Mahamba 20 anos de luta por um espaço

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A vida é um chá sem açúcar.

Mahamba 20 anos de luta por um espaço
O teatro Fotografia: Jornal Cultura

Temos que adoçar ao longo dos dias que nos separam da morte. O percurso do grupo Mahamba: Criação e Produções Artísticas foi assim. No início sem sabor, difícil, mas a persistência deu resultados. O grupo já tem 20 anos, apesar de não ter um espaço próprio para ensaios, garante que “combateu um bom combate”. Para assinalar as duas décadas, o grupo preparou uma série de espectáculos para os próximos meses.
Maria Atalia (Zinha) pediu um chá sem açúcar e um pacote de bolachas. Abre do pacote, parte ao meio a primeira bolacha e compartilha com o irmão, Dadivo José. Em simultâneo introduzem a bolacha na chávena. Alguns dos seus alunos passam do local onde estamos sentados e os comprometam com gestos informais e um leve sorriso. Depois de terminarem as metades da bolacha, ainda com as migalhas a pintarem os seus lábios, eles abrem um outro pacote, não de bolachas, mas de memórias e nos dão a conhecer o percurso do seu grupo.

A génese de um sonho
Mahamba já foi um grupo numeroso, mas actualmente é formado por dois membros: Dadivo José e Maria Atalia. Ele é actor, dramaturgo, encenador, historiador e docente. Ela é actriz, encenadora e docente. Além dos laços de sangue, eles compartilham o gosto pelas artes.
“Fazíamos parte do grupo Voz Verde. Em 1995, eu e alguns dos membros deste grupo saímos e formamos o grupo Mahamba”, recorda Dadivo.
Pela idade Atalia não integrou o grupo no princípio. “Minha família ficou contra, pois eu era muito novinha. Na época, não era comum um pré adolescente fazer parte de um grupo artístico”.
Do zero, o grupo sonhou fazer arte. “Faltava tudo, mas persistimos, pois tínhamos força vontade, criatividade e muita paixão pelo que fazíamos”, narra Dadivo.
Com Semião Mahumane como pilar do grupo, encenador, dramaturgo e director artístico, o grupo sobreviveu. “Ele era o mais experiente, com formação em Teatro, e conhecia o mercado, tinha bons contactos”, admitem.
Das mãos dele saiu a primeira peça do grupo: “Carta de um Morto Indisciplinado”. A peça foi concebida, em 1996, e exibida, em 1997, em uma temporada no Cine Teatro Gil Vicente. Com a peça o grupo participou no Festival de Teatro da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral).
Dadivo gesticula com emoção quando recorda da peça. Nela ele foi o protagonista. “Apesar de ter iniciado a minha carreira em 1992, já ter alguma experiencia, ser actor principal é uma responsabilidade. Eu ainda era miúdo. Recordo que em Carta de um Morto Indisciplinado tinha 15 minutos de monólogo, foi um desafio para mim”.
Nesta peça Atalia entrou em cena e encarnou a filha do viúvo. “Foi um papel marcante. Na peça vesti a capa de uma menina provocante. As pessoas me interpelavam na rua e aplaudiam-me pelo meu trabalho”, narra entre suspiros de emoção.
Mahamba trazia uma mistura de teatro, dança e musica. Uma forma de teatro alternativo que arranca aplausos e apreço do público. Com a primeira peça o nível anímico do grupo foi crescendo.
Entre os anos de 1998 e 1999 Mahumane deu a luz (escreveu e encenou) “ O Fogo da rainha Marromana”. “A peça foi exibida em temporada no teatro Avenida. Com ela participamos no festival Savuka da Suazilândia e no Festival de Agosto de 1999”, lembra Atalia.
Nesta época a divulgação das peças era um problema. “Não existiam redes sociais, só tenhamos a rádio e a televisão e por vezes não tenhamos fundos suficientes para tal”, recorda Dadivo. A peça “Os Olhos Fofoca” tenha tudo para dar certo, mas pela fraca divulgação foi exibida apenas uma vez.

A crise
Na viragem do milénio, enquanto o mundo questionava-se sobre o fim da terra. Os membros do Mahamba debatiam-se pela sobrevivência grupo. “Viveu-se uma saída de recursos humanos: o nosso encenador e dramaturgo, Semião, foi fazer o seu mestrado no exterior. A formação académica propiciou a saída de outros membros do grupo. Para piorar a situação, perdemos o espaço onde ensaiávamos”, recordam.

O grupo estava por um fio.
Seria esse o fim?
“Apesar da fase difícil, não nos deixamos abater. Focamos. Abrimos um espaço para novos talentos e ensinamos o pouco que sabíamos para eles. Em paralelo desenvolvíamos outras actividades” narra Atalia.
“E a história repete-se. Do mal, por mal, para o mal”, de 2002 a 2003, marcou o regresso aos palcos do grupo Mahamba com a direcção Dadivo José e encenação Policarpo e Elliot Alex. A Peça foi exibida durante dois meses no teatro Avenida. No Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM) e no teatro Mapiko. Mais tarde, a peça foi reposta pelo grupo Luarte.

Teatro comunitário: educando através da arte
O ano de 2003 marcou esse grupo. “Firmamos uma parceira com a FDC. Desenvolvi pesquisas sobre comportamentos de risco e aspectos culturais que interferem na discussão em volta do HIV/SIDA. Fruto desta pesquisa foi criada a peça Tudo pela Vida”, recorda Dadivo.
Esta foi exibida de 2003 a 2006 em todos os distritos da zona sul de Moçambique, todas as capitais provinciais de Moçambique, atingiu uma audiência de mais de 30. 000 Espectadores.
A parceira com a FDC mostrou-se eficaz. Durantes estes três anos foram organizados Três Road Shows de Teatro contra Sida em toda zona sul, tendo feito mais de 300 eventos de carácter mobilizador.
Além dos road shows, foram organizadas palestras, debates, espectáculos, entre outras actividades de sociabilização das populações. Mesmo com o término da parceira com a FDC, o grupo continua a desenvolver o teatro comunitário.
O teatro comunitário executado por este grupo tem outros ingredientes para além da sensibilização, educação cívica. “Mostramos que é possível fazer teatro de qualidade e educar. O nosso teatro tinha as marcas da cultura, humor e muita arte. Trabalhávamos no figurino, na encenação, representação”, detalha Atalia.
Além da exibição de peça, este grupo fazia, e ainda faz, formações de activistas e actores activistas. Por exemplo, no ano passado, 2014, foi feita a formação de 25 crianças e jovens activistas, dos 13 a 20 anos, em matéria de direitos da criança.

Outro olho focado nos palcos
Em paralelo com as actividades de sensibilização, o grupo continuo trabalhando em outras peças. Em 2003, foi concebida a peça o Rei Ubu, uma co-produção Mahamba e Teatro Agora da Finlândia. Peça exibida em Maputo no CCFM. Outras peças surgiram, tais os casos de: Na Aldeia dos Mistérios (2005), Mulheres – Guerras - Harmonia II (2004). No ano de 2006, Dadivo José escreveu e dirigiu Embrulhados na Inocência para o grupo Luart. Peça exibida pelo grupo Luarte em 2006 e 2010 no palco de Teatro Avenida e para os membros da Policia, dado carácter crítico em relação aos valores no seio da polícia.

Academia ao serviço dos palcos
O ensino e a aprendizagem é um dos focos do grupo. “A academia esteve sempre a frente, em primeiro. Teve uma época que pausei para terminar o meu curso, Ensino de História e Geografia, na Universidade Pedagógica. Depois comecei a leccionar na Escola Secundaria de Laulane. Recebi uma proposta para ser docente na Escola de Comunicação e Arte (ECA), mas precisava de mais condimento. Licencie-me em drama na Universidade da Wits na África de Sul e teve uma formação na Holanda e dai me senti firme para leccionar” narra.
Atalia tem uma certeza: as formações trouxeram robustez ao grupo. “Também investe na formação. Sou licenciada em Teatro, com inclinação para encenação, na ECA onde actualmente sou docente. Com os conhecimentos que obtemos encaramos o palco com outros olhos” constata.

Os culpados
É impossível narrar o percurso do Mahamba sem mencionar a peça Culpado? “Combati um bom combate” 2 Timóteo, 4:7.
Dadivo José tirou das muralhas do esquecimento, um ex-combatente na guerra civil de Moçambique e trouxe para o palco. No meio de revelações “a peça retracta a questão do trauma colectivo. O que vem a cabeça destes homens que viveram a guerra de perto”, expressa Dadivo.
Atalia teve a missão de encenar. “É uma peça complexa. Ela exigiu muito de mim, fiz o meu máximo e o resultado é a repercussão que ela tem”.
No palco, duas personagens, pai (ex-combatente) e filho, folheiam as páginas de uma história pouco falada. Ambrósio foi o primeiro a interpretar o papel de filho, por questões ligadas a formação, deixou o lugar vago.
Horácio Quiamba, teve em suas mão a oportunidade de pegar neste papel e contracenar com Dadivo. “Não é possível substituir alguém, cada actor é um universo. Para a interpretação do papel, recebi algumas aulas de História de Dadivo e no final deu certo: Fiz o máximo, e dei o meu DNA a personagem”.
Para Horácio este não era a primeiro trabalho com esta dupla. “Já havia participado com eles em trabalhos de teatro comunitário. Atalia me encenou no meu espectáculo de defesa na ECA. E já havia feito alguns trabalhos na academia com Dadivo”.
Agora existe um desafio para os autores: representar a peça em inglês e participar em mais festivais internacionais com ela. “Já fizemos com outros trabalhos, vamos tentar repetir o feito”, aclara Dadivo.

O que se esconde na Morgue
O mistério é um dos fascínios dos membros do agrupamento Mahamba. Em 2011, Atalia Encenou Psicose 4:48, e percorreu de pés descalços os camilos do obscuro. Essa galgada lhe valeu prémios em festivais internacionais. Com essa experiencia encenou, em 2012, Lá na Morgue. Em parceira com o seu irmão (no texto e direcção musical), retractou a rotina de um “morgueiro”.
No palco Dadivo José e a actriz, Milsa Ussene, trouxeram ao palco a rotina dos profissionais que cuidam dos nossos corpos depois da vida.

20 Anos de luta por um espaço
Apesar dos anos e da experiencia adquirida, o espaço para ensaiar ainda é um obstáculo. O grupo se mantem graças a criatividade e instinto de sobrevivência. “Ainda não temos um espaço próprio, ensaiamos em qualquer local. Depois do tempo útil das aulas usamos o ECA como a nossa base. Além deste sítio, podemos estar em outro que nos possibilite o desenvolvimento da nossa arte”, afirma.
Ao longo dos 20 anos, o grupo tem a profissionalização como uma das grandes conquistas. “Encarramos o teatro com profissionalismo. Nos falta o aparato financeiro, mas esse é um problema que todos os grupos se debatem”, esclarece Dadivo.
A liberdade é uma palavra que ganha vida na encenação de Atalia “Ela sabe dar espaço para o actor. Sabe ouvir a opinião dos outros, deixa-nos livres. E acima de todo, na encenação, ela protege os atores com quem trabalha”, descreve Horácio.
Dadivo vê o palco como um sector de trabalho. Encarra as personagem que vive como força-tarefa e quando acaba o expediente volta a casa para viver outra vida. “Ele é um profissional exemplar. Contracenar com ele é uma experiencia prazerosa”, adjectiva Guiamba.
Combate, frustração, persistência e conquistas, são algumas das palavras que marcaram o percurso do grupo teatral Mahamba. “Os nossos 20 anos são a prova de com trabalho é possível alcáçar resultados”, afirma Atalia. Dadivo acrescenta que “é um orgulho, uma conquista manter o grupo em pé durante este período”.
O grupo está a preparar uma serie de apresentações. “Temos dois monólogos no forno. Algumas digressões internacionais por confirmar. Este ano ainda faremos a apresentação da peça Culpado?”, afirma Dadivo.

O primeiro palco
de Dadivo e Atalia
Atalia não tem dúvidas: o bairro de Maxaquene foi o primeiro palco que eles percorreram. “O nosso bairro ensinou-nos muito. Num ambiente caracterizado pela criminalidade e prostituição conseguimos nos construir como gente. A nossa educação nos fortificou”.
Dadivo acrescenta “O contacto com as pessoas do meu bairro e os livros me formaram, e transformaram-me no que sou hoje ”.
Eles não têm dúvidas, a família teve um contributo marcante neste trajecto. “Os nossos pais desempenharam um papel chave na nossa educação. Eles apoiaram-nos de forma incondicional. Contra as adversidades, conseguiram nos educar”.

HELIO NGUANE

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