Luzí(a)das e Voltas do Avô Camões

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Ao Manuel António Pina–Prémio Camões 2011 e Dalton Trevisan- Prémio Camões 2012

Caro poeta, o inesperado acabou por acontecer, não tardou, ele anda a uma velocidade cósmica tal como a luz em brasas.

O velho adágio diz: a esperança é a última a morrer, mas consigo foi diferente, ela chegou de forma inusitada, em ti ainda não tinha nascido, coitado morreu ainda no ventre da sua mãe.

Eu o vi no Rio de Janeiro de mãos dadas com os seus dois netos ­ João Ubaldo Ribeiro e Ferreira Gullar à entrada da Biblioteca Nacional, digo-te que o avô está rejuvenescido, ele passou todo o ano 2010 com Ferreira Gullar, foram a Maranhão.

Na última conversa que tive com o avô, quando lhe perguntei sobre a poesia, ele disse-me que já não sabe escrever, bem sabe sujar o poema pois aprendeu com F. Gullar.

Quando chegarem a Portugal não o deixe icar em Lisboa, porque aí, ele vai te largar, pois o rio Douro reflete a luz do sol após a sua enciclopédica voz, a Torre de Belém evoca os seus cantos e o Mosteiro dos Jerónimos tem o seu rosto, e com certeza ele perguntar-te-á sobre Miguel Torga, Sophia de Melo Breyner Anderssen e José Saramago (não lhe diga que subiram às estrelas), diga-lhe que exilaram-se na memória do povo, pois com o Saramago aprendeu a viajar como o Elefante, ele não se esquece de nada, vai te contar as estórias da Índia e do Vasco da Gama, A terra Sem Fim, foi por isso que António Lobo Antunes chamou-o "Memória de Elefante".

Volto a repisar, nunca aborde a questão da morte com ele: porque para ele a morte é um Reflexo num Espelho Ausente, como ele vive de lembranças irá procurar o espelho em todos os cantos do mundo, vai te falar da ilha dos amores e da casa do rei, você conhece? Foi o que aconteceu comigo, Autran Dourado, João Ubaldo Ribeiro e Ferreira Gullar quando passeávamos com ele, e alguém disse aquela é a casa dos Budas Ditosos, sorriu e em seguida mandou parar a viatura. Descemos juntos com ele, chegamos perto da casa, dentro da mesma tinha um monte de gente armada a intelectual, políticos e bêbados, dirigiu-lhes a palavra:
­

Tudo bem com vocês, posso ler um poema para vocês?, e eles responderam:
 - Nós somos do partido no poder, nos distinguimos com os ideais do FMI, Banco Mundial e da NATO. Ele respondeu:
 ­ ...vão se danar, vocês todos, mentirosos, mentirosos, a esmagadora maioria hipócrita e santarrona, viva nós os mentirosos à força, os conscientes (1).

Saímos com o velho Camões a arder de nervos e de repente disse: ­ Vamos à Bahia. Mandem um fax ou liguem para o Jorge Amado dizendo que estamos a caminho.

Ficamos em silêncio, sem saber qual seria a resposta a dar ao velho Camões.

Será que não ouviram o que eu disse. Querem que eu repita?
­retorquiu ele ­ Oh, Vô!, o Jorge Amado não está na Bahia
respondemos em coro com vozes a tremer de medo.
­

Para onde ele foi, digam-me o que está a acontecer. Vocês estão estranhos, digam onde ele está, afinal!

O Ferreira Gullar disse-lhe o seguinte: ­ O Jorge foi ao Japão ajudar o Kenzaburo, o da tragédia que assolou aquele país nipónico irmão. Não se trata de uma questão pessoal, mas de uma questão natural.

Prezado amigo, previne-te e não toque neste assunto, leve-te a (Sabugal) Guarda de carro. Não te atrevas a viajar com ele de barco, pois falar-te-á da Índía e quando chegarem e ele te perguntar se já chegaram à Casa Perdida?, responde-lhe:

Ainda Não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma ! É Apenas um Pouco Tarde. E quando perguntar-te onde estão, responde-lhe seguinte:

Estamos No País das Pessoas de Pernas Para o Ar, nunca digas que estão em Portugal, porque irá te pedir para irem a Leiria. Sei que da África Portuguesa conhece pouco ou por outra ainda não a visitou.

Pede para que te conte sobre a sua estadia em Moçambique com José Craveirinha, verás o sorriso que dilacera os seus olhos e a doçura do mel que unta as suas sábias palavras.

Falar-te á das doces tangerinas de Inhambane, daquela dança denominada Chigubo e daquela mulher linda que ele apadrinhou aquando do seu casamento com Craveirinha, a Maria.

Conheceu Angola pelas mãos do Pepetela, e foi lá onde acreditou que o homem é o melhor amigo do cão, quando viu o Cão e os Caluandas sempre juntos, e se quiser saber mais da guerra, pede-lhe, ele vai te falar do Mayombe, e foi em Angola onde escalou a Estepe e o Planalto.

Volvidos 9 anos voltou a Angola, ao encontro do José Luandino Vieira mas, para desilusão de todos nós, o Luandino não quis recebê-lo, alegando não sendo ele a pessoa indicada para o receber, e recusou por motivos íntimos e pessoais.

Mas o avô Camões não voltou, foi recebido como rei pela comunidade de Luaanda, gente humilde onde o singular não tem expressão, o coletivo é a palavra de ordem.

Quando interpelou um deles perguntando-lhe o nome, responderam todos em coro dizendo:
­Nós, Os do Makulusu. Ficou muito feliz, coisa jamais vista. Saíram da cidade a caminho do subúrbio onde vive esta humilde comunidade. O avô Camões inconformado, irrequieto, quando viu aquelas casas de madeira e zinco, questionou:
­Esta não é a Mafalala do José Craveirinha? Responderam:
- Não, este é o Nosso Musseque. Questionou de novo:
- E aquela senhora não é a Dona Flor com os Seus Dois Maridos? Responderam:
­- Não, aquele é o João Vêncio e Os Seus Amores.(2) E sobre Cabo-Verde, onde esteve em 2009 com o Arménio Vieira, será a partir deste debate- papo com o velho Camões que perceberás que em África não estamos no Inferno, como todo mundo diz.

Aquela beleza da Cidade de Praia, ímpar, é um verdadeiro Eleito Do Sol, a Ilha do Sal é a raiz de todas as Mitograias deste povo Crioulo ­ assim ele definiu Cabo-Verde.

E quando estiveres a pintar as palavras não deixes os Papéis espalhados, o velho Camões não gosta de ver desarrumações, caso isto acontecer, ouvirás a seguinte questão:
­- São Papéis de K? Responde o seguinte:
­- São Livros ­ e não o digas que são poemas, percebeste? Porque com o Poema, o Velho Camões encontra a sua Viagem e o Sonho. - - - Caro poeta, abrace-o e ande com ele com muita cautela, pois ele está velho, esta é a sua 25ª viagem ao mundo Lusófono, depois de ele te contar todo o essencial das suas digressões. Conte aquela interessante História do Sábio Fechado na sua Biblioteca. Manda muitos abraços, beijos, cumprimentos e larguras, e diga a ele que estamos à espera dele muito em breve. E quando te perguntar de mim, diz que estou trancado na biblioteca a aprender a recriar mundos, tal como fez Saramago no seu Memorial do Convento (o Convento de Mafra).

Kanimambo pela atenção dispensada, poeta.

Notas:
(1) in a casa dos budas ditosos pág. 144 de João Ribeiro.
(2) Romance de Luandino Vieira
(3) todas palavras a itálico referem as obras ou textos dos autores laureados pelo Prémio Camões
(4) todos nomes a bold referem-se ao autores laureados.



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