O mais genial dos escritores indonésio

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Não há nada melhor do que a descoberta de autores. A medida que amadurecemos como leitor, a avidez aumenta e o rigor se impõe, e é por isso mesmo que a descoberta de novos e importantes autores se transforma num motivo de celebração. Demonstrei-o no ano passado quando descobri um dos maiores escritores indonésios, Pramoedya Ananta Toer, de quem comecei por ler, erradamente pela ordem da sua obra, "A Fabulosa Jacarta".

Não há nada melhor do que a descoberta de autores. A medida que amadurecemos como leitor, a avidez aumenta e o rigor se impõe, e é por isso mesmo que a descoberta de novos e importantes autores se transforma num motivo de celebração. Demonstrei-o no ano passado quando descobri um dos maiores escritores indonésios, Pramoedya Ananta Toer, de quem comecei por ler, erradamente pela ordem da sua obra, "A Fabulosa Jacarta".
Acabei depois por adquirir outros romances para estabelecer uma ordem de leitura e seguir a evolução do autor. Alguns dos seus melhores livros estão disponíveis na livraria Chá de Caxinde a preços promocionais. Hoje, contam-se as quatro obras mais importantes como se ilustra na imagem: com destaque para "A Rapariga de Java", sobre um casamento arrojado entre uma adolescente de 14 anos e um aristocrata javanês. O New York Times classificou Pramoedya Ananta Toer como um escritor importante e vital. E eu digo que foi uma das minhas melhores descobertas em 2016, e se virem por aí qualquer um destes exemplares não ignorem. Segundo críticos, Pramoedya lembra Charles Dickens.
Um dos escritores mais importante da Indonésia, está traduzido para 25 línguas, mas os textos de Pramoedya foram censurados no seu país até meados de 2000, embora tenham circulado no exterior desde os anos 1960. Entre 1947 e 1949, período final da Guerra de Independência Indonésia, foi encarcerado pelo governo holandês. Uma vez que os holandeses perderam domínio do país e o primeiro líder Sukarno deixou o poder, foi a vez do regime de Suharto prender Pramoedya, alegando a sua afiliação a doutrinas comunistas.
Pramoedya possui diversos seguidores na literatura asiática, e foi considerado o melhor candidato asiático para o Prémio Nobel de Literatura, que nunca chegou a conquistar. Mas isso não significa que a sua carreira não tenha sido reconhecida internacionalmente. Em 1988, recebeu o prémio Freedom to Write, da organização internacional de escritores PEN, e em 1995 recebeu o prémio Ramon Magsaysay para Jornalismo, Literatura e Artes Comunicativas. Em 2000, juntou mais dois galardões ao seu currículo, o de Calaveiro da Ordem das Artes e Letras, de França e o Grande Prémio Fukuoka da Cultura Asiática.
A sua incursão na escrita começou na prisão, aos 24 anos. "O Fugitivo", o seu primeiro romance, saiu durante os seus dois anos de encarceramento. Amplamente considerado como um dos melhores escritores da Indonésia, Pramoedya, que faleceu em Abril de 2006 aos 81 anos, foi igualmente um herói do movimento anti-colonial da Indonésia e um campeão dos direitos humanos e da liberdade de expressão.
O escritor e activista passou a maior parte da sua vida adulta na cadeia, preso primeiro pelos poderes coloniais e depois pelos governos indonésios. "Cada injustiça deve ser combatida, mesmo que seja apenas no coração de alguém - e eu lutei", disse Pramoedya no livro "Exílio: Em conversa com Andre Vltchek e Rossie Indira".
O pai de Pramoedya era um professor de escola e nacionalista que o inspirou a se juntar à luta da Indonésia contra o colonialismo. A sua mãe veio de uma piedosa família muçulmana. Quando chegou à sétima classe, Pramoedya conhecia razoavelmente o holandês, o que lhe ajudou imenso nos estudos, pois o pai tinha a sua biblioteca, que incluía uma vasta selecção de obras holandesas. Para quem fala indonésio, o holandês é uma língua muito mais difícil de aprender do que o inglês. "Não vejo o estudo de línguas estrangeiras como maçada", reconhece o escritor, pois "brincado com uma língua estrangeira, acabarás eventualmente por gostar".
Apesar de ter apenas uma educação primária, passou a escrever mais de 30 livros, ficção e não ficção. O romancista é mais conhecido pelo quarteto Buru, que traça o nascimento do nacionalismo na Indonésia. Hoje se sabe que o autor tinha licença para escrever apenas em raríssimos momentos, o que não o impediu de terminar os quatros romances que constituem o clássico "Buru Quartet".
Pramoedya aprendeu digitação e estenografia, o que lhe permitiu conseguir um trabalho de funcionário para a agência de notícias imperial japonesa, Domei, com sede em Jacarta. Foi naquela época que ele entrou em contacto com nacionalistas e activistas anticoloniais.Os seus ensaios e cartas escritas durante o período em que esteve na prisão foram publicados como um livro de memórias, o "Solilóquio Mudo". "Um registo assustador da tentativa de um grande escritor de manter viva a sua imaginação e a sua humanidade", escreveu The New York Times Book Review sobre as memórias, com as quais Pramoedya perpetua o seu lugar entre os maiores escritores do nosso tempo, ao lado, sobretudo, do russo Aleksandr Soljenitsyne e do argentino Jacobo Timerman.
Entretanto, importa referir que outros escritores asiáticos, como Mochtar Lubis ou Goenawan Mohamad, eram igualmente críticos do sistema e da sociedade, enquanto continuavam envolvidos e relevantes; mas Pramoedya era um colosso e cada vez mais visto como uma relíquia de uma era que já não tinha o significado que anteriormente fazia. Jornalista e romancista, Mochtar Lubis, que faleceu em Julho de 2004 aos 82 anos, viu uma das suas obras a ser a primeira novela indonésia a ser traduzida para o inglês.
"Os presos de Buru que vieram de quase todas as prisões de Java são sobreviventes de muitas triagens anteriores da morte. Não, não se pode dizer que os mortos não falam. (...) Os presos que falharam no processo de triagem foram todos listados, transformados em notas à margem escritas com tinta feita de sabão (...). A morte, bem o sei, está em todo o lado. E sempre que olho para o caco de espelho que encontrei no lixo na prisão de Limusbuntu, em Nusa Kambangan, fico espantado ao ver o meu cabelo - como está branco, e como mudou de cor e de textura, e como certos tufos migraram para outras áreas, como que na esperança de encontrar um terreno mais fértil", escreve em "Solilóquio Mudo", que é no fundo um retrato angustiante da colónia penal, em que se relata ainda a história de um companheiro de cela; situação de que Pramoedya se vale com perfeição para revelar a sua coragem, integridade e empenho na defesa dos valores da justiça social, fazendo do livro um apaixonado tributo à liberdade de pensamento e ao humanismo".
Em toda a sua obra, o activista Pramoedya revela um forte apego literário às mulheres, ou melhor, à causa das mulheres. O seu trabalho contém muitos retratos complexos de diferentes tipos de mulheres de uma maneira incomparável em relação aos seus contemporâneos literários, que fizeram dos homens as suas principais figuras de ficção, com mulheres marginalizadas, como mães estereotipadas e prostitutas.
Todo esse percurso do escritor parece assemelhar-se ao do Toer, o seu pai e fundador da família Toer. Em 1923, esse jovem Toer tinha vastos conhecimentos de literatura. Era um activista, um escritor e um compositor. Traduziu a letra "Indonesia Raya", o hino nacional, para o holandês, e foi o autor de "Petruk Gareng em Semar", uma canção muito popular no seu tempo. "Ainda hoje, fico impressionado pela gama de interesse e talentos do meu pai", revelou Promoedya, em "Solilóquio Mundo", logo o escritor, que acreditava que um filho nunca é muito diferente dos pais.

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