O que é isso, pai, é outra na cidade de Bissau?

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Poesia de Jorge Otinta.

HEIDEGGER GIGI (HEIDEGGER GUINEENSE)

Dispus di jubi si fiju na fundu di si ujus, i sai ku es:
Olhando no fundo dos olhos do próprio filho, diz-lhe o pai:
Psikosomatiku
Psicossomático
(Fiju rabida i jubi papé… i pensa ku si kabesa di mininu ku sibi ciu; nos tan i ciu ki ta skirbidu?)
(O filho fitou ao pai. Pensando na sua sabedoria de menino astuto)
– Es mas i kê? Papa kê i utru nubdadi más na Bissau?
– O que é isso, pai, é outra na cidade de Bissau?)
(I ruspundil ku dintis murdidus di raiba)
(Rangendo os dentes, respondeu-lhe, com certa ira)
– Na nundé?
– Onde?
(Sin koragen di torna fala pa si papé, i sai tan ku és). Ker ser: kada kin ku disel:
(A tremer dum medo friorento, devolveu ao pai, dizendo-o que cada um tinha os seus problemas)
– Anta, papé di mi, ñu disal pon na psikomesusadu…
(E arrematou: Então, pai, é melhor deixar isto como psicossubtraído)

15 Jan. 2012

SIMINTERU NOBU  

Ospital, si ñu na rapada,
i sedu nan gosi
siminteru di almas

NOVO CEMITÉRIO

Veja, se reparares bem, o hospital
transformou-se agora
bibus no cemitério dos vivos, ora!

12 Fev. 2012.

AI, POR FAVOR, NÃO CAI

Da sombra de uma ponte em construção
Descem lentamente
As chamas sombrias de uma manhã orvalhada de concretos.

DISSOLUÇÃO

O homem
se esforça
se multiplica,
se autocria escrupulosamente
nas deslocações imaginativas
para a solução do problema fundamental:
restringir-se
a uma negação absoluta.
Uma força
proporcional
o coloca à deriva
Ele, como se fosse uma fantasia,
ou um capricho dissolvente
de um destino mofino.
Apesar do que tenho visto
e imaginado
e pensado
e sentido
e vivido
imagino a minha Bissau
que me mete medo
à vista,
pois, quando a cidade cala
o país chora
Doismilenove
num áspero março estrondoso,
pecaminoso
a seguir-lhe
junho criminoso
abrem-se, em mim, os arsenais
da discórdia
que me conduz
ao rés-do-chão
da história menina
que, sem começar, termina
na chuva de sangue fina.

Meus olhos
ávidos de utopias
contradizem-se
com meus dias ácidos
de tensas ventanias
e de últimas recordações
que o Cais (não) esquece
imolações,
frustrações
lamentos de minha perdição
não fosse a teimosa fé
na singidura feição
do meu lopé.
Algumas kassabis me perseguem
e, paralelamente, algumas saburas persistem
muitas léguas Sabura
a atravessar
quiçá, um dia de ternura
há-de vir
se o sonho
assim o convir.

Bissau/Março/2009



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