kpomahou e Alex Ogou. Em meio a um elenco notável, destaco ainda a interpretação da versátil Fatoumata Diawara, que protagoniza momentos musicais de enorme beleza e assume com grande vigor o papel da ex-namorada preterida de Bangali.
Após a tragédia anunciada desde cedo que culmina com o desaparecimento do recém-nascido gerado pelo casal, o filme termina com uma nota de esperança, aberta sobre o futuro, simbolizada por uma nova gravidez de Kesso, com o casal trilhando os caminhos da sua própria ventura.

Comentário gentilmente enviado pelo realizador, Cheick Fantamady Camara, a 14-06-14:
«O desejo de fazer filmes (sobretudo vídeo) da parte dos jovens nos nossos países não é suficiente, a necessidade de formação é gritante ... É nossa obrigação, dos realizadores, treiná-los. Alguns países, embora poucos, estão a fazer esforços em matéria de formação e a criar salas de cinema, mesmo que o resultado não seja explosivo.
(…)
Reinvesti os lucros do meu filme "Il va pleuvoir sur Conakry" para começar a rodagem de "Morbayassa" em 2010 e levei quatro anos para chegar a um resultado. (…)
É uma pena que nós, cineastas africanos francófonos, como se fosse uma herança ancestral ou uma praga, não sejamos capazes de nos unir em torno de uma ideia e defendê-la... (…)»

Agradecimentos: Expresso o meu reconhecimento ao realizador, que fez questão de partilhar com os leitores uma opinião actualizada sobre as condições de rodagem de longas-metragens no continente africano.

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