O OCEANO NEGRO - Tese, antítese e síntese de um artista plástico

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“Este mestiço franco-togolês sobrepõe a História à sua história pessoal e anota com sensibilidade e pertinência as complexidades de um mundo negro de fronteiras definidas por potências estrangeiras Nele, o desenho é a escrita do intelectual. A força das imagens substitui o peso da palavra.”

A contracorrente: África e as suas ligações com o Ocidente permeiam cada vez mais a criação artística. Dessa aliança nasce uma nova leitura das relações pós-coloniais.

William Adjete Wilson é um homem consciente que fez da sua vida e do seu percurso o caminho de uma vida consagrada à arte. Este mestiço franco-togolês sobrepõe a História à sua história pessoal e anota com sensibilidade e pertinência as complexidades de um mundo negro de fronteiras definidas por potências estrangeiras

Nele, o desenho é a escrita do intelectual. A força das imagens substitui o peso da palavra.
Este homem discreto, afável, alto e esbelto, é um artista que conta. Este artista internacional conta com numerosas colaborações, nomeadamente com Louis Vuitton, a prestigiada marca francesa de artigos de luxo. Para Cultura, abre as portas do seu atelier parisiense.

Grandes volumes, luz e livros. O abrigo de William Adjete Wilson assemelham-se a uma residência de escritor. Começamos por abordar a nossa última entrevista e em seguida o artista plástico retoma as suas recordações de infância. «Tornei-me artista por acaso, sabia o que não queria fazer. Não iria aborrecer-me.

Depois, a grande decisão de me tornar artista coincidiu com as minhas primeiras viagens a África e com a descoberta da história do Golfo da Guiné.» Decididamente, a descoberta das suas origens é um acto fundador e emancipador para os futuros criadores.

Voltamos à sua estadia em Salvador da Bahia no verão de 2013, «aquando desta primeira estadia no Brasil, fiquei comovido e impressionado, existe uma proximidade evidente com África, sobretudo no estado da Bahia. Fazer a trigésima exposição da série O Oceano negro em Salvador foi para mim um símbolo magnífico. Espero agora poder exibi-la noutras cidades brasileiras e na África lusófona.

Este trabalho, que data de 2009, é ao mesmo tempo artístico, histórico e sociológico. Cobre o vasto conjunto cultural atlântico onde foram dispersos milhões de africanos. Para contar essa história de cinco séculos em três continentes, utilizei a técnica das aplicações de tecido, tradicional no Reino do Danxomé (actual Benin).

Damo-nos conta de que a brilhante visão de Paul Gilroy, a sua definição do Atlântico Negro, é ao mesmo tempo amplamente partilhada e sub explorada. Se a zona Norte, anglo-saxónica, está perfeitamente documentada, o Atlântico Sul, lusófono, luso tropical e hispânico mantém ainda alguns mistérios.

A sensibilidade de Wilson e os conhecimentos adquiridos no decurso das suas viagens consolidaram o seu discurso e conferiram mais profundidade aos seus novos trabalhos, como as colagens de tecidos africanos que tira de grandes gavetas. Depois, num impulso espontâneo, lembra: «Não estou interessado apenas em fazer quadros bonitos.

Existe sem dúvida uma dimensão política, estamos sempre em ligação, o período é muito político; o meu trabalho não é uma reivindicação, é mais um testemunho. Exprimo algo que tem a ver com a minha vida, o meu meio, a minha época, onde as questões pós-coloniais e o racismo estão na primeira linha. »

Somos um pouco apanhados de surpresa quando este homem, antigo dançarino nascido numa cidade de província francesa, aborda frontalmente o racismo. O seu aspecto físico poderia fazê-lo passar por tantas identidades diferentes que ficamos perplexos por um instante. Contudo, o artista satisfaz a nossa curiosidade e explica com simplicidade a sua experiência: «Pela minha mestiçagem afro-europeia, pareço-me com imensas pessoas de várias partes do mundo, mas há uma coisa comum a todas elas, que é a discriminação que sofrem devido à cor da sua pele.

Grande parte do meu trabalho é sobre a imagem, a sua valorização e a sua desvalorização. Não é uma questão de cor, mas uma questão de olhar. A questão da raça está de tal forma presente no mundo, na realidade, que é constitutiva de todo o sistema no qual vivemos. »

Será sem dúvida compreendido, pois a sua obra não é neutra. O artista pensa, reflecte, documenta-se.

Tomamos chá quente acompanhado de madalenas amarelas e redondas, mas poderíamos igualmente refrescar-nos com sumo de bissap e kokada à moda de Lomé, a capital togolesa. Sabemos que a força de William Adjete Wilson lhe advém de ser um hábil camaleão, um cidadão do mundo, desejoso de nos fazer partilhar o seu interesse por África.

Despedimo-nos do artista concentrando-nos nas suas últimas palavras «Existe um universo transnacional e transcontinental ainda subestimado. Os artistas expressam-no já através da música, claro, mas também através de todas as outras artes. Os artistas são visionários. A partir do mundo actual, apoiando-se no passado, falam já do mundo de amanhã. »

Observamos ainda alguns trabalhos onde apreciamos a utilização dos tecidos africanos. A complexidade de África, a sua geopolítica, os seus males e os seus êxitos, estão realmente a dar origem a uma geração de artistas e de intelectuais não alinhados. O mundo diaspórico vai demonstrar a sua riqueza e a extensão das suas redes. O trabalho William Adjete Wilson inscreve-se já nesse processo.

“Não é uma questão de cor, mas uma questão de olhar. A questão da raça está de tal forma presente no mundo, na realidade, que é constitutiva de todo o sistema no qual vivemos”

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