Pépé Felly Manuaku Património da rumba congolesa

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Pépé Felly Manuaku Waku, este guitarrista a solo genial, único no seu género, que faz parte do património da rumba congolesa (também designada por música congolesa ou música congolesa moderna) completou 60 anos de existência em Agosto passado.

Pépé Felly Manuaku Património  da rumba  congolesa
Pépé Felly Manuaku Património da rumba congolesa

 Nasceu a 18 de Agosto de 1954 nesse grande país africano actualmente chamado República Democrática do Congo.
Na sua certidão de nascimento, o escriturário escreveu o único nome e o único apelido que os seus pais lhe deram: “Félix Manuaku” (confirmado pelo seu irmão mais velho Emma, a quem muitos cantores, músicos e jornalistas congoleses célebres se referem com enorme respeito como “O Velho” Emma). Este último vive na região parisiense e forneceu esta informação durante uma entrevista telefónica às 13H40 de 21 de Agosto, ao jornalista Lilo Miango. O 60º aniversário de Pépé Felly Manuaku (durante algum tempo também chamado Manuaku Waku, pela força da lei do presidente Mobutu que se impôs a todos os cidadãos do seu país) não passou despercebido graças a cerca de 20 documentos muito ilustrados, redigidos e “mundializados” na Internet pelo grande homem de cultura Djamba Yohé (Canadá). E então as pessoas reagiram nos diversos meios do Japão, da Suíça, na Grã-Bretanha, no Canadá, nos EUA, em França e na Bélgica. A revista NGAMBO NA NGAMBO tomou o pulso às consequências deste fervor popular. Eis a razão pela qual publicamos um testemunho insólito da congolesa Joe Tshimbalanga, que vive em França e é membro da grande família Tshimbalanga da cidade de Kinshasa. “Eyenga ya bokundoli mbula mpo mobeti lindanda Pépé Felly Manuaku. Elenge mwasi Joe Tshimbalanga asali oyo bayemba: NGONGI PESA NSANGO.” [Na língua internacional Lingala ("é o aniversário do nascimento do guitarrista Pépé Felly Manuaku. A simpática jovem Joe Tshimbalanga rende-lhe uma merecida homenagem no quadro desta cultura de alto nível simbolizada pelo instrumento de música “NGONGI".] /Albert Lupungu Ndjate, redacção de Genebra.

Quem é este grande senhor da música que celebra os seus 60 anos em Agosto de 2014?
Manuaku é autor-compositor de muitas canções de sucesso. Em 1969, em Kinshasa, foi um dos três artistas co-fundadores da mítica orquestra Zaïko Langa Langa , juntamente com os cantores Jossart N'Yoka Longo e Papa Wemba (Shungu Wembadio Jules). Foi aí que começou a sua carreira. Foi na Zaïko Langa Langa, grupo musical de referência da 3ª escola da música congolesa do património da música congolesa que Pépé Felly inventou o “sebene”, essa melodia repetitiva da guitarra a solo, um estilo muito apropriado à dança, que revolucionou toda a música congolesa até aos nossos dias. E desde então o “sebene” de Pépé Felly Manuaku é um dos símbolos “marca registada” da música congolesa que faz dançar o mundo inteiro, e isso é copiado em todo o lado. Ele vive entre o Congo e a Suíça. E os seus 60 anos de idade “santificaram-no” em Kinshasa, onde a revista NGAMBO NA NGAMBO conseguiu falar-lhe por telefone a 19 de Agosto.

Joe Tshimbalanga (estudou em tempos em Liège, na Bélgica, e é conhecida por alguns jornalistas históricos e célebres de Kinshasa que fundaram, nos anos 70, a imprensa escrita musical na história dos media do Congo); eis o seu testemunho:
“O falecido Christophe NZITA MABIALA, então jornalista-cronista de música no vespertino ELIMA (para quem se lembra) e um grande melómano, quis montar um recital de poemas a que chamou “ISHA”, nome da sua noiva na altura.
Falou nisso a Madame MAZAMBA, então directora do Liceu Bosangani (Sacré-Cœur da comuna de Gombe), que recrutou algumas amigas (Colette ILUNGA aliás ZEUS, Isabelle NTUMBA, a falecida Francine DILUNGANE, A.M. TSHISHIMBI, M.C. TSHIMBALANGA para citar apenas estas pessoas, além de mim própria) para o dito espectáculo. Nesse ano, em 1975, os nossos passaportes foram-nos retirados quando regressámos ao país para férias e por isso ficamos lá a estudar.
Foi assim que o Christophe (que Deus tem) veio contactar as pessoas escolhidas para uma primeira sessão de trabalho. Estava acompanhado por dois jovens com cabelo “Afro” e um deles parecia-nos familiar mas não conseguíamos lembrar-nos do nome dele, nem eu nem as minhas amigas. Os “actores» deviam declamar, quer dizer, “representar” os poemas sob fundo musical e as suas diferentes prestações eram acompanhadas por um cantor. Com certeza já terão percebido que se tratava de Félix MANUAKU WAKU e de Claude Louis NSUMBU MAKOLA LENGI (por coincidência, este último, nascido a 16 de Agosto de 1954, ou seja, 3 dias antes de Félix, também teria festejado este ano os seus 60 anos).
A primeira vez que encontrei Félix, reparei nos seus admiráveis belos olhos! Esses olhos que carregam consigo a alegria e o sofrimento do mundo à sua volta; olhos que sabem encantar mas também atravessar-nos como uma flecha quando faltamos ao nosso “dever», esses olhos tão expressivos que, olhando para Félix, ele nos revelava o que realmente era, no mais profundo de si mesmo, pois Félix era uma pessoa terna, amigável, que não apenas apreciava imenso uma boa companhia (a que estimula o outro, o encoraja a ultrapassar-se), mas também era muito emotivo e muito sensível, a despeito da sua aparência fleumática.
De Félix a Pépé Felly, a fronteira é muito ténue, quase inexistente, pois o homem e o artista, são, no caso de Manuaku WAKU, difíceis de separar. Com efeito, nos dois casos, trata-se dele próprio; uma pessoa humilde, nada arrogante e disponível. Isso deve-se talvez ao grande obstáculo que ele conseguiu ultrapassar graças ao incomensurável amor da sua mãe e à determinação de ambos. Isto faz certamente parte dos factores que contribuíram para a pessoa em que ele se tornou, um verdadeiro virtuoso.
Como define o dicionário a palavra VIRTUOSO? Um virtuoso (do italiano virtuoso, do latim virtuosus,  deriva de  virtus  que significa “competência, virilidade, excelência”), é um músico que possui um domínio fora do vulgar do seu instrumento ou da sua voz.
O virtuoso é também, por vezes, frequentemente até, um compositor.
A virtuosidade manteve assim durante os últimos séculos uma relação estreita com as aptidões para compor; a imensa lista de virtuosos-compositores, entre os quais Bach, Mozart, Beethoven, Liszt, Chopin, Rachmaninov, Berlioz e muitos outros, comprova-o claramente. Paganini, por exemplo, subjugou até os maiores músicos da sua época pela sua técnica e o seu à-vontade, muitas vezes considerados diabólicos. Inspirou inúmeros compositores, desejosos de escrever para os seus instrumentos peças de uma dificuldade comparável às do maestro italiano.
Não vos parece que esta definição se ajusta perfeitamente à pessoa de Pépé Felly? Isto só lhe foi possível por ser sensível aos ambientes e por isso poder passar de uma aparente indolência, de uma aparente moleza, a uma intensa actividade, quando se sentia estimulado afectivamente ou por amigos; pôde transcrever as suas emoções, fazer com que as sentíssemos, sublimá-las graças à música, a sua música.
MANUAKU WAKU, que nós alcunhámos afectuosamente A Esfinge (porque ele não era capaz de dar nem um passo de dança, nem sorria, contrariamente aos seus colegas guitarristas, o falecido Teddy SUKAMI ou mesmo Titish MATIMA, Djo Mali, Oncle Bapuis, durante as diferentes prestações da Tout Choc Anti-Choc Zaïko Langa Langa, só para citar alguns) era, em privado, uma pessoa diferente! Dotado de um sólido bom senso, de um grande sentido de humor, de uma disponibilidade constante e cheia de dinamismo, apresentava o seu outro lado!
Os seus trunfos são o seu charme, a sua gentileza, a sua amabilidade e o seu espírito de camaradagem. A sua fineza psicológica, para além da intuição, tal como o seu claro  savoir-faire,  compensam, de alguma maneira, o que alguns pensam ser indiferença. A sua natureza muito rica levou-o a ser um excelente caricaturista. Infelizmente deixou de lado essa vertente da sua arte para nosso grande prazer, certamente, mas estou convencida de que também teria sido exímio nessa sua outra faceta!
É um músico e um artista na alma ; a sua essência é muito rica de emoções. Uma pequena história, entre parêntesis : quando eu já tocava piano, achava que podia aprender facilmente a guitarra, ainda mais porque Félix era o meu professor, mas infelizmente, até à data, mal consigo dedilhar uma guitarra e isso tornou-se num motivo de riso de cada vez que nos encontramos. Isto para dizer que o dom musical, ou qualquer outro, não se transmite por osmose, porque se assim fosse, eu seria uma óptima guitarrista, mas sim pelo trabalho, pela perseverança, a procura contínua, como Félix afirmava continuamente.
Ouvindo todos os textos das suas canções, constatamos que Manuaku Waku é também um grande letrista, não menos do que um grande guitarrista a solo. Por ser um inovador e percursor que estuda sem cessar, procurando atingir a PERFEIÇÃO MAIS ACABADA, a qualidade e a complexidade das suas partituras de guitarra, as suas melodias, marcaram-me sempre e fizeram-me sentir esse feeling  que chega ao coração e mexe connosco. Compôs e executou belas melodias que eu me sinto tentada a qualificar objectivamente como académicas, de tal maneira são “estruturadas” e “limpas”, verdadeiras obras de arte.
Marcou muitas gerações de músicos em geral e particularmente de guitarristas. Olivier TSHIMANGA, outro artista completo e cheio de talento, disse-o com muita emoção na Radio MANGEMBO, “la Belle Epoque” de César NGADI.
É pena que algumas pessoas estejam convencidas de que tanto talento não se faz acompanhar, no seu entender, de emoção comunicativa capaz de arrancar lágrimas a um ouvinte. Estas raras pessoas pensam que certos guitarristas a solo, claramente com menos talento, deixam transparecer uma emoção tão grande na sua forma de tocar que somos tentados a confundi-los com os grandes, ao lado daquele que é REALMENTE GRANDE e, infelizmente, “demasiado sério” Manuaku Waku.
Joe Tshimbalanga (França).

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