José Luiz Tavares: Quando o rigor se faz poesia

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Com três livros já publicados – “Paraíso Apagado por um Trovão”, “Agreste Matéria Mundo” e “Cidade do Mais Antigo Nome” -, José Luiz Tavares nasceu no Tarrafal de Santiago (Tchom Bom) em 1967. É, hoje em dia, um dos nomes salientes da nova literatura cabo verdiana, sendo a sua poesia reconhecida em grande parte do mundo: recolheu prémios em Portugal, Espanha, Brasil e, naturalmente, Cabo Verde.

José Luiz Tavares

Radicado em Portugal, em cuja Universidade de Lisboa cursou Românicas, José Luiz Tavares tem uma obra difícil, de extremo rigor, que em parte recorda João Vário, em parte lembra Ruy Belo. Com ele tivemos uma breve troca de palavras que permite iniciar o leitor desta poderosa obra e apontar rumos para o seu pensamento original.

- O seu último livro publicado, “Cidade do mais antigo nome”, tem por tema Cidade Velha. Está mais algum na manga, no curto prazo?

JL Tavares - Da mesma natureza, há um livro em construção, em parceria com o fotógrafo Duarte Belo, cujo tema é o vulcão do Fogo e a paisagem de Chã das Caldeiras. Não sei quando o editaremos (embora a previsão seja para perto do natal), pois, como sabe, este tipo de projeto exige apoios que nem sempre se conseguem.

Aliás, você acompanhou a saga que foi “Cidade do Mais Antigo Nome”, que só foi possível concretizar-se graças, em grande medida, aos bons ofícios da Câmara da Cidade Velha.
Além desse projeto, tenho cerca de dez livros que aguardam oportunidade de edição.

- É geralmente apontado como um poeta ora de rigor na linguagem, ora de versos duros – como Alexandre Herculano, de verbo brônzico. Nota-se, sobretudo, uma excecional e criteriosa busca da palavra, quase matando o lugar que, por norma, se aponta à inspiração na poesia. Que valor atribui à inspiração, ao chamado estro?

JLT - As críticas e aplausos fazem parte desta vida. Há que nem amofinar-se com as primeiras, nem inchar-se com os segundos. O que Mica é a obra, se ela for consistente e, desse ponto de vista, pergunto: infelizmente, quantos têm dentes para a minha, aqui nestes rochedos do meio do mar?

- A sua obra publicada data do século XXI, embora o seu passado tenha lastro no século XX. De resto, já se apontou a si mesmo como poeta do século XXI. Considera que a obra que certamente escreveu no século XX não tem interesse para ser publicada?

JLT - A minha obra que conta é aquela que começa com “Paraíso Apagado por um Trovão”. Nada do que está antes tem importância. Aliás, eu aproveito uma parte ínfima daquilo que publico. Não acho que cada espirro meu seja qualquer coisa digna de figurar
num museu ou no catálogo das maravilhas literárias.

- Diz-se que tem afinco pelos prémios, que só publica tendo-os em vista. Concorda? Como reage a esta crítica?
JLT - A única inspiração que conheço é o trabalho. E o que me leva ao trabalho? O desassossego, o sofrimento próprio e alheio, a falta e os desconcertos do mundo.

Mas eu só escrevo, antes, por pressentimento, ou depois, por via do lastro e do sedimento que deixam, nunca enquanto estou mergulhado nessas afeções ou nesses padecimentos.

- Considera-se ainda um poeta “cabo-verdiano” (está em Portugal desde os 20 anos)? Quase não escreve em crioulo, dir-se-ia que tem disso horror… No entanto, poucos conhecem o seu labor (que tem sido farto) na língua crioula. Como é que se dá com o crioulo?

JLT - De há uns anos a esta parte que me tenho dedicado à escrita e à tradução para a língua Cabo Verdiana. Infelizmente, muito pouco do resultado desse labor está publicado.

Conhecidos do público há os textos publicados no Liberal e a versão para Cabo Verdiano do meu primeiro livro “Paraíso Apagado por um Trovão”, cuja versão bilingue saiu há dois anos, editada pela Universidade de Santiago.

Neste momento, tenho entre mãos um trabalho de grande fôlego que penso poder concluir em Minais de 2013.
Como vê a minha vida é só trabalho, trabalho, trabalho.

- Disse uma vez que sobreleva as máscaras pelo que mostram mais pelo que escondem (foi mais ou menos esta a frase). O que quis afirmar com isto?

JLT - O mais autêntico e mais profundo que um criador artístico consegue alcançar dá-se quando ele se transforma num outro pela força e pela necessidade de expressão. Daí que esse «outrar-se» é mais um processo de revelação do genuíno, profundo e autêntico, do que de ocultamento.

Mas quando disse a frase, se calhar terá sido em contexto mais prosaico e que tinha que ver com algum anonimato cobarde e pérfido que, infelizmente, a internet propicia e ao qual alguns lançam mão para bolçarem toda a espécie de imundície que ocultam nas entranhas e que tem a ver mais com a miséria moral, inveja e frustração do que propriamente com as humanas falhas ou faltas dos visados.

A liberdade de expressão tem o seu contraponto na responsabilização por aquilo que se diz. No país da liberdade de expressão, o estado de Nova York está a preparar legislação específica contra essa prática abusiva.

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