O jeito de ilustrar a história de Lília Momplé em "Ninguém Matou Suhura"

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À Lilia Momplé e os seus pais - "A feliciade jamais se alcancará defenitivamente; é necessário consquistá-la dia a dia, com uma inabalável esperança no futuro, mas também com os ensinamentos do sofrimentos passado." Lilia Momplé, in “NINGUÉM MATOU SUHURA”

Lília Momplé

"Ninguém Matou Suhura¹” de Lília Momplé nos remete a uma viagem latente, para factos inalados pela história que ainda se recusa a passar para a memória dos Moçambicanos.

No discurso da leitura que se pode fazer da obra, notam-se as marcas de quem, viveu o passado composto por opressão, impunidade, injustiça prevaricada por uma raça branca de estrangeiros, que já se tinham tornado donos de uma porção de terra, onde existiam já, povos e culturas.

Refiro-me aos portugueses que colonizaram Moçambique e a autora ilustra os fatos datados de Junho de 1935 e a Abril de 1975, enquanto o País, na altura uma província de Portugal, estava entre o mais alto período do jugo colonial e por outro lado, chegava à independência.

1. “Histórias que ilustram a estória”

“Ninguém Matou Suhura” não são apenas vivências que a escritora nos leva a conhecer, mas trata-se de 5 contos – estórias que ilustram a história – relatados por quem as viveu e sentiu na pela, mais do que, por uma alma feminina que nos transmite, em cada parágrafo, alma de uma mãe que vive o calvário de ver seu filho atirado aos bichos.

Que não seja só por isso, até porque a esta obra, mais do que uma denuncia e desabafo dos macabros acontecimentos da era colonial em Moçambique, vem carregada de uma energia que a leva a renovar-se todos os dias, isto é, ler “Ninguém Matou Suhura”, é ter em si, o poder da escrita e em mão, uma verdadeira narrativa realista com dimensão única entre nós.

“Ninguém Matou Suhura” é a consagração, logo a primeira, da Lília Momplé como uma verdadeira contadora de estórias em volta da lareira –Xitiku Ni Mbaula – pela objectividade da sua obra, mas pela eficiência do seu domínio da palavra, não deixa de criar uma convulsão para, antes de nos passar a mensagem, fazer com que participemos das suas emoções.

Se bem que na Literatura Moçambicana, pelo menos lançando um olhar para a presença feminina, muito pouco nos é fornecido em termos de livros, e da sua geração menos ainda, em Moçambique, na literatura feita por mulheres, há mais poetisas (com pouca expressividade, principalmente sob ponto de vista de qualidade artística da sua poesia) do que prosistas, género em que figuram como exímias.

Ilustrar a história através deste livro foi a chegada em peso, de uma mulher nas artes escritas, depois da reconhecida Noémia de Sousa que inspira gerações, aliás, embora esta ter se destacado por ilustrar a história com a poesia, pode-se considerar a Lília Momplé, mais um braço direito na continuidade desta linha, mas de um jeito mais atrevido, ao ter pautado pelo conto.

2. Os Contos

O primeiro conto, “Aconteceu em Saua-Saua” o assunto principal é o suicídio de um homem chamado Mussa Racua que, por não ter conseguido atingir a meta dos 8 sacos de arroz exigidos pela administração colonial como pagamento de imposto depois de longas jornadas de procura de ajudas à vizinhança.

Ficara inconformado de perder a esposa e ter que viver o drama das torturas nas plantações (locais onde se levavam negros que não conseguiam pagar o imposto ao Posto Administrativo), preferiu pendurar o pescoço numa corda e balouçar eternamente numa árvore.

Neste acontecimento, nota-se o drama que os negros, moçambicanos colonizados, passavam perante as leis exploralistas dos portugueses.

Destaca-se neste conto, a tamanha descrição de cada acção do personagem Mussa Racua, em cada uma das suas acções, começando pela delirante introdução ao seu drama:

Mussa Racua aproxima-se lentamente da palhota de Abudo (…) caminha compassos firmes, de cabeça erguida, o belo corpo bem direito. A ansiedade e a dorida revolta que o queimam, sabe ele escondê-las dentro de si. Só os olhos, demasiado serenos, demasiado fixos, denotam a conformada lassidão do jogador que tudo perdeu.

Abudo é a sua última esperança. Contudo, uma esperança tão remota e fugida que, longe de o animar, o enche de pavor. Não recua só para justificar a si próprio que lutou até ao fim.

Este o princípio da ronda que o personagem Mussa Racua faz pelas dispersas palhotas do Saua-Saua a procura duma solução do seu problema – procurar dois sacos de arroz que lhe faltam dos seis que já tem, para resolver a sua dívida com a administração que caso não conseguisse, o levaria às plantações – coisa que não chega a resolver, por não conseguir o arroz e acabara por não parar nas plantações lugar de pouca possibilidade de sobrevivência, porque decidira se suicidar.

Na escuridão enluarada do pequeno quarto sente a mulher a dormir um sono agitado, mas profundo. Um desejo violento de a apertar nos braços para sempre impele-o para ela, mas recua a meio quarto. Então, com movimentos felinos, rápidos e silenciosos vai-se embora sem a olhar sequer.

Maiassa (…) não sabe bem o que terá acontecido, mas sente que algo irremediável se passou, que o seu homem se foi, que não mais o terá. E é quase sem surpresa que, ao dobrar um carreiro, dá como corpo de Mussa Racua suspenso de uma mangueira, balouçando docemente ao sabor da brisa matinal. Tombado no chão, um saco cheio de arroz.

Depois desta inquietante introdução na obra, que nos tiraria um minuto de silêncio e de intensa dor, por se encontrar autênticos sinais da brutalidade com que a escritora leva este acontecimento, vem de seguida o conto “Caniço”.

Em Dezembro de 1945, em Lourenço Marques, atual Maputo, num pequeno povoado constituído mesmo nas barbas da cidade, chamado Caniço, o rapaz de nome Naftal com 17 anos de idade e órfão de pai, vive um drama – miséria – e porque está mesmo num bairro aventurado numa cidade onde reside e reina a burguesia, suporta o peso de chefiar, porque ele é o mais velho dos irmãos, uma família composta por seis elementos.

Naftal, trabalhando como “moleque” era a fonte de sobrevivência da família, mas vinha de seguida, a sua irmã, Aidinha que trabalhava como “aia de meninos” que ajudava no sustento, sem que, contudo, pudessem sair da vida miserável.

Um dia Aidinha desaparece. A família começa a viver a outra fase da pobreza estrema – o vai e vem e procurar esta menor que fora aliciada por uma outra “aia de meninos” de nome Aurora Caldeira que lhe albergara na sua casa na Avenida de Angola para trabalhar como prostituta.

A mãe da Aidinha soubera do facto pela vizinhança e, apesar de duvidar que a sua filha – “uma criança sossegada, incapaz desses atrevimentos” tomou a coragem para ir até ao local em busca da menor.

E de facto Aidinha se entregara na tal profissão, farta da miséria e que sendo negra, não tinha outro caminho para se livrar dela. Só tornando-se puta.

E querendo mudar a sua vida vendendo o seu corpo, Aidinha continuou prostituta e só regressa para casa num estado débil de saúde. Vive o drama da doença e, por outro lado, como pai, vira trazer mais desgraça a família que terá que gastar o que, mal consegue para o seu próprio sustento, para garantir a assistência médica e medicamentosa desta que vai se acabando aos bocados em casa.

Naftal aceita a doença e a morte próxima da irmã como aceitou a morte do pai nas minas do John³, a miséria quotidiana, o medo e as humilhações. Para ele, tudo faz parte do destino dos negros.

Mas o drama deste adolescente não para por aqui, aliás, este é apenas um princípio de uma manhã que é acusado, no seu local de trabalho, de roubar um relógio de ouro pela sua patroa. É obrigado a confessar uma verdade que não conhece juntamente comum cozinheiro da casa. E assim não procede por conhecer a sua inocência.

Por fim, é juntamente como seu colega, é entregue a polícia que aos negros não poupa maldições, pelo marido da patroa. Os dois são torturados.

Quando o patrão volta para casa é confrontado com outra realidade.
- Afinal o relógio apareceu. Estava com a Mila. Ela chegou logo a seguir de tu teres saído com os criados para a polícia. Levou-o para o colégio…é vaidosa como o pai esta tua filha…
- Ela que não torne a fazer partidinhas dessas. E agora aqueles gajos já devem estar a apanhar porrada.
-Podias lá ir dizer que encontrámos o relógio – sugere a mulher.
-Ó filha, deixa-me descansar. Além disso é um mau princípio…. Deixa-os lá apanhar.

Ainda em Lourenço Marques, já no mês de Abril de 1950, prepara-se “O Baile da Celina”, evento que ditaria a conclusão do Liceu Salazar duma rapariga de nome Celina, filha de um casal humilde, natural de Ilha de Moçambique. Saíra da ilha, depois de concluir a instrução primária na Escola Luís de Camões, para continuar os seus estudos em Lourenço Marques, onde havia condições para tal.

A mãe da Celina, de nome Violante, é mulata e tem raiva da descriminação por ser dessa raça, por isso, quando nasce a Celina, sua filha única, jurou a si mesma defendê-la, a todo custo, das humilhações que lhe estariam reservadas pelo único facto de ser mulata, decidindo assim, apostar na educação da criança. Por isso, o baile de finalistas do 7° ano seria marcante na sua vida.

Ela e um aluno indiano chamado Jorge Vieira, ambos com uma cor diferente de todos que frequentavam o liceu, uma vez este, ser direcionado a brancos. E o baile para estes dois alunos não chega a acontecer, pois, chamados para o gabinete do reitor, justamente no dia e na hora do baile, foram proibidos de participar do mesmo. - Quero avisar-vos que não podem ir ao baile dos finalistas – prossegue calmamente o reitor, pousando nos jovens o seu olhar ausente míope…

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