Que não se esmaguem com palavras as entrelinhas

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Dizem por aí que as conversas com alguns escritores são muito aborrecidas.

Que não se esmaguem  com palavras as entrelinhas
Presidente da UCLA, Marco Guimarães (ao centro) e Manuel Rui à conversa

Isto porque, mesmo que essas conversas revelem alguma coisa, essas revelações estarão presas à linha do tempo, e esses escritores estão acostumados a trabalhar através dessa linha.
Quando falo que as conversas estão presas a uma linha do tempo, quero dizer que, quando o escritor se vê na condição de utilizar a palavra falada, ele não pode voltar atrás para corrigir os eventuais erros que tenha cometido. Em outras palavras: não pode dar o dito pelo desdito.
Mas, esse escritor no exercício de seu ofício poderá, caso não goste do que escreveu, rever o seu texto, buscar uma palavra mais poética, ou procurar uma sentença que exprima melhor o seu pensamento.
Poderá, até mesmo, "evitar que as palavras esmaguem as entrelinhas", porque, se assim o fizer, há a possibilidade de que reveja a situação, considerando a visão da poeta e escritora, naturalizada brasileira, Clarice Lispector, autora da expressão que dá título a essa crónica.
Há, entretanto, autores que são verdadeiros senhores da palavra falada e que exercem, com esplendor, sua oratória; são quase como os tradicionais griôs africanos diante de um público.
Lamentavelmente, me incluo entre os tantos que receiam que a boca expulse palavras que não exprimam exactamente o que a cabeça pensa no momento. Estou restrito, como um número significativo de escritores, a ser um especulador solitário, arredio a grandes plateias, que garimpa, com muito suor na testa, as palavras que darão sentido às minhas expectativas imaginativas, e só.
Habituado a ir e voltar no tempo com o meu texto e condicionado por este poder, não me sinto à vontade quando me exponho, diante de um público, a situações em que sou obrigado a substituir a palavra escrita pela palavra falada; sobretudo, quando tenho que falar sobre literatura. Influenciado, contudo, por minha mulher, abri uma excepção e aceitei o convite que os organizadores do V Encontro de Escritores de Língua Portuguesa me fizeram, para que desse uma palestra, em Luanda, entre os dias 21 e 25 de Janeiro de 2015. Lá estará, pelo que me foi comunicado, mais um escritor brasileiro, alguns escritores portugueses e muitos escritores africanos; estes, como sabemos, são os verdadeiros senhores não só da oralidade, mas também da literatura, uma vez que vêm se destacando e ganhando cada vez mais projecção e leitores nas últimas décadas. Tudo isso aumentará, naturalmente, a minha responsabilidade como um dos representantes do Brasil.
Tais circunstâncias em que me vejo agora me fazem pensar que nós, os escritores condicionados à linha do tempo, infelizmente, não estamos sós. Atento às entrevistas e declarações, na televisão, de algumas autoridades políticas, concluí que, embora estes não sejam escritores, comportaram-se exactamente como os que descrevi acima. Metem os pés pelas mãos quando exercem a sua oralidade. A diferença é que as autoridades, em uma visão mais ingénua, sequer têm consciência das asneiras que falaram. Já em um visão mais hipócrita...
Seja como for, continuarão por aí utilizando as palavras para massacrar as entrelinhas. Oxalá, as vozes de suas consciências pudessem um dia lhes dizer: "Cala-te boca".

Marco Guimarães*

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