Poemas de Rainer Maria Rilke

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Tradução de Zetho Cunha Gonçalves

1
Meu coração faz cantar esta noite
os anjos que se rememoram…
Uma voz, tão próxima da minha,
por tanto silêncio tentada,

ascende e decide
nunca mais voltar;
terna e ousada,
a quem se vai ela juntar?

2
Candeia da noite, minha serena confidente,
o meu coração nem um pouco é por ti desvelado,
(talvez aí nos perdêssemos;) mas o seu declive
do lado sul permanece levemente iluminado.

És tu ainda, ó candeia de estudante,
quem quer que o leitor de vez em quando
se detenha maravilhado, e se inquiete,
debruçado sobre o livro, que te olha.

(E a tua candura faz desaparecer um Anjo.)

3
Mantém-te tranquilo, se, de repente,
o Anjo à tua mesa se decide;
apaga suavemente aquelas rugas
que a toalha forma por debaixo do teu pão.

Oferecerás o teu alimento austero
para que ele por sua vez o saboreie,
e que leve ao lábio puro
um copo simples, quotidiano.4
A nossa penúltima palavra
seria uma mísera palavra,
mas diante da consciência-mãe
toda a derradeira palavra será bela.

Nela teríamos que condensar
todos os esforços de um desejo
que nenhum travo de amargura
ousaria reprimir.

5
Se a um deus se canta,
este deus o seu silêncio nos restitui.
Nenhum de nós se adianta
a não ser a um deus que se cala.

Esta imperecível permuta
que nos faz estremecer,
transforma-se na herança de um anjo
sem nos pertencer.

6
Água rápida, que corre −, água esquecida
que a terra distraída bebe,
hesita um segundo na concha da minha mão,
lembra-te!

Límpido e fulminante amor, indiferença,
quase ausência correndo,
entre a tua exuberância à chegada e o teu
(excesso à partida)
estremece uma leve presença. EROS

I
Ó tu, centro do jogo
Onde se perde quando se ganha;
célebre como Carlos Magno,
rei, imperador, Deus, −

tu és também o mendigo
em piedosa postura,
e é a tua múltipla figura
quem te torna dominante. –

Tudo isto seria pelo melhor;
mas tu estás, em nós (é o pior)
como o centro negro
de um xale de cachemira bordado.

II
Oh, façamos tudo para cobrir o seu rosto
num gesto desvairado e arriscado,
é preciso recuar ao fundo das idades
para apaziguar o seu fogo indomável.

Ele vem tão rente a nós que nos separa
do ser amado, de quem se serve;
ele quer ser tocado; é um deus bárbaro
que as panteras levemente roçam no deserto.

Entrando em nós com seu imenso cortejo,
ele quer tudo iluminado, −
ele, que depois se escapa como de
(uma armadilha,)
sem ter sequer tocado na isca.22
Como se tornaram discretos, os anjos!
O meu, mal repara em mim.
Que eu lhe ofereça ao menos o reflexo
de um esmalte de Limoges.

E que os meus vermelhos, verdes e azuis
em seu olho redondo rejubilem.
Se lhe parecerem terrestres, tanto melhor
para um céu nas origens.

RETRATO INTERIOR

Estas não são as lembranças
que, em mim, te preservam;
sequer já me pertences
pela força de um belo desejo.

O que te torna presente
é o desvio ardente
que uma lenta ternura
descreve no meu próprio sangue.
Não sinto necessidade
de te ver aparecer;
ter nascido me bastou
para te perder um pouco menos.

32
Como reconhecer ainda
o que foi a vida tranquila?
Contemplando talvez
na minha palma a soma das imagens

destas linhas e destas rugas
que a gente preserva
fechando sobre o vazio
esta mão de nada.35
Não é triste que os nossos olhos se fechem?
Adoraríamos ter os olhos sempre abertos
para ter visto, antes do fim,
tudo quanto se perde.

Não é terrível que os nossos dentes brilhem?
Seria necessário um charme mais discreto
para viver em família
nestes tempos de paz.

Mas não é muito pior que as nossas mãos se agarrem,
duras e ávidas?
Seria necessário que as mãos fossem simples e generosas
para erguerem a dádiva!

57
Ó corça: que belo interior
de antigas florestas transborda dos teus olhos;
quanta confiança os envolve
mesclada de tanto pavor.

Tudo isso, trazido pela extrema
delicadeza dos teus saltos.
Mas nunca acontece nada
a esta impossessiva
ignorância da tua face.

58
Detenhamo-nos um pouco, conversemos.
Sou eu ainda, esta noite, quem se detém;
são vocês ainda quem me escuta.

Não tarda, outros irão tocar
para os vizinhos, sobre a vereda,
debaixo destas belas árvores de que dispomos.

59
Estão feitas todas as minhas despedidas. Tantas partidas
foram-me formando lentamente, desde a infância.
Mas eu regresso ainda, recomeço,
este simples regresso liberta o meu olhar.

Eis o que me resta: cumpri-lo,
e minha sempre impenitente alegria
de ter amado coisas tão próximas
a essas ausências que nos conduzem à ação.

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