MÚSICA AFRICANA E ESCRAVATURA

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O mundo atlântico registou, a partir do século XVI, um dos tráficos de escravos mais importantes da história da humanidade.

MÚSICA AFRICANA  E  ESCRAVATURA
MÚSICA AFRICANA E ESCRAVATURA


INTRODUÇÃO
E um dos eixos desse movimento foi o itinerário em direcção ao Rio de la Plata. Introduziu-se aí, para o essencial, e isso por razões de facilidades técnicas de navegação marítima, cativos bantu.
Reconstituíu-se na região adjacente ao rio prateado, entre outras entidades étnicas, as “ Naciones” congo, angola e mondongo.
O ano fausto dos “tambos” em Buenos Aires foi, antes da trágica “desaparizione”, 1836. Este recuo demográfico e cultural não foi total.
Com efeito, a forte restauração da tipologia organológica, do som membrafónico, dos ritmos de percussão, dos enraizamentos linguísticos, dos registos coreográficos e das evocações antropológicas bantu, atestados na primeira metade do século XIX, reduzida, francamente, em estado residual, será, apesar de tudo, mais ou menos preservada.
Este conjunto de expressões, quase sinónimas, cristalizado em ndungu, pwiti ou ombwita, cinguvu ou kinguvu, mungumba, kiboloko e nas suas dezenas de variantes de ngoma, ya xina, ya mukuphyiela, ya kakwasa, ya songo, ya mukhundu, etc.,. será portanto conservado.
Prova, a reemergência, quase inevitável, no último decénio, no Distrito Federal, do Grupo Bakongo, afiliado à Associação Misibamba.
Esforçar-nos-emos, portanto, nesta abordagem, em retraçar a evolução desta associação artística, no quadro da consolidação da diversidade cultural da República Federal, um dos trunfos diplomáticos de cooperação, po- dendo contribuir para a junção das condições de emergência da Argentina.

TRONCO COLONIAL
O conjunto Bakongo de Candombe Portuense foi criado em 2006, por Maria Elena Lamadrid e Juan Suaque.
Os objectivos da família “de los olvidados por todos” são, em substância, fixados à volta da cultura afro-argentina tradicional de “tronco colonial “, um melhor conhecimento da história dos negros no país prateado, recordando as condições da sua chegada às margens do grande rio, sua evolução civilizacional, naturalmente contraditória, ao mesmo tempo conser- vadora, deculturadora e neo-criadora, consequência da sua marginalização – articulação social, suas novas formas de organização social e os seus efeitos, visivelmente políticos, o seu engajamento massivo nas milícias e no exército, o seu aporte ao desenvolvimento económico do país, as sobrevivências dos seus idiomas e tradições orais de origem, a evolução das suas expressões musicais e coreográficas, entre as quais, as inevitáveis candombé, samba e tango, o perfil dos seus sustentáculos organológicos, suas propostas plásticas, seus hábitos alimentares e a configuração das suas praticas religiosas.
PROTO-TANGO

A escolha de “o país da pantera “ para o epónimo do grupo da Avenida Corrientes, confirma a marca coreográfica ardente dos Bantu na região do Rio de la Plata.
Com efeito, os seus iniciadores recordaram o tríptico das danças lascivas, calenda, bambula e chica ou congo, em voga no século XVIII, nas margens da Embocadura.
Basearam-se, a este propósito e em complemento, em dois testemunhos, entre outros.
O primeiro, reservado, datado do fim de 1763 e início de 1764, e relacionado com a calenda. E do beneditino francês Dom Pernetty, contido na sua “Histoire d´un voyage aux Iles Malouines”.
E, o segundo, no limite do diagnóstico musicoterapêutico, e produzido pelo viajante argentino Miguel Cané, sobre o estonteado bambula.
Preocupado em identificar as zonas de origem desses desencadeamentos coreográficos, que se enraizaram na América meridional, produzindo o espectacular proto-tango, presumiram, sem dúvida, como fonte para a kalenda, o antigo Kongo e a Colónia de Angola.
Com efeito, é bem conhecido que africanistas argentinos afirmam que “Congo y Angola, de onde procedian gran parte de nuestros esclavos” e que estes fixam, ai, a origem bantu do tango, evocando o sentido de matanga (festa).
Os suportes de execução instrumental desse “paso de candombé”, além da série dos incontornáveis membranofones, são os mazacayas (do bantu, sakala, maracas) e as marimbas (xilofones).
A maioria dos conjuntos vocais usará a interjeição !gue!, provável diminutivo do bantu nkuetu (parceiro). Esta exclamação se cristalizada na expressão solista, meio-divina !Calunga, gue!, será seguida, invariavelmente por Oyé , yé yumba, refrão retomado pelo coro das moças do grupo.

CONGOLEÑOS
Lamadrid e Suaque basearam-se na influência cultural vinda da África central, austral e oriental, as récitas da primeira metade do século XIX, atestando os desencadeamentos dominicais, nas ruas de Buenos Aires colonial, dos “tambos” ou “naciones” congoleños, angoleños, cabindas e molembos. E, numa verdadeira epifania bantu, as procissões eram precedidas dos “los Reyes del Congo”.
O duo tomou, em consideração, o facto de que a denominação “ congo “ se tornou, nas margens do Rio de la Plata, no início do século XIX, genérica, e servia para apontar as diferentes “naciones” mas igualmente todas as danças vindas do continente negro.
Esse processo de generalização semântica, invariavelmente atestado nas Américas e Caraíbas, tocara, também, a expressão depreciativa “candombé”, quer dizer “ligado aos negros”. Substituíra, gradualmente, o comum “Congo”.
Um dos factos que cristalizou a dança dos “ndombé” (negros) e que será consignada no Manual de História de Argentina, de Vicente Fidel Lopez e o colossal e inesquecível “candombé” ordenado pelo Brigadeiro Juan Manuel de Rosas, o Restaurador federalista, ditador culturalmente aberto.
MACUS
Esta imensa festa organizada no dia 25 de Maio de1836, na Plaza da Victoria de Buenos Aires, reagrupou 6.000 melano-africanos de diversos “tambos”, entre os quais as “Naciones” Congo e Angola e de centenas de barulhentos “macus” (tam-tams).
O duo fundador tomou em conta, igualmente, o facto de assistir às manifestações de polirritmia Níger, o divertimento preferido da filha do Governador, Manuelita Rosas, da sua mãe Dona Encarnacion e do próprio dirigente unionista e que esses milhares de negros eram bem “bonaerenses”, vivendo nos “bairros de tambores” povoados, maioritariamente, por uma população de origem africana.
Uma dessas zonas típicas, sítio do “candombé de fogo”, era o “Mundongo”, praça-forte dos “congos” junto das paróquias de San Telmo, Monserrat, la Concepción e Santa Lúcia.
Esses transmitiram para a posteridade dezenas de cantos nos quais se nota diversas expressões, notoriamente, de origem congo, tais como curumbamba ou yumbambe, calunga gué e mussanga.
Nota-se, também, a sintomática chamada do bantu Mafu, encorajando vivamente “Jesus a dançar a semba ao som do tambor”, a fim de conjurar o irresistível declínio demográfico negro na Argentina. Uma verdadeira incitação em direcção ao Cristo para participar num dos inevitáveis espectáculos dominicais.
O enraizamento da licenciosa e agitada candombé sobre a margem esquerda do Delta se revelara, irresistível, e isso, apesar dos decretos repetidos tomados, no início do século XIX pela administração da cidade de Montevideo, sobre a interdição dos tambos e dos tangos, em que um dos grandes inconvenientes era o de servir de belas oportunidades aos marrons.

TAMBORILES
Carregando no seu sangue o marcador da cadenciada coreografia, e convencidos do facto de que “se vocês abandonam o tambor, adeus o candombé !” , os cativos africanos aproveitarão de todas as ocasiões, sobretudo as dadas pela pressão abolicionista, para se darem a memoráveis prestações.
A proibição definitiva da escravatura na região, em Dezembro 1842, permitira aos antigos oprimidos exprimir-se livremente, mas, nos limites das salas. As “Naciones” apresentarão, entre outras configurações étnicas, perfis congo, cabinda, angola e molembo.
Os iniciadores dos Bakongo notaram, igualmente, diversas cristalizações antropológicas vindas de África central, austral e oriental tais como o movimento do meio corpo, endunda (bunda, posterior); o agenciamento em fila indiana, milonga (longa, em ordem), o lamelofono quisanje, (quissanje), o instrumento de fricção (quijada) e a base rítmica dos membranofones, o bombo.
Tiveram conhecimento das coletâneas dos poemas e dos cantos tais como “Candombé Loanda” que reflecte, bastante bem, a estruturante influência congo na América do Sul.
Confirmaram, a partir do léxico residual, diversas palavras de origem bantu, dicionarizadas pela Academia Real Espanhola.
Assumiram a afirmação do africanista Ildefonso Pereda Valdes, segundo o qual, e, ao nível das línguas bantu, o kikongo, o kimbundu e o ovimbundu influenciaram mais do que o castelhano dos países rio-platenses.
Esta previsível realidade linguística reflecte bem a intensidade do tráfico de escravos das costas do antigo Kongo em direcção ao estuário do Rio de la Plata.
A ancoragem congo foi bastante notável e permitiu extraordinárias cristalizações tais como a esperança de um regresso ao Reino Malemba, antiga entidade histórica que faz, hoje, parte de Cabinda.
O dinâmico Juan Pablo Suaqué, que perpetua pela escrita o saboroso crioulo porteno, criou, portanto, com a sua colega na branca Buenos Aires, baseando-se na flamância, no século XIX, a brilhante Comparsa de los Congos, o Grupo Bakongo.
Teve em conta, paralelamente, o ditado, verdadeiro leitmotiv identitário bantu da comunidade negra em Santa Fé: “El que no es congo, es mocovi”.

AUTENTICIDADE
O par fundador considera, portanto, dois factos de carácter histórico e antropológico maiores, sobre a presença massiva dos Congos, “la populación mas profusa en La Plata” e as poderosas sonoridades musicais africanas à base dos insuperáveis membranofones.
Com efeito, o tambor é um instrumento muito antigo nas civilizações de Carl Meinhof.
O radical pré-dialectal para designar um suporte de percussão é atestado no sistema de concordâncias das línguas bantu, como se exemplifica:
Goma –noma – gomb
Dará, logicamente, na maioria dos falares de África central, oriental e austral, o termo genérico ngoma, ongoma ou kangoma.
Destaca-se, nas atroadas dos tamboleiros, a disposição da bateria em linha, como na região da embocadura do rio Zaire, com, entre outros, o ngoma ye kina.

CARTÃO IDENTITARIO
Vigorosos, os “Invisíveis” organizam diversos programas, entre os quais, conferências públicas, ateliês sobre a história, realização de documentários, espectáculos de música e de dança, visitas de sítios de memória.
Os portuenses constituem, hoje, um verdadeiro cartão-de-visita da nova Argentina, multicultural e pluriétnico. A maioria das suas grandes cidades já apreciou o talento de “los hijos del Congo y de Inkisi”. Representações são dadas, naturalmente, no Distrito Federal, em Córdoba, Santa Fé, Rosário, Tucumán, etc.
E um dos momentos fortes, de carácter internacional, da vida da “comparsa” foi o espectáculo mostrado, em Fevereiro de 2009, em homenagem ao Director-Geral da UNESCO, Koichiro Matsura.

CONCLUSÃO
A criação, com estatuto de organização não-governamental, da agremiação de bozales é mais uma prova para a próspera Argentina reconhecer o inestimável aporte económico, o suicidário esforço de guerra e a indelével contribuição cultural dos nigers na sua história, de que um dos desenvolvimentos artísticos, os mais notáveis, foi o “tango”.
As antigas Províncias Unidas de Argentina constituíam, hoje, a terceira economia de América latina.
A acção cultural dos Bakongo permitirá, sem dúvida, de reforçar a parceria económica com a África subsaariana, cooperação que poderá permitir a Argentina de se elevar ao nível de um país verdadeiramente emergente, ao lado do seu imenso vizinho do Norte, membro do bloco BRICS.

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