Jean-Joseph Rabearivelo (1901 - 1937): Arte longa, vida breve

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Madagascar, na época do nascimento de Jean-Joseph Rabearivelo, nome artístico posteriormente adotado, é uma colônia francesa e as classes dominantes, arruinadas, subsistem em convivência com os poderes estrangeiros, que já dominavam, durante todo o século anterior, os valores tradicionais da ilha, a grande Ilha Vermelha.

Fotografia: Jean-Joseph Rabearivelo (1901 - 1937)

Filho natural de uma jovem protestante de sobrenome Rabozivelo e descendente de uma casta real empobrecida, a dos Zanadra Lambo, Jean Casimir Rabe, seu nome verdadeiro, teve o apoio financeiro de um tio católico, que proporcionou-lhe os estudos.

Sua vida acadêmica, porém, foi curta: iniciou seus estudos nos Irmãos das Escolas Cristãs, passando em seguida ao Colégio Saint-Michel, de orientação Jesuíta, do qual é expulso aos treze anos, finalizando sua trajetória escolar num liceu público, onde passa apenas alguns meses.

A partir daí, converte-se em um jovem autodidata com sede de erudição em contraposição ao ambiente miserável que o cerca.

Mas é preciso ganhar o sustento e, para isso, o futuro poeta trabalha, sucessivamente, como secretário, escrevente e bibliotecário. Começa então a publicar seus primeiros ensaios em revistas e periódicos, sob pseudônimos de aura romântica, como Almace Valmond ou Jean Osmé.

O ano de 1923 tem para Rabearivelo uma importância vital, por três motivos principais:
Porque passa a trabalhar na Imprimerie de Imerina, de onde sairá a maioria dos seus livros e da qual extrairá o necessário para a sua subsistência até a sua morte.

Porque passa a ser conhecido na Europa através de um artigo, em francês, sobre a poesia malgache, publicada pela revista austríaca missionária Anthropos.

Porque conhece a Pierre Camo, que, de certa forma, será para ele o que o professor Georges Izambard foi para Rimbaud, incentivando-o, amparando-o, introduzindo-o nos salões artísticos e atualizando-o em relação ao que se havia feito e se estava fazendo na França.

A partir desta época aparece a primeira parte de sua obra, mais precisamente de 1924 a 1930, com La coupe de cendre (1924), Silves (1927), Volumes (1928) e L´interference, uma novela sobre a sociedade colonial, publicada apenas postumamente, em 1988. Quanto aos poemas, no entender de Juan Abeleira, são ainda estilisticamente concebidos sob a influência insidiosa da escola parnasiana, mas onde já se pode rastrear ao menos duas das maiores preocupações essenciais de Rabearivelo: o culto dos antepassados e a exaltação da legendária Larivo.

Obras que, na interpretação de H. Mariol, traduzem a luta interior do homem de letras ocidental em que Rabearivelo tinha se tornado e do indonésio que mantinha preservada a herança de seus ancestrais. 1924 é também o ano em que começa a escrever os Calepins Bleus (Cadernos Azuis), célebre diário escrito até mesmo o dia da sua morte.

Rabearivelo casa-se em 1926 com Mary Razafitrimo, uma de suas alunas particulares, que, posteriormente, lhe dará um filho e quatro filhas. Ainda que até nós tenha chegado a imagem de um Rabearivelo muito carinhoso com a sua progênie, parece que a relação entre o poeta e sua mulher não foi o que se possa chamar de harmoniosa.

E, possivelmente, o principal motivo disso tenha sido a crescente adesão de Rabearivelo ao ópio. Droga a que recorreu mais como um bálsamo às sua dores de corpo e de alma do que como fonte de inspiração, ainda que este fizesse parte de um suposto projeto poético e espiritual próximo ao da vidência rimbaudiana.

Então, a partir de 1929/30 sua vida vai decaindo sem parar, ao passo que, paradoxalmente, sua obra vai se elevando. O tema do mais-além, para citar ainda uma vez mais Juan Abeleira, torna-se, aos poucos, uma obsessão que resultará fatal, somando-se um interesse real, não apenas literário, por astrologia e ocultismo e todo o tipo de excessos que acabam por minar-lhe a saúde, já originariamente precária, pois era asmático. Uma série de acontecimentos trágicos começam então a acumular-se ao seu redor, até que a morte de sua filha Voahangy, em 1933, provavelmente causada por negligência de um médico, transtorna-lhe profundamente.

Para Jean-Joseph Rabearivelo, 1937, o seu último ano de vida na terra, é uma sucessão de desilusões e amarguras: sua saúde declina a cada dia, assim como fica também cada vez mais difícil conciliar-se com a vida cotidiana no ambiente castrador da colônia; o governo nega-lhe, às vésperas, uma viagem prevista à Exposição Universal em Paris, onde um bailarino, Serge Lifar, iria interpretar sua cantata Imaitsoalana; as dívidas acumulam-se e os credores o levam aos tribunais, onde é declarado culpado.

Diante deste quadro, tenta, num recurso desesperado, acrescentar mais dinheiro aos seus rendimentos solicitando um posto de funcionário público, mas a administração o recusa, por não possuir nenhum título oficial. Dois dias após a esta tentativa frustrada, no dia 22 de julho, o poeta escreve a última página do seu diário e suicida-se, ingerindo dez gramas de cianureto.DOIS POEMAS DE JEAN-JOSEPH RABEARIVELO

EM TRADUÇÃO DE ANTÔNIO MOURA

O boi branco

Esta constelação em forma de cruz,
é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco,
como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende
às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo
das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus
cornos;
mas, agora que as flores nascem
nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como
um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele
parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem
em nossos desertos.

Ler

Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos,
o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro
que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço,
que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.



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