Jean-Joseph Rabearivelo (1901 - 1937): Arte longa, vida breve

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Madagascar, na época do nascimento de Jean-Joseph Rabearivelo, nome artístico posteriormente adotado, é uma colônia francesa e as classes dominantes, arruinadas, subsistem em convivência com os poderes estrangeiros, que já dominavam, durante todo o século anterior, os valores tradicionais da ilha, a grande Ilha Vermelha.

Fotografia: Jean-Joseph Rabearivelo (1901 - 1937)
Quanto aos poemas, no entender de Juan Abeleira, são ainda estilisticamente concebidos sob a influência insidiosa da escola parnasiana, mas onde já se pode rastrear ao menos duas das maiores preocupações essenciais de Rabearivelo: o culto dos antepassados e a exaltação da legendária Larivo.

Obras que, na interpretação de H. Mariol, traduzem a luta interior do homem de letras ocidental em que Rabearivelo tinha se tornado e do indonésio que mantinha preservada a herança de seus ancestrais. 1924 é também o ano em que começa a escrever os Calepins Bleus (Cadernos Azuis), célebre diário escrito até mesmo o dia da sua morte.

Rabearivelo casa-se em 1926 com Mary Razafitrimo, uma de suas alunas particulares, que, posteriormente, lhe dará um filho e quatro filhas. Ainda que até nós tenha chegado a imagem de um Rabearivelo muito carinhoso com a sua progênie, parece que a relação entre o poeta e sua mulher não foi o que se possa chamar de harmoniosa.

E, possivelmente, o principal motivo disso tenha sido a crescente adesão de Rabearivelo ao ópio. Droga a que recorreu mais como um bálsamo às sua dores de corpo e de alma do que como fonte de inspiração, ainda que este fizesse parte de um suposto projeto poético e espiritual próximo ao da vidência rimbaudiana.

Então, a partir de 1929/30 sua vida vai decaindo sem parar, ao passo que, paradoxalmente, sua obra vai se elevando. O tema do mais-além, para citar ainda uma vez mais Juan Abeleira, torna-se, aos poucos, uma obsessão que resultará fatal, somando-se um interesse real, não apenas literário, por astrologia e ocultismo e todo o tipo de excessos que acabam por minar-lhe a saúde, já originariamente precária, pois era asmático. Uma série de acontecimentos trágicos começam então a acumular-se ao seu redor, até que a morte de sua filha Voahangy, em 1933, provavelmente causada por negligência de um médico, transtorna-lhe profundamente.

Para Jean-Joseph Rabearivelo, 1937, o seu último ano de vida na terra, é uma sucessão de desilusões e amarguras: sua saúde declina a cada dia, assim como fica também cada vez mais difícil conciliar-se com a vida cotidiana no ambiente castrador da colônia; o governo nega-lhe, às vésperas, uma viagem prevista à Exposição Universal em Paris, onde um bailarino, Serge Lifar, iria interpretar sua cantata Imaitsoalana; as dívidas acumulam-se e os credores o levam aos tribunais, onde é declarado culpado.

Diante deste quadro, tenta, num recurso desesperado, acrescentar mais dinheiro aos seus rendimentos solicitando um posto de funcionário público, mas a administração o recusa, por não possuir nenhum título oficial. Dois dias após a esta tentativa frustrada, no dia 22 de julho, o poeta escreve a última página do seu diário e suicida-se, ingerindo dez gramas de cianureto.

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