Mário Domingues: Santomense filho de angolana foi o escritor mais fecundo da Língua Portuguesa

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Editor, publicista, jornalista, tradutor, historiador, anarquista, mas sobretudo escritor, que o foi dos mais fecundos no panorama literário português desde sempre, de seu nome completo Mário José Domingues, personalidade atualmente quase esquecida mas, em vários planos, tão fascinante como as consideradas das maiores do nosso século e, ultimamente, badaladas a preceito, realmente, depois de Camilo Castelo Branco, Mário Domingues é um dos primeiros casos de escritor profissional em Portugal, ultrapassando, em número de títulos e extensão de colaboração dispersa, a obra dos outros escritores profissionais seus contemporâneos, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro.

E vale a pena ainda salientar que também experimentou o folhetim com Amores do Príncipe Perfeito, começado em 5 de Agosto de 1965, no Diário de Notícias, que o apresentou de modo totalmente entusiástico: "É um escritor medularmente escritor, apaixonado de claridades, que conquista a simpatia e concita a admiração, não de um público, mas de vários.

Não fala a alguns, mas a todos. Tem a ciência de agradar e a técnica de empolgar, tornando atraente o que é árido, luminoso o que é obscuro". Mário Domingues demarcou uma época bem definida do jornalismo português: ele foi, com Reinaldo Ferreira, o famoso "Repórter X", porventura o mais célebre dos narradores populares e cívicos de uma dada realidade social, onde a sua interpretação se filiava, frequentemente no onírico e no imaginativo.

Repórter antes de tudo, Mário Domingues corresponde, como personagem e como autor, à ilustração de um tempo dourado: os loucos anos 20. A catarse que tinha como ponto de partida o "jazz", a morfina, os paraísos artificiais, o enigma, encontrou a sua expressão na arte, na literatura, no teatro ­ e no jornalismo.

Ora o papel de Mário Domingues na história (a tantos títulos fascinante) dessa experiência sem paralelo e sem continuadores foi de tal maneira importante e tem sido tão esquecida, que cremos ter chegado o momento de a situar exemplarmente, para que possa, finalmente, ser-lhe feita justiça, treze anos depois do centenário do seu nascimento.

Tendo-se familiarizado com os assuntos policiais e de aventuras quando em 1930 chefiou a redação do Repórter X, aproveitará estes conhecimentos para dirigir, entre 1932 e 1934, o semanário O Detetive, que tanto contribuiu para fomentar, entre o grande público, o gosto por estes temas.

A seguir, dissimulado em inúmeros pseudónimos estrangeiros, alguns dos quais muito popularizados, escreveu mais de umas centenas de romances policiais, "cor-de-rosa" e de aventuras, que se venderam geralmente com grande êxito.

A sua obra fala de si como um grande combatente da liberdade e da justiça social. Levando, justamente, a considerarmo-lo como um paladino da mudança com vista a um mundo melhor e a uma sociedade portuguesa, em que se integrava apesar de africano, onde não houvesse tanta desigualdade e prepotência, luta de que é paradigma o seu romance Senhores e Servos.

Estudioso inveterado, prosador portentoso, com um estilo muito peculiar, corrente como a água serena de um rio, ele foi bem o exemplo de como o homem se pode consagrar uma vida inteira a um ideal se tiver vontade e for vigoroso e perseverante nos seus intentos. Bateu-se sempre pelos seus princípios e não olhava a meios para fazer chegar a sua mensagem, que era de justiça e pelo bem estar social.

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