O Choco, uma Angola reconstituída na costa do Pacífico

Envie este artigo por email

A rota colombiana da escravatura. "El Mondongo. Etnolinguística en la Historia Afrochocoana", livro que acaba de ser reeditado em Bogotá, na série Ma'Mawu, pela Universidade Tecnológica del Choco "Diego Luís Cordoba", da autoria do melanoderme, ilho desta terra, Sérgio António Mosquera, confirma uma realidade, particularmente emocionante, que pudemos viver semanas atrás, em Quibdo, capital desta província da antiga Nova Granada.

O livro, ora republicado, numa edição, singularmente sólida, espraia-se sobre 156 páginas, e articula-se em quarto capítulos principais, nos quais o autor apresenta a evolução da instalação dos africanos na região e a subsequente tentativa de continuum das suas respetivas línguas, a sua difícil adaptação ao castelhano e o legado residual linguístico bantu, aí.

Numa verdadeira febre mercantilista, dominante na Europa, a zona, onde foram descobertos jazigos poli-metais, e em particular, o precioso ouro, registara avultadas encomendas de mão-de-obra escrava.

E, seriam introduzidos no território mineiro, a favor do quarteto "asiento" europeu, nomeadamente, milhares de angolas, benguelas, loandas, monicongos, cabindas e luangos.

O "asiento" português, que durara de 1595 a 1641, e cujos principais centros de embarque serão Loanda e São Tome ­ porto de trânsito ­ permitira a instalação, maioritária, dos mbika.

O investigador de Quibdo é peremptório, "van constituirse en mayoria y este predomínio es repetitivo en muchas transaciones. Hay ya, desde luego, una fuerte presencia de negros de Angola".

O exemplo dos escravos ao serviço do Padre Pedro de Claver, nos anos 1620, é, a este respeito, bem indicativo. Andrés, Ignacio, Alfonso, Jusepe, Juan, Mariquita, Cristina Feliciano, Lucrécia, Catalina, Francisca, Monzolo, são todos, ou de Angola ou do Congo.

 O veredicto de Mosquera, quanto a esta realidade, é categórico; "Portugal fue el principal provedor" de escravos até 1654.

O autor escolheu, perante esses dados, o título da sua obra "El Mondongo...", referência ao Reino angolano, termo que foi, numa dinâmica de antonomásia gastronómica, adotado no continente americano e no conjunto insular caribenho.

Nos traços dos portugueses, os franceses e ingleses introduzirão, naturalmente, no " Virreinato de Nueva Grenada", a partir de 1712, da feitoria de Cabinda, congos e luangos.

O iniciador da espetacular Fundação privada, Muntu-Bantu, instituição que não tem equivalente em África, aborda, em seguida, a configuração dos falares niger na sua zona natal; examinando o seu uso nas minas e sublinhando a persistência, no léxico residual, do morfema bantu ng ou nga.

ANTONOMÁSIA

Realça, no nível do "Quadrilátero", além das já citadas, as variantes do kikongo, conhecidas, na época, como bamba, manyoma e pango. O autor chocoano insiste no capítulo sobre a aclimatação de "los muleques" ao castelhano, a evocar a influência do idioma do país da pantera no norte-oeste da antiga Confederação Granadina. Afirma "es patente el impacto del kikongo", na evolução linguística, aí decorrente, consubstanciada na continuação da intervocalidade, dupla negação, redundância, duplicação e excessiva expressão corpo falante.

Em consequência, os Bantu instalados na região falaram um espanhol "muy corrupto, al terminus a quo criollo português", com elementos lexicais (ou de outro tipo), geneticamente portugueses.

No fim do estudo, o professor apresenta e comenta, logicamente, um glossário de mais uma centena de bantuísmos que sobreviveram na costa do Pacífico colombiano.

 Esforça-se em restituir, numa abertura de erudição, os elementos lexicais identificados em alguns fragmentos de textos literários (poesia, conto, romance e composições musicais).

Um exemplo perfeito de bantuísmo que perdurou é o substantivo zandungu ou sandunga, pimento. Com efeito, é atestado no protobantu, como pepper, ­ dungu. E, logicamente, este radical do bantu comum dá, em kikongo e kimbundu, ndungu, em nyaneka ­ humbe, ongundu, otyindungu, onondungu, e em umbundu, olundungu, ondungu, onungu. O glossário contem outros componentes saídos da "Mundo dos Homens" tais como Angulo, do bantu nkulu, velho, adjetivo utilizado como antropónimo Bilongo ou Birongo, remédio tradicional Kalunga, espírito hidrogónico, mar, infinito Ganga, tradi-prático

Susunga, do bantu nsanga, colar A fim de fazer compreender melhor o substrato antropológico angolano enraizado no território de "La conga", Sérgio Mosquera utilizou, entre outros estudos de referência, o de Jan Vansina sobre África Equatorial e Angola, contido na História Geral de Africa, e que indica os alicerces civilizacionais do coração do continente que foram transferidos para as áreas auríferas do norte-oeste da Colômbia.

 A obra "El mondongo. Etnolinguística en la Historia afrochoana" é mais uma contribuição para a inevitável aproximação entre as comunidades de raíz "angolena" e a Mãe-Pátria; reencontro que deve, oralmente, ser tecido durante o decénio 2012/2022, declarado pela Organização das Nações Unidas como consagrado aos afrodescendentes.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos