"Niketche: Uma História de Poligamia" de Paulina Chiziane

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A metalinguística dolorida da mulher moçambicana
MULHER É TERRA. SEM SEMEAR, SEM REGAR, NADA PRODUZ (PROVÉRBIO ZAMBEZIANO)

Paulina Chiziane

A contaminação entre a prosa e a poesia nasce das evasões de Rami. A protagonista traz, por via da comparação dos estatutos sociais entre um homem e uma mulher, o seu complexo mundo interior.

Os rasgos de poeticidade vazam em momentos de tristeza e repúdio da penitência de um amor e da condição de mulher na sociedade.

Rami, a revoltada pedinte de amor, traz no discurso uma verbalizada ação feminista recheada de imagens que realçam ontologicamente a diferença.

“Niketche”, de algum modo, no campo imaginário do leitor, expande-se como uma contradição sofrida entre a essência das entranhas e a superfície num consequente jogo de sonho e realidade.

De débil distanciamento estético e presa conformada da estética da recepção em que o anti “eu” romântico do autor narcisista é sacrificado para dar regalias ao destinatário/leitor e o herói é construído como figura disfuncional cujo protagonismo é retirado para investir na temática, o que faz com que a obra aconteça num plano em que todos são vítimas e participantes incondicionais do sentido trágico que a vida toma, seguindo assim a apologia de Taine de que a literatura deve ser resultado de meio, raça e momento.

Apesar da sua tentadora atuação feminista, conserva a sua intenção de sonora ferramenta de luta ante as lacunas da sociedade, instrumento para superar os desvarios da natureza através do retrato fácil e fiel, consequentemente apoiado no determinismo e historicismo cultural para ajustar o seu neo-realismo.

Esta tese, que é debatida nas letras desde meados do século XIX, repugnando a alienada arte pela arte e abrindo-se como alternativa ao decadente romantismo, afirmou-se como uma corrente de pensamento que atribui à obra literária a categoria de fonte ou forma de conhecimento positivo.

“Niketche” leva o leitor a decifrar o silogismo duma visão auto crítica e a correr riscos de condescender a adoção, por via da sugestão implícita, de realidades culturais afetas ao ocidente, injectadas ao leitor pela tragicomédia que a trama ganha ao revirar as consequências da autoridade da cultura e da paradoxal superioridade darwinista na coabitação entre homem e mulher.

Mas é, sobretudo, na disposição dos factos que a narrativa revela-se uma arrepiante metalinguística da vida conjugal debatida até a exaustão.

Este debate que obriga uma dialéctica nutrida, traz à obra, além de factos e denúncias resultantes do crivo de investigação da autora, uma mão cheia de imprudentes tentativas inverosímeis na transposição do real ao fictício.

A trama do quinteto de mulheres falseia em seus extensos momentos de intensidade uma variação técnica como pontos de exaltação que se fixam na trama como pilares ou alternativas do clímax.

Esta técnica de Paulina faz transparecer que a obra é composta de vários momentos e problemáticas, ligados por uma temática que funciona como momento de eclosão resultante da colisão entre passado, presente, futuro, cultura, modernidade, tradição, liberdade, conservadorismo, relativismo e utopia.

Paulina subentende a sua preocupação de tornar a obra uma mensagem de fácil digestão para o leitor a fim de cumprir uma função edificadora e acionar o relativismo pretendido com a pragmática daquele texto.

Entretanto, esta incessante preocupação que se estende em toda obra custa-lhe a sublime consagração de irreverente em verbalismo e conoto a como possuidora de um realismo desgovernado que, em alguns momentos, abre rasgos para uma satisfação naturalista.

Investida na digestão da temática, “Niketche” não é uma obra em que desfilam primorosas visões nos detalhes comportamentais, engenhosa caracterização adjetival, ironia elegante, sátira mordaz e jocosa ou um senso fértil de criatividade na feitiçaria da palavra.

A obra assume-se determinantemente como parte pragmática da realidade em primeiro plano que leva-a ser dependente incontornável de fatores extrínsecos à literatura.

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