Mo Yan, prémio Nobel da Literatura 2012

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O escritor chinês foi galardoado pela Academia Sueca pela sua capacidade de combinar «os contos populares, a história e a contemporaneidade com um realismo alucinante»

O escritor Mo Yan foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura 2012. O júri destacou que o autor chinês «combina os contos populares, a história e a contemporaneidade com um realismo alucinante».

Renata Giraldi, da Agência Brasil, conta-nos que "para especialistas em literatura, as obras de Yan têm forte conteúdo crítico sobre circunstâncias sociais, mas alia essa característica ao realismo mágico de Gabriel García Márquez.

Nos seus textos, o chinês se dedica a detalhar imagens, cores e micro-histórias. Ele costuma falar da sua região, o Nordeste da China, e do interior do país. Segundo pessoas próximas ao escritor, ele gosta de escrever, originalmente, em chinês tradicional, usando apenas papel e pincel. Costuma ser ágil na sua produção literária e gosta de contar a origem do seu pseudónimo."

«Geração perdida»

 Nascido em 1955 na província oriental de Shandong, no seio de uma família de camponeses, Mo Yan pertence a essa «geração perdida» de chineses que teve que deixar os estudos para trabalhar numa fábrica durante a «Revolução Cultural» (1966-76) de Mao Tsé-Tung. Com 20 anos ingressou no Exército Popular de Libertação, onde começou a escrever os seus primeiros relatos, no princípio dos anos 80, ante o olhar inquisitivo dos seus superiores.

Mo Yan significa em mandarim «abstém-te de fazer comentários»

Depois de ser nomeado professor de Literatura na Academia Cultural do Exército, Mo Yan alcançou renome mundial graças a adaptação cinematográfica da sua novela «Sorgo vermelho» que foi a estreia do diretor Zhang Yimou e da atriz Gong Li e ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim, em 1988. Ambientada, como muitas das suas obras, nos povos da sua província natal que o viram crescer e passar fome, «Sorgo vermelho» retrata a azarenta vida de uma jovem que é vendida ao dono leproso de uma destilaria, durante os violentos anos da ocupação japonesa (1931-45).

Influenciado pela ironia social de Lu Xun, o pai da Literatura chinesa contemporânea, o realismo mágico de Gabriel García Márquez e de autores ocidentais como William Faulkner, Mo Yan cultivou um fino sentido do humor, bastante negro às vezes, em títulos como «A vida e a morte estão a desgastar-me» e «Grandes seios, coxas largas», ambos publicados em espanhol pela Kailas.

Homenagem às sofridas mulheres chinesas

Em «A vida e a morte estão a desgastar-me» repassa a turbulenta história da China, durante a segunda metade do século XX, graças a uma metafórica reencarnação budista que converte um fazendeiro executado pelos seus «pecados burgueses» num burro, num boi, num porco, num cão, num macaco e, finalmente, de novo numa criança.

Em «Grandes seios, coxas largas», proibido na China, a sua visão histórica amplia-se desde os últimos tempos da dinastia Qing até ao fim do maoísmo para homenagear as sofridas mulheres deste país, uma vez que a sua protagonista, casada com um homem impotente, tem oito filhas fora do seu casamento antes de dar à luz o ansiado rapaz.

Enquanto em «As baladas do alho» (Kailas) volta a depositar o seu olhar na China rural durante o princípio das reformas económicas iniciadas por Xiaoping em 1978, em «A República do vinho» critica a corrupção de um regime que ainda se denomina comunista, mas pratica o capitalismo de Estado mais selvagem, enquanto uma sociedade anestesiada pela modernidade e o dinheiro se entrega aos prazeres da comida e do álcool depois de décadas de penúria.

Com estas obras monumentais, o mundo inteiro e os seus próprios compatriotas, conheceram um país tão fascinante, mas também brutal como a China. E tudo graças a um escritor que, curiosamente, não queria falar.

Prémio Mao Dun

Em 2011, Mo Yan ganhou o Prémio Mao Dun, o mais importante galardão literário oficial do país, e foi eleito vice-presidente da Associação dos Escritores da China.

O seu mais recente romance, "Frog", aborda um tema especialmente sensível: a prática de abortos forçados na China devido à drástica política de controlo da natalidade imposta há três décadas sob a fórmula "um casal, um filho".

"Em todos os países há certas restrições à escrita", disse o autor numa entrevista concedida há dois anos à revista Time. Mo Yan considera que "um escritor deve enterrar os seus pensamentos e transmiti-los através dos personagens dos seus romances".

No ano passado, o Prémio Nobel de Literatura foi concedido ao sueco Tomas Tranströmer.


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