O fabuloso reino dos mansas do Mali

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Raramente os livros didácticos de História registam factos relacionados com a História da África Negra e, quando o fazem, é quase sempre no prisma da desqualificação e do preconceito.

Grande Mesquita de Djenné

Uma das lacunas mais notórias é a relacionada com os grandes impérios negros que surgiram na faixa do Sahel.A palavra Sahel é proveniente do árabe, significando borda, no caso a franja do deserto, evidentemente o Sara.A área caracteriza-se pela presença de vastas extensões de savanas, sendo conhecida como Sudão. Esta enorme porção da África presenciou, particularmente na sua porção ocidental, o surgimento de grandes Impérios, caso do Ghana, Mali e Songhai.Destes, o Mali ocupou uma posição de destaque.

O Mali era governado pelos Mansas, isto é, imperadores. O seu surgimento relaciona-se com os feitos que cercam a memória do primeiro Mansa, Sundjata Keita.

A vitória de Sundjata sobre Suamoro Kantê, o Rei do Sosso, na Batalha de Kirina (1235 d.C.), foi o marco fundamental para a criação do Império, ampliado pelos seus sucessores, perdurando até o século XV.

O Mali tornou-se um poderoso Estado, configurando um respeitável arranjo territorial, alcançando o Atlântico e o curso médio do Níger no sentido Leste-Oeste, e o Saara e a Floresta Equatorial no sentido Norte-Sul.

As realizações do reinado de Sundjata (1230-1255 d.C.), foi preservada graças ao trabalho dos griots. O griot corresponde aos contadores de histórias que imemorialmente percorrem a savana na tarefa de transmitir ao povo os dados fundamentais da sua História.

O interesse pelo Império do Mali, decorre, em particular, do fato deste Estado Africano ter constituído uma das mais notáveis construções políticas da História da Humanidade.

O Império, drenado pelo curso de grandes rios (Senegal e Níger), espalhava-se pela Savana e partes do Saara e da floresta pluvial.

Com base nesta posição geográfica, o Mali controlou um vasto emaranhado de rotas de comércio, tomando a direcção do que actualmente é a Guiné, Sudão Oriental, países do Magreb e do Egito, todas de antiguidade no mínimo remota.

Na direcção do Golfo da Guiné, estes caminhos decorriam do velho comércio tradicional que associava a savana à floresta tropical e ao baixo Níger.

Quanto às rotas que cruzavam o Saara, igualmente eram muito antigas. Pinturas rupestres assinalam contactos pré-históricos entre o Mediterrâneo e a África Negra.

Isto posto, temos que o deserto jamais constituiu uma verdadeira barreira e quando muito, exerceu apenas um papel de filtro.

No que diz respeito à vida urbana, a arqueologia comprova uma antiga e florescente urbanização.

A grande cidade de Djenne-Djeno, situada no vale do Níger, remonta, por exemplo, ao Século III a.C..

Seus mercadores já transitavam desde os séculos V e VI d.C. no espaço da savana sudanesa.

O Mali, compreendendo no apogeu uma vasta extensão territorial, aglutinava células espaciais ajustadas a diferentes fracções do meio ambiente, formando algo como um mosaico de recursos complementares.

Além da agricultura, da criação, da pesca, da caça, do artesanato e do comércio, ganhou destaque a mineração do ouro, retirado dos fabulosos veios de Galam, do Burée e do Bambouk, suscitando no imaginário europeu a imagem de um Rei do Ouro: o Mansa do Mali.

Especialmente Mussa I, um sucessor de Sundjata, difundiu esta imagem pelo mundo árabe.

Em sua peregrinação a Meca, Mussa I fez-se acompanhar de nada menos que 60.000 carregadores e de 500 servidores, todos com vestimentas recamadas de ouro, segurando cada um deles uma bengala também de ouro.

No trajecto, este rei distribuiu tanto ouro que o preço do metal declinou em todo o mundo conhecido durante mais de dez anos!

Graças a sua prosperidade, o Mali alcançou uma população de 40/50 milhões de habitantes, que segundo todos os informes, desconhecia a carestia.

Mesmo em termos de uma demografia contemporânea, este contingente populacional é uma cifra nada desprezível.

No passado, o Egipto e os Impérios Asteca, Romano e Chinês, alcançaram respectivamente, nos seus momentos de apogeu, 15, 20, 100 e 200 milhões de habitantes.

Por conseguinte, o Mali constituiu, pois um bem sucedido "formigueiro humano" da Pré-Modernidade.

Outros fatos surpreendentes podem ainda ser registados. O Mali, tendo no comércio um de suas notas marcantes, não foi indiferente à navegação marítima.

Comprovadamente, foram lançadas no Atlântico duas gigantescas expedições, formadas por 2.000 embarcações, que demandaram na direcção do Oeste. Ou seja, da América.

Mesmo que a possibilidade de terem alcançado ou não o continente americano alvo de controvérsias, o fato por si só evidencia o poderio e o talento organizacional de um Estado Tradicional Africano que a historiografia ocidental tem solenemente ignorado.

Outro aspecto, é que contrariando variada gama de veredictos que decretam como inviáveis os Estados pluriétnicos ­ dita que recai sobremaneira sobre os Estados da África Negra - o Mali é uma soberba demonstração de que Unidade e Diversidade não são incompatíveis.

No Mali, coexistiram diversas etnias, cada uma delas com sua própria língua e cultura, mantendo durante mais de três séculos uma vida comum sob autoridade dos Mansas.

Este lapso de tempo, maior do que o da existência da maioria dos Estados Europeus de hoje, mostra que antes de se questionar a diversidade, o problema talvez resida na capacitação das estruturas políticas "mais avançadas" em assumirem a pluralidade.

E mais ainda, o quanto o passado dos povos do Terceiro Mundo pode constituir uma alavanca para repensar o presente. Na direcção de novas expectativas, anseios e esperanças!

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