Narrativas sobre o narcotráfico na música Rap da Guiné-Bissau

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A história política recente da Guiné-Bissau foi atravessada por profundas transformações desde proclamação da independência por via unilateral em 1973, após onze anos da luta armada.

Narrativas sobre o narcotráfico na música Rap da Guiné-Bissau
Masta Tito, raper sem medo

O processo de liberalização da economia através da aplicação de Programas de Ajustamento Estrutural a partir da segunda metade dos anos oitenta levaria, quase de forma automática, a uma “imposição” de reformas políticas no inícios dos anos noventa, marcada pela realização das primeiras eleições multipartidárias em 1994.
Entretanto, a fase da democratização iria ser progressivamente caracterizada pela persistência de grandes contrastes e descontinuidades no sistema democrático nascente. A classe dirigente, sem ter em conta as diversidades internas e critérios como a inclusão e a equidade, acabaria por provocar profundas fracturas internas e interrupções a nível governativo, conduzindo a Guiné-Bissau à precariedade institucional crónica e ao primeiro conflito político-militar da sua história como país independente (1998-99), conhecida como a “Guerra de 7 de Junho”.
Desde este último evento, o país tem vivido em permanente instabilidade política e governativa, o que concorre para a fragilização das instituições do Estado e da economia, facto que tem acelerado os níveis da pobreza e insegurança. A esta realidade acrescenta-se a ineficiência do sistema da justiça para fazer face às ameaças contra a segurança do Estado e ao narcotráfico, fenómeno esse que tem crescido de forma exponencial nos últimos anos, tendo transformado a Guiné- Bissau numa nova rota do tráfico de cocaína da América do Sul com destino à Europa (UNODC, 2007 e 2008; ICG, 2008, 2009 e 2012).
A este propósito, e apesar de entre os anos 80 e os anos 90 do século XX o tráfico ilegal da cocaína ter atingido proporções globais, infiltrando não apenas os mercados tradicionais como o dos Estados Unidos da América e da América Latina, mas também os da Europa ocidental, da Rússia e, mais recentemente, alguns países da costa ocidental africana tornados países de “trânsito” dos cartéis da droga2, foi sobretudo no início do novo milénio que a região oeste africana foi marcada por um maior envolvimento no tráfico internacional da cocaína com destino à Europa ocidental.

Principais rotas da cocaína


Sendo a Guiné-Bissau um dos países mais pobres do mundo (176º segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2012) e sem capacidades de controlar o seu território, a abordagem do fenómeno do narcotráfico não é apenas uma questão da falta de desenvolvimento, mas sim, constitui um problema de segurança no país e na sub-região (UNODC, 2007; CES, 2008).
O presente artigo pretende analisar a trajectória de um pequeno país marcado pela instabilidade política e governativa, afectado pelo fenómeno da globalização do crime organizado, através das redes do narcotráfico face à (in)eficácia das suas estratégias de combate, por um lado, e por outro, apresentar formas inovadoras de construção de resistências através da emergência de um movimento contestatário na cidade de Bissau, resultado da articulação entre os músicos rap e a utilização das rádios, o que contribuiu para dar visibilidade às denúncias da sociedade civil sobre o fenómeno de narcotráfico na Guiné-Bissau.
Do ponto de vista metodológico, para além da revisão da literatura sobre o fenómeno do narcotráfico e da música Rap na sub-região-oeste africana e no país, a pesquisa de terreno no que concerne as narrativas da música Rap relacionadas ao narcotráfico, consistiu no acompanhamento da edição e apresentação dos programas radiofónicos3, na participação em alguns concertos, no diálogo com rappers, na auscultação do repertório musical existente e na transcrição das narrativas seleccionadas. A experiência pregressa dos investigadores sobre o tema em estudo4 serviu de base de orientação para a problematização e cruzamento de olhares na análise dos discursos/narrativas, contribuindo para a (des)construção simbólica do social desencadeado pelos rappers enquanto símbolo de resistência e de responsabilização do Estado.

Leituras a partir das narrativas do narcotráfico na música Rap

As Nações Unidas referem a Guiné-Bissau como “one of the hardest hit countries, risks becoming a «narcostate » […] drug traffickers are infiltrating state structures and operating with impunity. This is deepening fear and mistrust among and between senior officials and the public. Additionally, there are signs of growing drug addiction, particularly among young people who often also work with the traffickers […] drug traffickers can afford to buy and use satellite phones, tomove around in fast boats and expensive cars, to transfer money and information discreetly and to buy protection (UNODC, 2008: 2; 5-6).
Para além da mediatização da espectacularidade da intervenção pontual americana contra o fenómeno do narcotráfico na Guiné-Bissau e na sub-região oeste africana, importa perceber quais os mecanismos internos de resistências que estão a ser adoptados e que efeitos têm no espaço nacional. É neste sentido que os jovens “não institucionalizados” e pertencentes às camadas sociais subalternas, aparecem como protagonistas através da denúncia com a música de intervenção, Rap, em programas radiofónicos e em directos, apresentando-se como um instrumento artístico através do qual os rappers interpretam, criticam o envolvimento de actores com responsabilidades no Estado no narcotráfico e contestam a (des)ordem social vigente, aliando a emancipação cultural ao exercício da participação política e democrática (BARROS, 2013).
As narrativas aqui registadas em discurso que todos fazem mas não dizem, vão desde:

NARRATIVA DA DENÚNCIA: […]
droga tchiga Guiné i djumblintinu senariu/ Nhu alferis ku nhu kabu/Tudu pasa sedu bida empresariu […] [A droga chegou a Guiné e baralhou-nos o cenário/ Senhor Alferes e Senhor Cabo/Todos viraram empresários] (…) Amadu ki chefi di izersitu/Iooode/I ka fasi nin 2 dia ki tchiga la/Iooode/I mata Djokin i subi la [Amadu é chefe do exército/Iooode/Não há dois dias que chegou lá/Iooode/Matou Joaquim e subiu até lá] Ku asasinatu ku aumenta/korupson ganha forsa [Com o aumento dos assassinatos/A corrupção ganhou força] I ta troka mindjer suma ropa/I tene kumbu té na Eropa [Troca de mulher como se troca de roupa/ Tem dinheiro até na Europa] Nunde ki sai ku es manga di kusas?/no ka sibi! [Onde é que arranjou aquilo tudo?/ Não sabemos!]. (Torres Gémeos,

Culpadus, registo sonoro, Bissau, 2008)
NARRATIVA DA ROTA DO NARCOTRÁFICO:
Guiné-Bissau nason di trafico?
Tráfico [Guiné-Bissau nação de tráfico? tráfico]/ kil ku na bin bai pa Spanha?trafico [aquele que vai para
Espanha? tráfico]/ kil ku ta bin di Colombia?
Tráfico [aquele que costuma vir da Colômbia? tráfico]/ Mira ermanos, la fuerza armada transportando la cocaína en quantidade [vejam irmãos,
as forças armadas transportando a cocaína em quantidade]/ haciendo negócios com nuestros ermanos de colombia [fazendo negócios com os
nossos irmãos de Colómbia] (…) bo obi es sistema di pesa coca [oiçam este sistema de pesagem da coca]: kilograma, decagrama, hectograma, graaama (Baloberos, Bo obi mas, registo sonoro, Bissau, 2008)

NARRATIVA DO PROTESTO:

Marca di Avion 515 tisi medicamentu pa tudu duentis [marca de avião 515 trouxe medicamentos para todos os doentes]/ i guineensis ka na duensi
mas [e os guineenses jamais adoecerão] (…)bardadi n`fia, Guiné i tera nunde ku pekadur ta garandi ora ki misti, di manera ki misti, tudu ta dipindi
[verdade eu creio, Guine é uma terra onde as pessoas são maduras quando quiserem, da forma como querem, mas tudo é relativo]/ bardi n`fia, Guine i tera nunde ku po ta sibi riba di santchu mbes di santchu sibi na po [verdade eu creio, Guiné é a terra onde as árvores trepam macacos ao invés destes treparem as árvores]! Ma i ka sigridu ku nha kabesa na ramasa i ni i ka kudadi [mas não é segredo que estou a vomitar e nem é preocupação]/ i sibidu kuma i ten djintis na Guine ora ku e misti pa tchuba tchubi, tchuba ta tchubi [sabe-se que há gente na Guiné quando quiserem que se chova, acontece]/ ora ku é mista pa sol iardi, sol ta ratcha [quando quiserem que o sol brilhe, acontece] (FBMJ, Kaminhu sukuru, registo sonoro, Bissau, 2008)

NARRATIVA DO DESASSOSSEGO:

notícia di tera obidu ate na rádios internacionais [notícias da terra foram escutadas até nas rádios internacionais ]/ fidjus di Guine ta ianda npinadu é ka ta ossa ianda nin alsa rostu [filhos da Guiné andam cabisbaixo sem coragem para levantarem a cara]/ tera i ka purmeru, ma anos pekaduris i restu [o país não é priorizado, as pessoas são os últimos]/ na diaspora no ta sta tristi suma kil ku tene disgostu [na diáspora costumamos
a estar tristes como quem tem desgosto]/ pais sta desorganizadu, corupson sta generalizadu, aparelho di no stadu aos torna un sistema di corupson
[país está desorganizado, corrupção generalizado, aparelho de estado transformou-se num sistema de corrupção]/ dinheru ku no djunta passa
na sbanjadu a toa i grande orgulho, fama(!)[ o nosso dinheiro passou a ser esbanjado a toa, grande orgulho, fama!], Guine-Bissau i narcotráfico [Guiné-Bissau é narcoestado], djintis di staduna prática di negócios ilegais [gente do Estado na prática de negócios ilegais]/ e na fasi crimes organizadu ma faladu na nomi di stadu [praticam crimes organizado mas diga-se em nome do Estado]/ es tudu anos i contra [isto tudo nós somos contra], narcostadu puera lanta [narcoestado levantou a poeira]/ tudu mundo misti sai nês coba [todo o mundo quer sair deste buraco]/ kampu
kinti emprego ka tem [o desafio está difícil não há emprego]/ jovens resta na roba [jovens restam a roubar]/ consumo di alcol aumenta utrus refugia na droga [consumo de álcool aumentou e outros restam na droga]/ migrason i soluson [migração é solução]/ i ka ten mas utru manera [não existe mais outra forma]/ djintis tene mau manera, jovens na kuri di tera [jovens a fugirem do país]/ pa sai nes miseria [para sair desta miséria] i pirsis bai te Canarias [é preciso ir até Canárias]/ povo inosenti ku fomi na paga culpa di dirigentes [povo inocente com fome a pagar pela culpa dos dirigentes] (Cientistas Realistas, Contra, registo sonoro, Bissau,2007)

NARRATIVA DA ACÇÃO:

No leis apedrejado [as nossas leis foram apedrejadas]/ cheio de lacunas [estão cheias de lacunas]/li ki Guine-Bissau pa kin ku ka sibi [aqui é que Guiné-Bissau para quem não sabe]/li ku traficantes ta dadu privilegio mas di ki pursoris di universidade [aqui é que aos traficantes são dados privilégios mais que os professores universitários]/ juro li te purcu ta pudu gravata i bistidu fatu [juro que aqui os porcos usam gravatas e fatos]/katchuris si é mata é ta dadu caru tipo incentivo [os cães quando matam recebem carros como incentivo]/tipo se presente pa é continua mata [como presente para continuarem a matar]/guineensis i sta na hora di no kunsa nota [guineenses está na hora de começarmos a notar]/ no disa pa tras tudu ke ku na tudjinu avança [vamos eixar para trás tudo o que não nos permite avançar]…
(As One, Kaminhus, registo sonoro, Lisboa, 2012) Disseminação da palavra Neste processo, as rádios foram (e são) um meio de extrema importância no quotidiano guineense, tendo em vista o que Moulard-Kouka (2008) chama de disseminação da palavra que pretende ser o mais livre possível, e os rappers destacaram através das suas narrativas criativas entre aqueles que mais “tomaram a medida” usando a rádio enquanto oportunidade para denunciar, através da música, as facetas do narcotráfico e a sua recaída no país. Este ímpeto sustenta a necessidade de contestação do rótulo de “narco-Estado”, na medida em que as estratégias de sobrevivência de uma larga maioria da população guineense não se baseia no negócio da droga, nem tão pouco a racionalidade das famílias na forma como abordam a dura realidade guineense.
Num contexto tradicionalmente marcado pela prática do culto da garandessa [adulto com responsabilidade/ senioridade], onde a palavra é atribuída de acordo com princípios hierárquicos e geracional, reforçado, segundo Mbembe (1985), pelos Estados em África ao demonstraram mais o seu cunho ao paternalismo que exige submissão e fidelidade necessárias para os jovens. No caso específico da Guiné-Bissau, culturalmente marcado por aquilo que na gíria popular é conhecido de n`ghuni-n`ghuni [murmurar ou censurar ocultamente], onde os protestos são controlados e de baixa intensidade. Deste modo os jovens rappers procuram abrir caminhos com pistas novas para reflexões sobre a posição dos jovens, a contestação sobre a gestão da coisa pública e a emergência dos novos atores políticos no espaço publico num Estado em construção.
Para uma reinvenção da democratização da palavra Definindo a África ocidental como uma região “sob assédio”, as dinâmicas da instabilidade política, a pobreza crónica, a fragilidade económica e institucional são factores principais que facilitam a penetração das redes criminais associadas ao narcotráfico. Neste contexto, a precariedade institucional compromete a capacidade de controlo do território nacional e incentiva o recurso cada vez mais a actividades ilícitas, vistas muitas vezes como único meio de garantir a própriasobrevivência.
Países com índices de desenvolvimento humano entre os mais baixos do mundo como a Guiné-Bissau, sem capacidade de controlo do próprio território (espaço terrestre, marítimo e aéreo), são particularmente vulneráveis e sujeitos às ameaças das redes criminosas transnacionais. A Guiné-Bissau demonstra a fragilidade de um Estado pós-colonial na luta pela edificação das próprias instituições, mas sobretudo de uma nação em construção.
A constante interferência do poder militar na gestão política e a deslecientistas gitimação das instituições do Estado num contexto de pobreza, a má distribuição dos recursos a presença dos narcotraficantes, com a cumplicidades de altos servidores do Estado, em particular oficiais superiores das forças armadas, da classe política e de algum empresariado.
O território guineense ainda não é produtor e tão pouco consumidor de cocaína devido às baixas capacidades tecnológicas e capital aquisitivo. A presença da cocaína está certamente a influenciar de forma negativa a sociedade guineense e forçando-a a transformações rápidas do ponto de vista
de consumos e de produção de status que desregulam as relações sociais e económicas e de poder, pondo em causa o próprio sistema produtivo,
político e cultural. As gerações mais jovens arriscam ver o próprio futuro hipotecado na ausência de respostas imediatas por parte do Estado relativamente à educação e ao emprego.
Dai que a situação à qual os jovens são hoje expostos levou a uma reivindicação social e política através de um projecto de governação baseado num novo contrato social (Santos 1998;
Manji, 2000), transformando os rappers em atores activos e incómodos mas (in)formadores da nova consciência e atitude pública e cívica, superando assim à posição redutora de “juniores sociais” (BAYART, 1981) atribuídos aos jovens.
Um elemento de força que favoreceu o grande impacto das mensagens trazidas pela música Rap foi uso do crioulo, enquanto instrumento, e à rádio,
como veículo de comunicação, potenciou a resistência e contestação dos rappers sobre a situação de instabilidade política e governativa, dos desmandos dos militares, da corrupção, do direito ao futuro, por um lado, e, por outro, desconstruiu para depois (re)construir não só uma nova representação à música rap como também  do protagonismo juvenil. Enfim, a palavra foi(é) desenvolvida e partilhada com o público nas múltiplas projecções e, como sustenta Queiroz (2007), a experiência rapper guineense extrapola os limites territoriais do país.
É com base nesses pressupostos que os países africanos devem implicar-se num novo paradigma da segurança, cuja visão e estratégia assentam
no ser humano como elemento central da segurança de um Estado.
Esta mudança de paradigma requer um compromisso de construção de alternativas a longo prazo, necessita de uma liderança eficaz e de vontade política, assim como do envolvimento e da co-responsabilização dos atores nacionais e internacionais na gestão dos espaço e recursos estratégicos para manutenção da coesão harmoniosa entre as comunidades e dos Estados.

Miguel de Barros e Patrícia Gomes Palcos

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