Mário Domingues: Santomense filho de angolana foi o escritor mais fecundo da Língua Portuguesa

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Editor, publicista, jornalista, tradutor, historiador, anarquista, mas sobretudo escritor, que o foi dos mais fecundos no panorama literário português desde sempre, de seu nome completo Mário José Domingues, personalidade atualmente quase esquecida mas, em vários planos, tão fascinante como as consideradas das maiores do nosso século e, ultimamente, badaladas a preceito, realmente, depois de Camilo Castelo Branco, Mário Domingues é um dos primeiros casos de escritor profissional em Portugal, ultrapassando, em número de títulos e extensão de colaboração dispersa, a obra dos outros escritores profissionais seus contemporâneos, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro.

Efetivamente, nada do que ele escreveu foi gratuito. E especialmente quando eram romances policiais e de aventuras, que apareciam assinados com os nomes de Henry Dalton & Philip Gray ­ com este pseudónimo escreveu 92 volumes - Marcel Durand, W. Joelson, Fernand d'Almiro, Fred Criswell, F. Hopkins, Henry Jackson, James Black, James W. Sleary, James Strong, J. W. Powell, Joe Waterman, John Ferguson, Max Felton, Max Parker, Nelson Mackay, Peter O'Brion, William Brown, Thomas Birch, Guida de Montebelo, Marcelle de Sérizy, C. De La Touraine, Clau Weber, Repórter Mistério e André Chevalier, entre muitos outros.

Mascarando-se, travestindo-se, encarnando personagens reais do submundo lisboeta, contou, em páginas palpitantes de emoção, a existência marginal de vagabundos, ladrões, chantagistas, proxenetas e drogados. As suas reportagens tinham a chancela de uma época de rutura e a brevidade do exigível pelo efémero.

Como jornalista, além de abundante colaboração em A Batalha, no Repórter X, do seu amigo Reinaldo Ferreira, e depois no Detetive, Mário Domingues teve dispersa e apreciada colaboração nos jornais Avante, vespertino publicado em 1919, Século da Noite, A Pátria, A Tarde, sob a direção de Jorge de Abreu, Primeiro de Janeiro, Humanidade, Século Ilustrado, Sol, Notícias de Lourenço Marques, Libertad, de Madrid, e na revista Vida Mundial, tendo-se nesta ultima distinguido pelos seus ensaios de investigação histórica até quase  à data da sua extinção, não esquecendo as suas interessantes crónicas, novelas e reportagens nas revistas ABC, Renovação, Magazine Bertrand, Ilustração, Civilização,
entre muitas outras.

De uma lucidez extrema e antecipando-se politicamente, Mário Domingues é o primeiro jornalista em Portugal a tomar posição clara sobre a questão colonial, para o que utilizou no jornal A Batalha, em1921, uma série de trinta artigos sob o título genérico para a história da colonização portuguesa, em doutrina que depois confirmará, em 1935, na sua revista África Magazine, de que se chegaram a publicar 3 números.

Não é de excluir, antes pelo contrário, que a Carta a um negro sobre a escravatura, assinada por "Uma voz que proclama no deserto" seja da sua autoria. Se estivermos atentos à forma como ele depois escreve o Senhores e Servos e Anastácio José, duas obras primas de preocupação social, não é difícil perceber que ele é bem o autor desta comparação entre o colonialismo português e o britânico: «Os ingleses têm pelo negro o mais afrontoso dos desprezos.

Não o consideram gente: tratam-no, porém, como a um animal, alimentam-no convenientemente e não lhe fornicam as mulheres. Os portugueses não exploram o negro o mais que podem, não lhe pagam e não lhe dão de comer. Em troca civilizam-no .Civilizar, para eles, significa sifilizar-lhes as mulheres e por elas toda a raça, e alcoolizar os homens, incapacitando-os a todos para a vida e o pensamento. A obra da colonização portuguesa resume-se a isso».

Na sua revista África Magazine, de que foi diretor e proprietário conjuntamente com Viana de Almeida, ele expenderá com muita argúcia e maior visão de futuro, o que pensava desta questão. No número 3, num editorial intitulado "O Império Português", chega a ser de uma clareza total: «A primeira riqueza de um povo é a terra onde nasceu e onde vive.

Dela derivam todas as outras riquezas. É a posse da terra que cria nas populações interesses económicos. Ora, o povo das colónias portuguesas, como aliás o das estrangeiras, não está de posse da terra. Por argúcia do colono branco, apoiado pelos interesses mal compreendidos do estado português e favorecido pela incultura e ignorância dos africanos, a terra, amais produtiva e rendosa, tem transitado das mãos dos pretos para as mãos dos brancos.

O preto passou da situação de proprietário, que mal sabia trabalhar, é certo, para ade assalariado mal remunerado. Assim, como pode ele encontrar estímulo para o trabalho, desejo de ver progredir a sua terra, se deste progresso e desse trabalho não tira proveito aceitável? Desta forma, não pode existir entre o branco e o preto solidariedade de interesses económicos, tão necessários como os interesses de idioma e de raça para a formação do grande império português que o Dr. Armindo Monteiro, cheio de entusiasmo, pretende construir».


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