Japone Arijuane lapida a palavra em ‘Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio’

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[…] O objecto pode ser: 1) criado como prosaico e percebido como poético; 2) criado como poético e percebido como prosaico.

Japone Arijuane lapida a palavra em  ‘Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio’
Japone Arijuane lapida a palavra em ‘Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio’

Isto indica que o carácter estético de um objecto, o direito de relacioná-lo com a poesia, é o resultado de nossa maneira de perceber; chamaremos objecto estético, no sentido próprio da palavra, os objectos criados através de procedimentos particulares, cujo objectivo é assegurar para estes objectos uma percepção estética. Chklovski (1999:41)
Maior parte dos poemas em Dentro da Pedra ou a Metamorfose do Silêncio podem ser colocados na área dos Estudos Literários que analisa o metapoema. Esses poemas revelam a preocupação do seu autor em fazer da palavra a sua matéria prima, lapidando-a ou esculpindo-a a fim de obter poesia. Neste labor, ele colocou um sujeito poético que fala sobre a função da poesia; que fala sobre a própria poesia e indaga-se sobre o seu processo de criação. Em síntese, o autor: afinou, retocou, envernizou, burilou a palavra a fim de compor os seus poemas. O esmero nesse trabalho de “construir” a poesia, assemelha-se ao de moldar, lixar, alisar, polir, uma pedra com intuito de a transformar.
O título do livro remete-nos a esse tipo de leitura. O poema da pg. 35, por exemplo, contém significados que o condensam. É como se as palavras, depois de esculpidas, saíssem da pedra a desfilar. São palavras que resultam de uma exaustiva lavra que as adorna, a fim de serem capazes de transmitir significados:

Aprumadas as palavras/ acordadas no sono da pedra/ relíquia reinventada em sonhos/ gestos inauditos em vozes/ desfilam lento o som/ pela vaidade do silêncio/ a palavra aprumada/ a dizer o nada, pg. 25.

Até porque, as expressões repetidas em trocadilho: aprumadas as palavras, palavra aprumada e o verso relíquia reinventada em sonhos reforçam essa imagem de retocar.
O mais espantoso nesse esforço de burilar é que, mesmo depois de tanto trabalho, a palavra não atinge a sua plenitude para comunicar. Ela transporta consigo algumas limitações, uma vez que, o sujeito poético refere, no poema acima, que dada a força do silêncio, essas palavras nada dizem. O verso: “a dizer o nada” permite-nos chegar á essa constatação.
Há nisso uma contradição, porque as palavras, nunca são de silêncio. Isto faz-nos colocar este tipo de poesia no niilismo, corrente filosófica centrada na busca do ideal, negando o que é facilmente perceptível.
Nos poemas desta obra, a pedra, não é apenas um objecto prosaico, não tem o valor de um objecto morto ou que sufoca. Não é em objecto comum, corriqueiro que, por vezes, é percebido como banal. Ela ganha o lugar de desejo, de objecto vital e estético e de busca do si mesmo. É dentro da pedra que o sujeito poético procura alcançar o seu mundo ideal, o do silêncio. Da adoração do silêncio temos como exemplo:

[…] quem se vê ao espelho/ não vê senão o espelho…/ É no silêncio da pedra/ que espelho a alma, pg 12.

Sou professor do silêncio/ensino o nada sei/ a faculdade das minhas sensibilidades/a tornar-se pedra/sangue e suor/flor e fogo/[…], pg 81.

A homenagem ao silêncio pode ser realçada através da ideia de recolhimento nos versos que seguem:

Para mim volto/nas mãos acesas do avesso/naquilo que me é essência/à intrínseca introspecção […] ilumino o destino em mim ancorado […] que me traz a mim, pg 23.

[…] a morte não é o fim/ […] é a indiferença das coisas/à espera do novo dia, pg. 42.

O silêncio de que se fala não é só o de ausência de companhia ou de ruído. É também o das palavras; o que é reforçado pelo poema da pg. 22, no qual vemos afirmado:

Das palavras/sinto o inexplicável amor/pela ineficácia que tenho/em descrevê-las/com amor/o que por elas sou/Nunca me eduquei para amar/qualquer que fosse o silêncio/senão o das palavras.

O procedimento a partir do qual a pedra é tratada permite atribuir-lhe diferentes valores, nomeadamente:

Valor de espelho: É no silêncio da pedra/ que espelho a alma, pg. 10.
Valor de silêncio:um universo de silêncio/metamorfoseado/em pedra, pg.11 e 31.
Valor estético: Lavo a cara nas pedras do medo/vejo sangue na maciez da pedra/[…] vivo colhendo o pólen das pedras. Um outro exemplo desta categoria pode ser encontrado na pg. 14.
Valor de pessoa (personificação): A/ cidade/um pássaro/mastiga a felicidade da pedra, pg. 39.

Quanto ao metapoema importa referirmo-nos a reflexão que o sujeito poético faz acerca do poema utilizando três critérios:
O primeiro - para que serve o poema, de onde podem ser apontados os seguintes exemplos: Quando/ escrevo um poema/tento compreender-me à vida./ Se escrevo um poema/vivo/ e/ vivo-me, pg. 15.
Navego-me/ a poesia me aconchega ao cais/meu destino é encontrar-me/comigo à deriva/na imanente vastidão do mar. /(incrédulas certezas/ se esboçam na fé/ de me tornar espécie/ de coisa alguma)/ pinto no vão o cão vadio/ que encontra na escuridão/ a felicidade de não ser visto/por si…/ , pg. 27.

Ao Nhambaro/da minha poesia,/só os surdos/ancorados/à sombra do silêncio/saberão dançar/no ritmo quente de Junho/saberão sonhar, pg. 57.

Um outro exemplo desta categoria de poemas pode ser encontrado na pg. 81.

Acerca da segunda dimensão de análise - poema em que o sujeito poético fala sobre o próprio poema encontramos os seguintes exemplos: Lavo as faces do vento/ como quem rasga a emoção do poema/ as faces do vento não me são excitantes/ como o papel em branco onde cabe da/ caneta o cio/ a pureza do papel não e emociona/ poderia fazer barcos de papel/ poderia fazer barcos de poema/ barcos de papel fi-los na infância/ os de poema fazem-nos os poetas/ Eu…/ lavo as faces do vento como quem rasga a emoção do poema, pg. 31.
Nesta classe podemos ainda incluir os poemas das pgs. 22 e 27.
O terceiro critério - o processo de criação do poema pode ser demonstrado a partir dos poemas das pgs.  35, 48, 50 e 79.
Gostava ainda de me referir a dois aspectos referentes á caracterização do sujeito poético desta obra:
Num momento ele revela-nos a sua essência, ou seja de que é feito - e é todo poesia, tal como o revela no poema da pg. 54:Não tenho senão/essa vontade/de me reinventar/em palavras./ Meu mundo/ é esse pedaço/de papel. /Imortal pedaço/riscado/de silêncios./O que não sou/só termina/onde neste espaço/me começo./(ser poeta é isto/extinguir-se num papel estreado de silêncios).

No outro momento revela-nos a sua essência multifacetada. Isso é-nos demonstrado a partir de um poema que não segue as características dos que acabei de mencionar, pois não louva a pedra, não se venera o silêncio, não se indaga sobre a poesia, nem sobre a sua função e processos de elaboração; apenas, diz-nos quem é o sujeito poético da obra, alguém com múltipla identidade, tal como o seria uma imagem de Moçambique, um país multicultural. Essa ideia é espelhada através da representação dos seus diferentes grupos étnicos: machuabo, machangana, makonde, ndau, macua, chewa, nyungues, yaos, no poema da pg 58: O machuabo em mim/não é senão um/matchangana disfarçado/a sonhar-se makonde/com engenho da sua arte/se esculpir ndau/m´siro na fé/pintar a crença makua/adormecida nos chewas/, nyungues e yaos/à minha diáspora.
Do ponto de vista do labor poético podemos colocar Japone Arijuane em paralelo com outros poetas que se dedicam a escrever sobre a poesia, nomeadamente: os moçambicanos Armando Artur, Eduardo White, Filimone Meigos e Jorge Viegas; os brasileiros: Carlos Drummond de Andrade e José Cabral de Melo Neto. E outros que devolvem à pedra o grande valor que ela tem para a humanidade, homenageando-a, tal como o fizeram Carlos Drummond e os angolanos Ana Paula Tavares e Ruy Duarte de Carvalho.
Os poemas do livro acabado de apresentar demonstram a busca do si mesmo, por parte do sujeito poético, uma vez que a maioria encontra-se na primeira pessoa. E utilizar a primeira pessoa contraposta a multi-identidade reforça a ideia de busca de sentido para a alma, para a identidade própria e a pedra acaba por ser essa entidade ôntica.
Um estudo da poesia de Japone Arijuane poderia fazer o levantamento das diferentes contradições propositadamente elaboradas por este autor.

POEMA

O machuabo em mim
não é senão um
matchangana disfarçado
a sonhar-se makonde
com engenho da sua arte
se esculpir ndau
n’siro na fé
pintar a crença makwa
adormecida nos chewas,
nyungues  e yaos
da minha diáspora.


O plágio dos teus beijos
edita novos exemplares de amor
na antologia dos meus sonhos.
Vou folheando os compêndios
dessa solidão
para apreender o decalque
deste sonho de me tornar
a poesia em teus lábios.


Em mim a caneta
é escopeta nas mãos dum
Achicunda  Naringa
atravessando corpus de silêncios.

...
em meus dedos se revela
a identidade desse silêncio
dactilografado de vazios  
condensado no voo
escupido em palavras.

Japone Arijuane

In: ``Dentro da pedra
ou a metamorfose do Silêncio”

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