Mário Domingues: Santomense filho de angolana foi o escritor mais fecundo da Língua Portuguesa

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Editor, publicista, jornalista, tradutor, historiador, anarquista, mas sobretudo escritor, que o foi dos mais fecundos no panorama literário português desde sempre, de seu nome completo Mário José Domingues, personalidade atualmente quase esquecida mas, em vários planos, tão fascinante como as consideradas das maiores do nosso século e, ultimamente, badaladas a preceito, realmente, depois de Camilo Castelo Branco, Mário Domingues é um dos primeiros casos de escritor profissional em Portugal, ultrapassando, em número de títulos e extensão de colaboração dispersa, a obra dos outros escritores profissionais seus contemporâneos, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro.

Nascido em 3 de Julho de 1899 na ilha do Príncipe, mais exatamente na roça Infante D. Henrique, propriedade da firma Casa Lima & Gama, cuja sede e escritório ficavam em Lisboa, na baixa pombalina, era ilho de mãe angolana, que se chamava Kongola ou Munga e era natural de Malange, tendo ido para a ilha do Príncipe como contratada (à força) com quinze anos.

O seu pai, António Alexandre José Domingues, oriundo de famílias liberais, na impossibilidade de libertar a mãe, devido a uma vingança do capataz da roça, que não levou a bem que o tenha denunciado por maus tratos ao pessoal, enviou-o para Portugal aos 18 meses de idade, tendo ficado confiado à sua avó paterna, que se encarregou da sua educação.

Fez os seus estudos em Lisboa, revelando desde muito novo vocação para as Letras e igualmente para as Artes ­ o seu primeiro sonho foi ser pintor, vocação que viria a inculcar no ilho mais velho, o artista plástico António Pimentel Domingues, que integrou o Grupo Surrealista de Lisboa e que viveu alguns anos em Angola, onde ilustrou várias obras de autores angolanos, nomeadamente "A Sagrada Esperança", de Agostinho Neto, e os livros de literatura infantil de Eugénia Neto.

Contrariado, por motivos económicos, enveredou pela carreira do Comércio, chegando a ser ajudante de guarda-livros e correspondente de Francês e Inglês ­ o que lhe valeria especialmente para, mais tarde, fazer dezenas de traduções dos clássicos da língua inglesa, nomeadamente Charles Dickens, George Eliot, Wilkie Collins e Walter Scott, entre muitos outros ­ mas consagrava todos os sues ócios ao estudo de problemas literários e artísticos.

Com o seu nome próprio, no capítulo da ficção, Mário Domingues publicou a sua primeira "novela curta", Hugo, o pintor, em 1921, a que se seguiu Delicioso Pecado (1923), e A Audácia de um tímido (1923). Em volumes, Entre vinhedos e pomares (1926), Anastácio José (1928), O Preto do Charleston (1930), Uma luz na escuridão (1937), O crime de Sintra (1938), Jesus e a sua vida maravilhosa (1943), O cavaleiro, o monge e o outro (1948), e o romance autobiográfico.

O menino entre os gigantes (1960), que, como ele considerou, «A mensagem que irradia como um perfume do meu romance O menino entre gigantes é toda uma ternura: é todo um apelo à fraternidade entre os homens de todas as cores e condições» Século Ilustrado, 25/3/61.

Por outro lado, no capítulo das evocações históricas, integradas num grande projeto que intitulava Visão dos Tempos, o labor de Mário Domingues é vasto e diversificado, especialmente na Série Lusíada, em que faz um fresco muito objetivo e esclarecedor das grandes figuras da História de Portugal, denunciando os erros e elogiando algumas qualidades, mostrando os seus dotes de narrador e historiador.

No capítulo da História são ainda de referir os anunciados Escorços Biográficos, destinados especialmente às camadas mais jovens, escritos com um sentido didático muito evidente e com uma objetividade a toda a prova.

Aparecerem integrados na Coleção "Quer Saber?", da Civilização, do Porto, e chegaram a sair Fernão de Magalhães (1959), Fernão Mendes Pinto (1958, além de A Lição de Alcácer Quibir (1975). É também de referir a publicação de uma interessante dissertação O Infante D. Pedro, Príncipe Europeu (1964), integrado na Coleção História de Portugal, da Empresa Nacional de Publicidade.

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