Poeta dinamarquês traduzido em português

Envie este artigo por email

Niels Hav é um poeta dinamarquês considerado uma das mais importantes vozes da poesia nórdica contemporânea. Traduzido em mais de 10 línguas.

Niels Hav é um poeta dinamarquês considerado uma das mais importantes vozes da poesia nórdica contemporânea. Traduzido em mais de 10 línguas, o autor está a ser publicado em português pela primeira vez numa obra lançada em Agosto, no Brasil, pela editora Penalux.
A obra “A alma dança em seu berço” traz uma colectânea de poemas que abordam o envelhecimento e a existência com humor e serenidade. São poemas contemporâneos, numa linguagem moderna, por vezes crua, mas sempre afiada. “O que salva o livro de ser uma abordagem ácida sobre a vida é justamente a capacidade de Niels Hav de balancear essa dureza com a sua capacidade de ver a beleza e o humor nas coisas”, avalia Tonho França, poeta e editor da Penalux.
“A crueldade da vida é que todos nós vamos morrer”, sentencia Hav, “mas a alma humana ainda é jovem e curiosa sobre o futuro”.
Para Niels Hav, a felicidade física não é nenhum crime, e a alegria, sendo tão frágil, deve ser usufruída com intensidade antes que se dissipe na crueza dos dias. “A vida é uma jóia preciosa. Uma felicidade e melancolia permeia o cosmos”.
Niels Hav revelou por e-mail ao Jornal Cultura que ser traduzido para o português "é uma grande coisa", é ainda "como se apaixonar de novo, ter uma nova namorada e juntar-se a uma nova família com uma cultura diferente e outras tradições".
O poeta dinamarquês sente-se orgulhoso por se traduzido numa "das principais línguas do mundo, com tradições orgulhosas em poesia", não admira que os dois dos nomes mais importantes poetas na sua cabeça sejam o português Fernando Pessoa e o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. "Cada um no seu próprio continente, e muito diferentes - ainda que tenham em comum uma melancolia e uma profunda saudade, que podem fazer parte da língua portuguesa. Sonhar, viajar, saudade são elementos essenciais da alma portuguesa", diz.
Apesar da distância, Niels Hav tem muito a dizer sobre África. O poeta revela que, há alguns anos, participou da Poetry Africa, em Durban; evento que lhe permitiu conhecer muitos escritores africanos. "E tenho boas lembranças de poetas fortes como os sul-africanos Kobus Moolman e Rustum Kozain", avança. "E alguns poetas africanos destacados que trabalham a tradição da palavra falada, muito diferente do meu fundo. Muitos poetas africanos são óptimos artistas. A minha poesia é mais uma conversa íntima com o leitor individual. Tenho grande respeito pela tradição africana, onde o poeta usa todo o corpo, não apenas a voz. A dança é uma forma diferente de comunicação, eles sabem mais sobre isso em África e no Brasil".
Niels Hav, que se estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou o seu primeiro livro de poesia, lembra que África "é um continente rico com uma infinidade de idiomas e culturas", mas reconhece que "a nossa ignorância europeia da literatura africana é extensa". "Wole Soyinka foi agraciado com o Prémio Nobel, o que causou alguma atenção. Temos uma selecção da poesia de Agostinho Neto na tradução dinamarquesa. Chinua Achebe tem igualmente boas traduções", diz.
O autor dinamarquês revela ainda que conheceu o poeta zimbabueano Chenjerai Hove (1956-2015) que vivia exilado na Noruega. "Os escritores Seedy Bojang (gambiano), Tendai Tagarira (zimbabueano) e Noufel Bouzeboudja (argelino) estão exilados aqui na Dinamarca, apoiados pela Rede Internacional de Cidades de Refúgio (ICORN), uma organização independente de cidades e regiões que oferece abrigo a escritores e artistas em risco, promovendo a liberdade de expressão, defendendo os valores democráticos e promovendo a solidariedade internacional".
O jovem autor baiano Matheus Peleteiro, que assina a tradução ao lado de Edivaldo Ferreira, escreve: “Basta um mero olhar de soslaio sob os poemas de Niels para perceber que a sua poesia pulsa. Desde as primeiras linhas da obra, faz-se evidente a sofisticada sensibilidade que o autor carrega por trás de cada verso, merecendo destaque a sua pungente – e ao mesmo tempo subtil – profundidade ao explorar e se divertir com as contradições oriundas das emoções humanas”.
Nesse sentido, os poemas do autor dinamarquês carregam um pouco de serenidade estóica, na sua aceitação da vida tal como ela é: doce e ao mesmo tempo cruel; carregada de beleza, mas ainda assim capaz de nos desferir duros golpes. O poema "Epigrama" dá uma dimensão dos predicados da poesia de Niels Hav: Podes passar uma vida inteira/ em companhia de palavras/ sem que encontres a adequada. / Tal como um peixe miserável/ embrulhado em jornais húngaros. / Por um lado, está morto, por outro, não entende húngaro.
Niels Hav reconhece pertencer ao cenário literário da Dinamarca, mas nunca sentiu que fizesse parte de alguma geração ou movimento dentro da poesia dinamarquesa. "Cheguei aqui com experiências completamente diferentes das que os poetas urbanos vivem. Lembro-me como fiquei contente quando conheci os poemas Ted Hughes e Seamus Heaney, por exemplo, eles escreviam sobre espaços mais amplos, além da periferia urbana e sobre experiências com a natureza e com animais que eu podia rapidamente identificar", diz o escritor que, apesar de ter nascido na cidade de Lemvig, no oeste da Dinamarca, foi na capital Copenhaga que se estabeleceu, onde vive até os dias actuais. "O dever primário da poesia é ser uma conversa íntima com o leitor sobre os mistérios mais profundos da existência", insiste.
Niels Hav acredita que a poesia é destinada a todos, já que "poemas são endereçados a qualquer pessoa", enquanto o ofício, a prática diária de escrever poesia, "(...) não é para covardes". "Trabalhar nesta área pode requerer coragem e perseverança. E uma disposição a renunciar o lirismo individual e o sentimentalismo desenfreado, que sempre ameaçam sufocar a poesia. Uma peculiaridade dos bons poetas: todos os poemas maus que eles nunca escrevem", diz o poeta que, em "Em defesa dos poetas" revela a dureza do ofício: O que devemos fazer com os poetas?/ A vida é dura com eles/ eles parecem tão deploráveis vestindo de preto/ a sua pele azulada por nevascas internas./ Poesia é uma doença terrível/ o infectado caminha entre lamentos/ seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos/ de usinas nucleares da mente. É tão psicótico./ A poesia é uma tirana/ mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos/ atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno/ onde elas ficam a sofrer usando protectores de ouvidos e grossos cachecóis./ Imagine a tortura.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos