Realismo mágico fascina Hollywood

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A alegoria "A Forma da Água", de Guillermo del Toro, foi o grande filme vencedor da 90.ª edição dos Oscars. É, no fundo, o sucesso do realismo mágico que o cineasta mexicano revela da sua América Latina, ou simplesmente da sua Guadalajara povoada de fantasmas.

Guillermo del Toro é de uma terra de fantasmas. O realizador mexicano, que fascinou Hollywood com a fábula sobre uma criatura de outro mundo em "A forma da água", revela nos seus trabalho o universo fantástico do seu país desde que se estreou nas longas-metragens em 1993.
Com o Óscar de melhor direcção, chega-se ao terceiro prémio da categoria concedido a um cineasta mexicano na história. "Eu sou um imigrante", disse ele, no discurso de agradecimento. "Acho que a melhor coisa que a arte faz e a nossa indústria também faz é apagar essa linha imaginária que nos divide", disse del Toro, numa referência à política de imigração da administração norte-americana, de marcação de linhas de fronteira, em particular em relação ao México.
As produções de del Toro sempre têm um viés realista e histórico que se vê inundado por magia e fantasia. No caso de "A forma da água", Elisa, uma funcionária muda, trabalha num laboratório secreto em meio à Guerra Fria. Ela, então, conhece uma criatura aquática que é mantida prisioneira neste lugar, afim de ser potencialmente usada como arma. Porém, Elisa começa a se afeiçoar pela criatura, o que dá ao filme o seu conflito principal.
O cineasta nasceu em Guadalajara em 1964 e tem revelado em entrevistas que todos na sua família já viram um fantasma ou um disco voador. A sua biografia e as suas raízes também influenciaram a sua clara preferência por seres retirados de sonhos e pesadelos humanos. Portanto, é apenas um mexicano com tendência para efabulação e mundos fantásticos que aproximam o mágico do possível.
Em pequeno, Guillermo del Toro decorava a casa familiar, em Guadalajara, com objectos macabros, apesar de ter sido educado pela avó, católica fervorosa.
E hoje, adulto e reconhecido, o cineasta colocou o seu cinema fantástico, coisa menor em Hollywood, numa fasquia elevada e a audiência não pára de se expandir. É, aliás, uma subversão do sistema ao forçar 13 nomeações ao seu filme-fábula. O filme do cineasta mexicano partiu como favorito aos prémios da academia de Hollywood e venceu em quatro, incluindo as categorias mais importantes de melhor filme e melhor realização.
Mas todo o encanto e fascínio segreda-se na história, muito para lá dos fantasma. "Contar história é uma forma de lidar com a auto-aversão. A escolha está no equilíbrio entre viver a vida e falar sobre ela. Estou a falar da vida do contador de histórias. Quando era miúdo, muito novo, contava mais histórias do que as que vivia", disse Guillermo del Toro, em entrevista à "The Interview People".
Se é preciso viver para contar histórias, às vezes é preciso contar histórias para viver; e, no México, um país que revela uma atracção pela desordem e pelos seus fantasmas, os escritores conhecem melhor esse fascínio, não fossem muitos deles mestres do realismo mágico. É o caso, por exemplo, de Juan Rulfo, que abriu o caminho para o realismo mágico com o belíssimo "Pedro Páramo", lançado em 1955, uma década antes do "boom" que consagrou Gabriel García Márquez, entre outros.
Se Juan Rulfo publicou o romance precursor do realismo mágico, muito antes, o poeta e ensaísta Octavio Paz publicou, em 1950, "O labirinto da solidão", conjunto de ensaios antropológicos sobre a identidade mexicana e para a completar, Carlos Fuentes publica, em 1958, "La región más transparente", que faz do México uma personagem de corpo inteiro, uma espécie de história cronológica de um país que vive plenamente e conta histórias para sobreviver, como é revelador o universo do cinema fantástico de Guillerme del Toro.

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