O impacto das palavras que sagram ideias

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Em torno da poética do brasileiro Salgado Maranhão.

Em torno da poética do brasileiro Salgado Maranhão

(Meus nervos tocam para os inimigos que chegam sob o som de uma mazurca.)

A busca incessante do nosso poeta parece ser a de tentar escapar da prisão da significação, pois a sua poesia se funda precisamente numa ambiguidade. Ela parece depender da relação do significante ao significado, e podemos dizer, de certa maneira, que ela é imaginariamente simbólica.

Essa ambiguidade se instaura a partir de uma torção sobre aquilo que na língua pode ser entendido como o amadurecimento de algo que se cristaliza com o uso.

O poeta procura resgatar aquela poiésis que se perdeu com toda essa carga de conotações adquirida com o tempo, revitalizando a energia originária do vocábulo e ao mesmo tempo explorando as diversas potencialidades da palavra poética, quando busca deslocar a palavra depurada da sua pluriestratificada significação semântica para dar um novo sentido e reavivar as suas antigas evocações, dessa forma recupera a economia musical do verso, o som e o ritmo perdidos constituindo uma palavra com duplo sentido.

Resta a mó do destino ­ o desabrigo ­ a devolver meu pão de volta ao trigo.

O universo poético de Salgado Maranhão desacomoda, surpreende e sugere sentidos, é singularmente harmonioso, atrela-se à memória viva, às inovações advindas das experiências.

Tal harmonia advém da própria poesia, que nos torna ressonante e consonante, permanecendo em nós, porque não nos é imposto, mas tão somente sugerido, os seus versos indicam o real para além de si mesmo, por percursos singulares, contradizendo o ser dos discursos correntes.

Deixemos cantar o soneto O azul e as farpas (epígrafes desse artigo), com o seu andamento tipicamente barroco:

O azul e as farpas (Beijo da fera)

Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia uma calúnia,
cravam no azul da tarde o zen do azar.
Tento amarrar o tempo e a corda é curta,
tento medir o nada e nada ajusta.
(Meus nervos tocam para os inimigos
que chegam sob o som de uma mazurca.)
Resta a mó do destino – o desabrigo
– a devolver meu pão de volta ao trigo. (p.152)

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