Paris Fashion Week

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Colecção Primavera/Verão 2013

Acumulo os convites que me enviam. Estou excitada como uma miúda na véspera de Natal, quero conhecer o futuro, mergulhar no guarda-roupa encantador de uma daqueles manequins, daquelas bonecas.

Em Paris a moda vibra, simplesmente, de uma maneira mais forte do que em qualquer outro sítio. A capital do estilo é hábil
em fazer-nos endoidecer, em nos fazer sonhar.

A minha semana de moda começa pela descoberta do «paraíso luxuriante» de Fátima Lopes, que reúne as suas recordações de infância passada no jardim do Éden. Uma parede vegetal que evoca uma exuberante floresta tropical faz de cenário, os triquinis, fatos-de-banho mais sensuais do que se elas estivessem nuas, apoderam-se dos corpos das manequins.

Os talhes provocantes dos vestidos suscitam devaneios, as combinações mostram a ousadia de decotes perturbadores. Flores tropicais, pássaros do paraíso, destacam-se livremente dos rosas flamejantes, dos azuis-reais e do verde vivo da Natureza.

Cada Paraíso oculta as suas trevas, o negro impõe-se sobre os numerosos estampados. Por vezes, a beleza é enganadora, ser bela é um Inferno. Mais tarde, nesse mesmo dia, assisto ao desfile de Luís Buchinho. Uma parte do espetáculo está no público.

Pernas telescópicas sucedem-se a outras pernas telescópicas montadas em cima de tacões magnificamente altos. Depois as primeiras manequins chegam em força, os primeiros looks em cor-de-rosa berrante imprimem energia.

A aposta está ganha, apaixono-me pelo tom desta coleção em que a destreza técnica parece evidente. Os fatos de calças são impecáveis, o jogo de plissados torna os detalhes muito construídos e muito femininos.

A luz está omnipresente, insere judiciosamente todo o seu espectro sobre os materiais de primeira escolha: tafetás, musseline, cetim e algodão strecht. As princesas das cidades cosmopolitas apaixonadas pela elegância intemporal e urbana, irão apreciar.

O rosa-choque ainda tem uns belos dias à sua frente, nas coleções de Manish Arora é rei e senhor. Desta vez não há nenhuma explosão de cores, mas sim de tons pastel, de cores Ladurée que nos trazem à memória o bolo predileto da parisiense estilosa.

A energia vem da bijutaria Amrapali, que confere o carácter espetacular a todas estas proposições. Nelas encontramos a Índia, a sua preciosidade, a sua tradição têxtil, as suas cores mas, sobretudo, a sua arte de bordados empurrada para os seus últimos redutos por tanta modernidade.

A natureza mais exuberante, os animais míticos como as panteras, os tigres e as gazelas esbatem-se com humor e fantasia. Mesmo a vasta gama dos trajes tradicionais indianos mergulha neste banho contemporâneo efervescente.

Os detalhes dos vestidos, dos casacos e das túnicas são prodigiosos. É uma coleção muito bonita aquela que M. Arora nos oferece. É alegre, festiva, e isso cintila, é opulento. Quase nos esqueceríamos da chuva e das nuvens negras que rosnam nesse mesmo momento no céu de Paris. Bollywood rescue me, salva-me Bollywood.

Para o espetáculo Nina Ricci, as mulheres mais influentes do planeta moda, algumas delas com mais estilo que outras, desfilam sobre um tapete branco e tomam o seu lugar. De repente, pétalas brancas juncam delicadamente o solo.

Menção especial para os casacos fabulosos. As grandes damas comprarão de olhos fechados o de tafetá «em pele de Verão», ou aquele em organza bordada, doce sonho de ligeireza. A coleção é muito parisiense, decididamente burguesa.

Conquista-nos o gosto. BAAM ARGENTINA, a Argentina apresenta os seus criadores em Paris. Nicolas Luzzuriaga e os seus vestidinhos frágeis e fortes esculpidos pelo metal prometem um belo futuro à moda argentina.

Por outro lado, não são esquecidas as suas responsabilidades éticas. Marcelo Senra, referência internacional da moda ética, convida-nos a descobrir uma coleção chique e urbana.

Propõe um toque étnico para roupas funcionais. Ground Zéro constrói vestidos futuristas com detalhes regressivos, e isso funciona. O vestidinho de capa azul faz realçar o lado de supermulher que existe em cada uma de nós.

E a feminilidade readquire os seus direitos, os trajes rosa-pálido, encantadores, vivos, enviam um grande abraço dos lábios destas heroínas audaciosas. No fim de contas com um pouco mais de estilo poder-se-ia talvez salvar o mundo. Os sapatos são, também eles, surpreendentes.

As miúdas que gostam de atrair a atenção gostarão desta marca. Que delicadeza, das cores empoadas de Mossi! Desfile ao ar livre, debaixo dos raios de um sol muito parisiense. Destas silhuetas de tonalidades pálidas emana muita doçura, mas o rosa em tom de algodão doce é apropriado para as mulheres. O blusão curto inteiramente plissado tem uma bela execução. Será de seguir esta dupla de criadores. A minha semana de moda ainda não terminou...

Inexistência de cor

Sobre um fundo de polémica, a primeira edição da Semana da Moda Negra de Paris (Black Fashion Week Paris) tem lugar sob os ouros do Pavilhão Cambon, à frente da boutique Chanel. Algumas vozes pensam que se trata de um acontecimento puramente sectário, ainda que se trate de apresentar as criações inspiradas em África pelas mãos hábeis de especialistas vindos do continente africano.

O preto carvão instala-se de forma monocromática debaixo dos projetores do Pavilhão Cambon. As doze primeiras passagens que inauguram a Semana da Moda Negra de Paris prestam homenagem à inexistência de cor.

Se o propósito estilístico da produtora e criadora de moda é o de demonstrar a força e os méritos do Negro, então ela consegue-o. Os fatos e os vestidos em bazin adamascado, rico, lustroso, prestam-se à severidade de um corte apurado, cuja austeridade faz lembrar um pouco o aspeto rétro de Diouna, personagem do filme La Noire de. Aqui, Adama Paris articula o seu trabalho em torno da construção de uma linha de ombros.

As omoplatas descobrem-se, à espera de um Sol tamanho XXL, um gesto terno, um beijo. A fragilidade da nudez é sempre uma ilusão. Porque adivinhamos rapidamente um carácter bem escondido através da simples observação das ombreiras quadradas, almofadadas, como umas asas, e que, no conjunto, vêm consolidar a largura de ombros de ébano desta dama de negro. La Quan Smith mistura uma profusão de detalhes neofuturistas nas suas roupas inspiradas no mundo do clubismo e da roupa desportiva.

O lamé, o neoprene, o PVC integram os tops curtos, as mini-saias de godês, a seguir aparece Irva Cissé vestida com um macacão colado ao corpo, oscilando entre a obscuridade e a transparência sobre um fundo constelado de estrelas douradas.

A hibridação entre dois mundos é, com frequência, um exercício perigoso, Jamila Lafqir inspira-se em albornozes que ela revisita numa versão mini, em que a ideia ainda será de aprofundar, embora se aprecie o trabalho de bordado num casaco zebrado completamente coberto de lantejoulas.

A tanga em tecelagem prossegue a sua democratização, sob a forma de saias travadas ou de vestidos com o corpo ajustado, em renda fina, a visão de Sophie Zanga cai justa. O recurso a linhas simples convém perfeitamente a este material.

A saia comprida, larga, de pregas fundas, vestida com uma t-shirt branca, solta e bordada a "pailletes" num estilo pura e simplesmente chic informal, é definitivamente a orientação a seguir, salta-nos à vista. Alphadi tem sempre a tradição presa à ponta da sua tesoura.

Maria Bocoum oferece-nos um soberbo vestido índigo de ombreiras bordadas que realça ainda mais as sumptuosas costas quadradas. O branco, as transparências, luz e orientalismo estão presentes na coleção de Karim Tassi. O macacão de calças largas é magnífico. Para as mulheres que não têm os olhos frios, Thula Sindi promete um braçado de admiradoras. Entre um vestido preto com aplicações de favos, um vestido comprido a deixar adivinhar a perna e o estampado de leopardo que corre ao longo das transparências, pressentimos que a mulher que se pretende fatal corre o risco de arranhar os corações.

Martial Tapolo não concede senão ao vestido de noiva e a um vestido de cocktail cor de junquilho um pouco de energia primaveril. Quanto ao resto, há que prestar atenção à cavalaria, às armaduras de cota de malha e, sem dúvida, a um submundo mais alargado, povoado por dominadoras, punks e góticas. Costura rebelde escrita com tinta mágica, ferozmente tenebrosa, cujos eflúvios do rock'n'roll se fazem sentir nas franjas que pendem de um corpete, ou nas plumas sobre a magnífica couraça em pele de borrego de Christelle Koko.

O potro, a renda, o crocodilo, os detalhes em couro com lamé dourado, um florilégio de materiais belos que prolongam a escuridão encantada do costureiro. Quando Elie Kuame propõe, por seu turno, um vestido negro, o resultado é irrepreensível.

Os saiotes vaporosos em tule, assim como o corpete em pele de cobra, arrebatarão as entusiastas do glamour hollywoodesco. A delicadeza do fato em renda chantilly e as luzes dos excelentes casacões justos ao corpo bordados a lantejoulas pretas e prateadas sublinham a polaridade extrema do fio criativo de Soucha.

Desta vez chegou ao fim. Estação encerrada.

(Tradução de Maria Helena Serrano) Legendas Fatima Lopes, Luis Buchinho, Manish Arora, Ground Zéro et Mossi. Black Fashion Week Paris: Adama Paris, LaQuan Smith, Jamila Lafqir, Maria Bocoum, Sophie Zanga, Marial Tapolo, Thula Sindi, Karim Tassi.

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