PRÉMIO ORISHA: "Criar visibilidade para arte contemporânea subsaariana"

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A entrega do Prémio Orisha para a arte contemporânea africana teve lugar no início do mês de Outubro de 2014. Por iniciativa de Nathalie Miltat e de Timothée Chaillou, a primeira edição deste prémio internacional que visa chamar a atenção para "as abordagens mais emblemáticas da cena africana subsaariana" recompensou o escultor beninense Kifouli Dossou. No entanto, não foi possível evitar a polémica.

PRÉMIO ORISHA:
Timothée Chailou et Nathalie Miltat

A 2 de Outubro de 2014, a melhor sociedade de Paris acotovelava-se no átrio da leiloeira Piasa, sita à rua do Faubourg Saint-Honoré, nº 118, no 8º bairro de Paris. A causa dessa aglomeração era a entrega do Prémio Orisha para a arte contemporânea africana. O acontecimento tinha apanhado de surpresa inúmeros actores da cena cultural. Alguns chegaram mesmo a pensar se teriam passado ao lado de edições precedentes, apesar de se tratar da primeira edição. No âmbito do evento dessa noite, nunca sequer foi levantada a questão relacionada com o velho debate sobre a existência ou não de uma arte contemporânea africana. O postulado de partida era claramente a existência dessa "categoria".
A entrega dos prémios anunciava igualmente o lançamento de um leilão que deveria ter lugar a 7 de Outubro nas instalações da Piasa. Colocada sob a curadoria de d'André Magnin, a exposição de vendas compreendia uma centena de obras assinadas por cerca de cinquenta artistas provenientes do continente. Uma bela ocasião para se conseguir uma ideia desta produção.

As razões do prémio

A iniciativa do Prémio Orisha para a arte contemporânea coube a Nathalie Miltat, conhecida por ser a directora do espaço de exposição Appartement, que "convida um curador, pelo espaço de um ano, a realizar uma série de exposições"(1) e a Timothée Chaillou, crítico de arte, curador da exposição, director do departamento de arte contemporânea da Piasa e curador convidado do Appartement. Quando lhes perguntamos quais as razões do lançamento deste prémio, respondem: "Esta ideia surge no seguimento de uma revolta que se revelou positiva. Constatámos que existem cada vez mais prémios de arte contemporânea mas nenhum consagrado à arte contemporânea africana. A vocação deste prémio é criar visibilidade para a arte contemporânea subsaariana instituindo um encontro anual".
O processo de selecção é feito em duas etapas. Numa primeira fase, é constituído um comité de seis representantes do mundo das artes e cada um deles convida um artista. "Constituímos um comité de selecção composto simultaneamente por pessoas ligadas à arte africana contemporânea e por outras que poderiam trazer-nos um olhar novo", esclarecem os organizadores.
Seguidamente, um júri autónomo, que inclui pessoas "institucionais" e do mercado de arte designam o laureado. Nesta primeira edição, os membros do júri eram: Touria El-Gloui (Fundadora de 1 : 54, a feira de arte contemporânea africana de Londres), Jean-Hubert Martin (curador da exposição) e Marc-Olivier Wahler (director e co-fundador da Chalet Society).
Quanto ao comité de selecção, era composto por Hervé Mikaeloff (director criativo da Officiel Art), Elise Atangana (co-curadora de Dak'Art 2014), Marie-Cécile Zinsou (Fundadora da Fundação Zinsou), Abdelkader Damani (co-curador de Dak'Art 2014), Marie-Ann Yemsi (curadora da exposição) e Barthélémy Toguo (artista e fundador de Bandjoun Station).
Cada um deles tinha convidado, respectivamente, os seguintes artistas : Dineo Seshee Bopape (nascida em 1981 em Polokwane, África do Sul), Gopal Dagnogo (nascido em 1973 em Abidjan, Côte d'Ivoire), Kifouli Dossou (nascido em 1978 em Cové, República do Benin) Ori Huchi Kozia (nascido em 1987, Congo), Mame-Diarra Niang (nascida em 1982 em Lyon, França), Boubacar Toure Mandemory (nascido em 1956 em Dacar, Senegal).
No decurso desse evento de 2 de Outubro, após o discurso de Nathalie Miltat
e dos padrinhos da noite, Lilian Thuram – antigo jogador de futebol internacional francês e presidente da Fundação Educação contra o racismo – e o pintor Chéri Samba, o prémio foi atribuído ao escultor beninense Kifouli Dossou, convidado por Marie-Cecile Zinsou. Através de um comunicado de imprensa, o júri saudava assim a sua "arte de aliar representações Guélédé aos elementos da cultura visual contemporânea". Especificava igualmente que: "As cores pop da sua obra reanimam o património cultural beninense e interpelam o olhar num impulso de alegria. O artista aborda assim de maneira subtil os temas universais e propõe uma aproximação jubilatória da escultura".
Por outras palavras, Kifouli Dossou faz a ponte entre uma tradição da qual ele é herdeiro e uma certa modernidade. O artista, proveniente de uma família de escultores, refere-se às máscaras Guélédé de tradições Yoruba e Nâgo presentes no Benim, que ele recria. As suas esculturas de madeira inspiram-se "tanto nos motivos ancestrais como na vida quotidiana".
Dada a ausência do artista neste evento, foi Marie-Cécile Zinsou que recebeu o prémio no valor de 10 000 euros. Este deverá servir para produzir obras destinadas a duas exposições pessoais, uma em França e outra em África. Assim que o nome do laureado se tornou público, começaram a espalhar-se rumores. Os artistas participantes e os outros membros do comité de selecção não estavam, manifestamente, satisfeitos com o desenrolar dos acontecimentos.

Uma polémica inevitável

Rapidamente se ficou a saber que foi redigido um texto comum pelos membros do comité de selecção, dirigido aos organizadores. O seu conteúdo, parcialmente revelado na imprensa, diz o seguinte: "Era da vossa responsabilidade garantir a credibilidade desta distinção evitando qualquer risco de conflitos de interesses. Uma suspeita de favoritismo [...] ensombra, infelizmente [a sua] credibilidade e certamente compreendem que tal facto nos possa afectar ".(2)
O facto de o financeiro franco-beninense Lionel Zinsou ser accionista da leiloeira Piasa, da fundação Zinsou ser parceira do evento e finalmente, do artista Kifouli Dossou, vencedor do prémio, ser o convidado de Marie-Cécile Zinsou, só veio agravar a polémica.
Quando perguntamos a Timothée Chaillou e Nathalie Miltat porque razão organizaram a noite de entrega de prémios nas instalações da Piasa, eles argumentam: "Há poucas vendas de arte contemporânea africana. Como a Piasa tinha decidido colocar a arte contemporânea africana nas suas primeiras vendas da rentrée, pensámos que era uma boa oportunidade para conjugar as nossas acções no sentido de tornar mais pertinente cada uma das démarches ". Em relação à parceria com a fundação Zinsou, eles acrescentam: "Convém, à partida, notar, que infelizmente existem ainda hoje muito poucas instituições em África. Pensámos na Fundação Zinsou pela sua capacidade de acolhimento e pela sua aura, que poderia ser claramente benéfica para o laureado. E, mesmo tendo em conta que a Fundação aceitou a nossa proposta, continuamos a esforçar-nos para ajudar o laureado, Kifouli Dossou, a produzir e expor no continente africano e para além deste. Trata-se de acompanhá-lo e encontrar as melhores estruturas no sentido de contribuir para aumentar a sua visibilidade e ajudá-lo a continuar a manter viva a sua criação plástica".
A resposta dos organizadores a respeito da polémica engendrada pela nomeação de Kifouli Dossou é inequívoca: "O laureado foi designado por um júri com base em critérios estéticos e nós apenas podemos inclinar-nos diante da sua escolha, que é imparcial". Sabendo nós até que ponto os artistas desejam que as suas produções se tornem visíveis, só podemos lamentar o desenrolar dos acontecimentos. Esperemos no entanto que esta iniciativa, por mais imperfeita que seja, encontre rapidamente o lugar que lhe cabe e que as próximas edições não facilitem eventuais polémicas.
Mais ainda porque, a acreditar na palavra dos organizadores: "Nós desejamos criar um encontro anual que homenageie os artistas africanos, e esperamos que, a longo prazo, a arte contemporânea africana reconquiste a visibilidade que merece. Vamos ajudar o laureado nas suas diligências para encontrar uma galeria e apoiá-lo nos seus projectos de edição de catálogo ou de livro de artista".

Dagara Dakin

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