No poema Clava e II

Envie este artigo por email

Em torno da poética do brasileiro Salgado Maranhão.

Clava

o que será
que nos há
que ao nos haver
ver-nos-á
nus?

o que será
que nos ara
tem treva
em clava
em lida
em luz?

quão des/
havemos
além
do que vemos?
em qual fome
Deus nos chama
pelo nome?

II.

o que será,
far-se-á em nós
além da carne –
mesmo quando é sono
o sonho;

o que será,
ser-nos- á nas marcações
de um tempo não retrátil,
irrevogável.

as coisas se vão brotando
rumo a essa antimatéria
feita de amanhãs.

e não se nasce para ontem.

No poema Clava e II., o sujeito poético argui-se quanto ao grau das contradições na vida. Ele parece trilhar para o mais além do sentido, o lugar de emergência de sentido, ou seja, o que parece ser a falta de sentido é o puro sentido.

Sem avesso e sem fundo as suas dúvidas simbolizam a manifestação do que é simultaneamente presente e ausente.

Sugere que o homem está desde sempre perdido, pois entre ele e o mundo há a linguagem, e cada vez que o homem quer se aproximar do mundo submerge aos abismos da linguagem que o isola do mundo.

As indagações apontam para o vazio anterior à existência do homem e à criação.

O que procura o sujeito poético é uma singularidade radical, de tal ordem radical como se ele não fosse suficientemente singular para ser singular.

O sujeito poético, profundamente só, mas não parece perdido em suas indagações, parece que sua busca é um momento de epifania, de revelação, ou de prece: em qual fome/Deus nos chama/pelo nome?

Parece procurar restaurar um lugar que o sujeito ocupara quando ainda não o haviam limitado a um nome, pois, o símbolo o fez homem, através de uma língua materna, ou uma situação social, momento em que o homem não se diferenciava por um traço particular, momento de total liberdade.

Ultrapassando esses limites, o sujeito é exatamente o nada e seu êxtase é o do não-senso radical que deslegitima o sentido dos sentidos.

Questionar é buscar saberes e o saber é também saber sem Outro, um saber solitário, saber de solidão. O sujeito poético parece estar num limiar que separa nitidamente o mundo simbólico e o mais além do simbólico ­ o real.

Essa experiência poética fala da realidade como a antimatéria: "as coisas se vão brotando / rumo a essa antimatéria / feita de amanhãs", e do simbólico quando ele menciona a linguagem, / não se nasce para o ontem.

A sua linguagem, na sua vertente simbólica, revela um esforço, sempre precário, de fazer frente ao real.

Nós leitores somos arrastados no mesmo processo, somos solicitados pelo texto, não como recetor da mensagem do poema, mas sim, com a nossa pluralidade de significantes.

As nossas vivências acabam por se integrar à leitura numa prática infinita e anónima, pois, o que se passa como sujeito poético o escapa como interlocutor.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos