O Cinema Independente dos E.E.U.U.

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Os irmãos MCMULLEN

O Cinema Independente dos E.E.U.U.
Os irmãos Mclmullen Fotografia: Arquivo

Os filmes independentes nos Estados Unidos têm resgatado a perdida tradição do melhor cinema do país.
Em meio à atoarda ensurdecedora do marketing milionário de bilionárias produções anódinas, quando não completamente imbecilizadas (as latas vazias é que fazem barulho, já dizia Buda), os jovens cineastas estadunidenses não comprometidos ou cooptados pela indústria do entretenimento vêm realizando filmes autorais, baseados em propostas substanciosas derivadas de séria preocupação humanista e atilada visão do mundo.
Entre inúmeros exemplos, infelizmente não tão inúmeros quanto se deseja e, principalmente, se faz necessário, inclui-se Os Irmãos McMullen (The Brothers McMullen, EE.UU., 1995), de Edward Burns (1968-). À semelhança de seus congêneres, dirigidos por Spike Lee, Hal Hartley, Wayne Wang, Gus Van Sant, Quentin Tarantino (apenas o de Cães de Aluguel), Bryan Singer, Jim Jarmusch, entre outros, o filme de Burns fere uma das questões reais do ser humano, no caso, a atitude dos jovens face ao relacionamento amoroso.
Não qualquer jovem ou o jovem em geral, mas, determinada faixa, singularizada pela descendência (irlandesa), localização (Nova Iorque), religião (católica), condição social (classe média) e época (década de 1990).
Isolado esse tecido do corpo social, o cineasta o submete a exame, seccionando partes, expondo o interior, adentrando interstícios, rebuscando precedentes, mas, deixando livres seus elementos para que, de sua vivência, sejam retirados e expostos sentimentos, emoções, ideias e ideais, conceitos e preconceitos, limitações, potencialidade e possibilidades.
Contudo, não só dos protagonistas, mas, também, de suas companheiras. Se não em igual intensidade, pelo menos com semelhante ótica. Se os protagonistas encontram-se (os três estão na mesma situação), mergulhados em dúvidas e perplexidades, suas parceiras, ao contrário, apresentam-se decididas e seguras.
Na realidade, face à posição masculina e feminina, as coisas acontecem assim mesmo até que os homens se definam. Quando isso ocorre – e geralmente ocorre – os impasses são superados e a vida segue seu itinerário em direção a rumo geralmente previsível, salvo acidentes de percurso.
Burns, conhecedor da realidade focalizada, visto inserido nela, parte de três relacionamentos distintos, cada um deles singularizado pela atitude do respectivo protagonista e pela reação da companheira.
Mesmo permanecendo à superfície do comportamento das personagens, o cineasta desvenda e expõe motivações, extrai significado e revela sentido. Não objetiva nem se compraz, pois, em narrar a estória e nem se esgota na urdidura da trama.
O resultado é radiografia de certa parte da juventude de seu país, daquela que pauta sua existência nos limites da normalidade social.
Sob o aspecto artístico e até mesmo técnico, o filme reflete as circunstâncias de sua produção. É simples, desataviado, fluente e preciso nos enquadramentos, valorizados por adequada montagem.
A despretensiosidade formal traduz a postura e a naturalidade das personagens, estabelecendo apropriada simbiose entre realização e entrecho.
Não é comédia, como por vezes classificado, porém, drama destituído de exageros e grandiloquência, normalmente inúteis, quando não despropositados.

Guido Bilharinho

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