Joan Brossa: O prestidigitador da sétima face do dado

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Joan Brossa nasceu em Barcelona, a 19 de Janeiro de 1919, aí tendo morrido a 30 de Dezembro de 1998, na sequência de uma queda sofrida no seu apartamento-estúdio, quando se encetavam já os preparativos para as homenagens comemorativas dos seus 80 anos.

Joan Brossa: O prestidigitador da sétima face do dado

A circunstância de ter nascido catalão e no seio de uma família de operários marcou indelevelmente a sua personalidade irrequieta de homem e de criador. Toda a sua obra literária será escrita em catalão, mesmo quando a língua catalã estava proibida por Franco de sequer ser falada.

Essa será uma das razões por que a obra de Joan Brossa só tão tardiamente viesse a ser traduzida para espanhol, ou mesmo chegasse à forma de livro e a um mais lato conhecimento do público.

Autodefinindo-se como "um poeta atípico" e um "fazedor de metáforas, inclusivamente a partir de objetos", Brossa sempre acreditou ser "a linguagem poética uma linguagem transgressora".

Era um autodidata, sem formação universitária, que ao longo da vida nunca deixou de aprender, porque, como ele próprio dizia, "as coisas importantes aprendem-se, mas não se ensinam."

E, como de muito poucos, se poderá dizer que poema e poeta, obra e criador se fundiram num só: este Joan Brossa, autor de uma obra experimental, extensa e múltipla, que nunca conheceu limites: "Vejo a arte e a literatura como um possível alargamento de horizontes em direção à liberdade, e como instrumentos de penetração no conhecimento humano", escreveu ele um dia.

Na juventude, trabalhou esporadicamente como operário gravador. Combateu durante a Guerra Civil de Espanha ao lado do Exército Popular Republicano, tendo sido ferido em combate, marcas essas que o acompanharam o resto da vida. "

Comecei a escrever na Frente da Catalunha com o Exército Popular", dirá, muitos anos depois. "Participei numa emboscada e iz o seu relato."

Desses apontamentos recolhidos na frente de combate surgiriam muitos dos poemas que enformam o volume "Poesia rasa", publicado apenas em 1970, e reunindo nada menos que 16 livros, escritos entre 1943 e 1959.

Entretanto, juntamente com os pintores Tàpies, Puig, Ponç, Tharrats, Cuixart e o poeta J.V. Foix, funda, em 1948, a mítica revista vanguardista "Dau al Set". Conhece, por essa altura, o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, que exercia funções diplomáticas em Barcelona, de quem se torna amigo e de quem recebe influências de vário domínio, inclusive o conhecimento do marxismo.

Este convívio com João Cabral (que será o seu primeiro editor, em 1945) levará Brossa a abandonar não só as suas iniciais influências surrealistas, como as formas fixas da poesia, e a enveredar por um registo mais coloquial e politicamente mais empenhado, à boa maneira da tradição do catalanismo progressista, de que é exemplo maior o livro "Poemas civiles", de 1960.

Para além de uma obra vasta de poesia escrita, onde se contam mais de 80 livros, Joan Brossa dedicou-se também à poesia visual, à poesia-objeto, à poesia cénica (obra teatral publicada em 6 volumes e abarcando mais de 300 peças ou ações-espetáculo, sendo por elas considerado um precursor da performance) ou à "poesia transitável" (poemas em 3 dimensões colocados em lugares públicos), ao guionismo para cinema e à feitura de cerca de 20 livros para bibliófilos, de parceria com pintores como Joan Miró, Antoni Tàpies, Villèlia, Amat, Perejaume, Borrell ou Chillida.

Joan Brossa, autor indiscutível de uma das mais extraordinárias aventuras poéticas da segunda metade do século XX, e uma das mais inovadoras e radicais, nunca se cansou de procurar e lutar pela quarta dimensão do poema e pela dignificação do ser humano. Foi sempre, e apenas Poeta: memória gravada nas labaredas do Tempo.

22 POEMAS DE JOAN BROSSA
(Tradução de Zetho Cunha Gonçalves)

PRELÚDIO

Estes versos, tal uma partitura, mais não são que um conjunto de signos por decifrar. O leitor do poema é um executante.
Hoje,
porém, abandono o meu espírito ao seu estado natural. Não quero que o perturbem nem pensamentos nem ideias.  

O TEMPO

Este verso é o presente. O verso que acabam de ler é já o passado - ficou para trás depois da leitura -. O resto do poema é o futuro, que não está ao vosso alcance.
As palavras estão aqui, tanto faz que as leiam como não. E nenhum poder terrestre o pode alterar.

NOSTALGIA

Oh verdades imutáveis, ainda que silenciosas por não terem palavras que as designem! SEMPRE-EM-PÉ
A Lluís Solà

Boneco

que leva um peso na base e que, desviado da sua posição vertical, se volta a levantar. O povo.

DESCALABRO

A Manolo Millares

A mesa está posta tal como deve permanecer até ao final do banquete. No centro há um ramo de flores. Nas extremidades, candelabros com quebra-luzes, as compoteiras e os pratos diante dos talheres. Os copos estão colocados em função do tamanho. Brilham os talheres de prata, e a baixela é de porcelana antiga.

Basta! Possesso, o poeta arranca o mantel e atira com a mesa gritando, indignado.

LACRE

A cabeça é uma amêndoa: desenhem sobre a casca os olhos, o nariz, a boca e os cabelos. Uma laranja representa o corpo.

Sim; ter um grande amor é quase uma vergonha num mundo tão cheio de misérias e desgraças.

AQUÁRIO

A rima o ritmo os moldes formais Reparo nos peixes dentro de água As ideias no cérebro devem mover-se de uma forma semelhante A rima o ritmo os moldes formais

O SANGUE DE PAPEL

Às vezes gosto de seguir o lancil do passeio e caminhar a grandes passadas como se contasse as pedras.

Aqui abandono o caça-borboletas e tiro a barba postiça.

O caminho tem de um lado a planície e do outro um matagal espesso com um bosque de pinheiros seculares ao fundo.

SERENATA

Segundo dizem, cultivava como entretenimento e sedativo das suas profundas preocupações intelectuais e filosóficas a ciência menor de construir pássaros e bonecos de papel.

ALENTO

Pego na régua, no estojo de compassos, e começo a fazer esboços e a desenhar. Passa um pássaro e acaba o poema.

ADIANTE

Se não soubéssemos o que é e o que não é; se apenas considerássemos certos motivos e certas cores; se as raízes da existência se encontraram numa outra vida; se a esperança fosse pouca e mal esboçada e se a palavra não fosse um acto, tão pouco estas linhas seriam um poema.

TEMPESTADE

O vento não existe; é a contração e a distensão das massas de um oceano de ar invisível que nos envolve. A chuva é uma ação, que é produto do sol e de outros fenómenos. Quero dizer que nenhuma ação, debaixo do sol, começa e acaba em si mesma.

O POETA ENCONTRA UM TEMA

O meu universo é o poema. Não me agrada imitar a natureza à maneira dos fotógrafos. Preciso de fazer jorrar a própria vida. E acaba o poema com uma estrofe que não é senão uma palavra: o Universo.

ENTRE SILÊNCIO E SILÊNCIO

Quero deixar evidentes que por detrás de uma ordem aparente se escondem muitas contradições; quis dar aos meus poemas uma aparência cuidada porque considero que para exprimir situações de violência nem sempre são adequadas posturas gesticulantes. A utilização de imagens deformantes já não permite abrir novos canais para a interpretação do mundo que nos rodeia.

FIM DO CICLO

As folhas caídas obstruem o caminho. Imagino ser o que não sou. Aqui, estou muito quieto. Procuro não me mexer e ocupar o mínimo espaço. Como se já lá não estivesse. O silêncio é o original, as palavras, a imitação.

A PEDRA ABERTA

Primeiro, esboço a lápis o que será o poema; depois, escrevo-o com tinta sobre um fólio cortado ao meio. Procuro sempre sintetizar.

O ÚLTIMO HOMEM

Apesar das aparências e das teorias, diz que tem medo da solidão; sente-se afastado dos objetos; tem medo de não ser mais do que uma coisa no meio das coisas, entre objetos sem nome: tem consciência de não estar aqui.

O CRISTAL DA PISTA

Raramente saí à procura de algum tema, aceitei sempre tudo aquilo que me chegava, mesmo que fosse na forma tão pobre de um recorte de jornal; nesta aceitação natural se foram formando os meus poemas.

ESBOÇO

O autor recusou-se a opinar sobre as interpretações; o campo dos significados continua assim aberto a toda a espécie de leituras e de novas propostas. As medidas, quando perdem o desígnio, estão mortas.

TEXTO

Aquilo que é definido como «informação» pode passar a ser «comunicação» graças a uma troca de sentido dos termos. Podemos comunicar a nossa própria experiência com materiais de pura informação. Quero eu dizer filtrar a subjetividade através da objetividade. Ou expressando a poesia com literatura de escritório, linguagem administrativa ou frases feitas. Muito longe do pós-simbolismo ou do realismo histórico, a transformação obtém-se no ato de «olhar», e não com a manipulação da linguagem.

UMA CENTELHA NA RETORTA

No fundo do fundo do fundo
da criação,
a vida deita fogo à vida.

EPÍLOGO

Conheço a utilidade da inutilidade.
E tenho a fortuna de não querer ser rico.

Nota do Autor a este poema: O autor parte da diferença entre os termos informação e comunicação. Uma informação acumula apenas conhecimento, e uma comunicação, para além disso, leva à participação. UMA CENTELHA NA RETORTA No fundo do fundo do fundo da criação, a vida deita fogo à vida. EPÍLOGO Conheço a utilidade da inutilidade. E tenho a fortuna de não querer ser rico.

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