Recordar para o futuro

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(A propósito do livro “O Curandeiro do Monte Pirro de Samuel Gonçalves)

Recordar para o futuro
O curandeiro do Monte Piorro

O romance “O Curandeiro do Monte Piorro” escrito pelo médico Samuel Gonçalves apresenta um conjunto de valores morais, religiosos e culturais que considero relevantes para a preservação dos bons costumes, particularmente, ao nível das comunidades residentes na ilha do Fogo, como, de forma mais genérica, no âmbito da identidade cultural cabo-verdiana, inserida no contexto do continente africano.
Sublinho, pelas seguintes três razões, o sentido de pertença cabo-verdiana: primeiro, porque a ilha do Fogo é parte integrante do Cabo Verde; segundo, porque os costumes, valores e hábitos do Fogo, quando bem analisados são, do ponto de vista identitário, cabo-verdianos, já que, em outras ilhas deste arquipelágico país, encontramos as mesmas práticas; em terceiro lugar, porque “O Curandeiro do Monte Piorro” descreve os bons costumes, valores e hábitos vivenciados na ilha da Brava, evidenciando tanto o que têm de peculiar como o que compartilha com o Fogo e, complementarmente, com as outras ilhas, no que respeita, por exemplo, ao conceito e fenómeno da “morabeza”.

Os nossos hábitos, costumes e valores
A palavra “curandeiro”, que surge no título do livro de Samuel Gonçalves, leva-nos a estabelecer a distinção entre maus hábitos e costumes e bons hábitos, costumes e valores.
Os primeiros, que aparentam ter apenas valor histórico, independentemente do facto de fazerem parte da nossa identidade cultural e psicológica, deverão ser combatidos e esquecidos para sempre, pelas razões que apresentaremos mais abaixo. Por outras palavras, nós, ao termos consciência dos nossos maus hábitos e costumes, devemos esquecê-los. Enquanto os nossos bons hábitos, costumes e valores, a serem transmitidos às gerações mais jovens, como ponte de ligação entre as gerações mais jovens e as mais idosas, deveremos recordá-los. Assim será garantida a continuidade dos aspectos positivos da nossa história, dos quais a morabeza é parte integrante. Os nossos maus hábitos e costumes, pseudo-valores e reminiscências detestáveis
Os nossos maus hábitos e costumes incluem um componente religioso-cultural que é uma mistura de religião popular com superstições diferentes, portanto um sincretismo de crenças religiosas com crenças mágicas e superstições como: a feitiçaria, o exorcismo, o espiritismo, o fazer “malfeto”, etc. Assim, o curandeiro de Monte Piorro (Filipe), é o principal protagonista do livro, um grande “djabacoso”, que, na opinião do povo, curava as pessoas que sofressem de várias doenças, orando a S. Cipriano (“Santo Supriano”, o santo preto, no dizer do povo), conjuntamente com ervas medicinais da ilha do Fogo (como babosa, folha do eucalipto e “lorna”).
Os nossos pais ainda se lembram da trágica história do colonialismo, impregnada de acções violentas contra o povo, da fome desnecessária que, por exemplo, durante a II Guerra Mundial, devastou grande parte da população de Cabo Verde. Lembram-se também da miséria e da fome causadas pelo abandono do povo pelo regime colonial-fascista de Salazar, que obrigou muitos cabo-verdianos a emigrar para Dakar, São Tomé e Príncipe e Angola, onde a maioria deles viveram como escravos, longe dos seus familiares, sem dia e esperança de os tornar a ver. Tudo isto, e mais calamidades e intempéries que sofremos no tempo colonial, não devem ser esquecidos, mas recordados como motivação que nos faz lutar, para que, semelhantes adversidades, jamais venham a acontecer aos nossos filhos e à geração vindoura.
Além disso, devemos esquecer certos costumes e as certas crenças narradas no livro do Dr. Samuel Gonçalves, por constituíram a parte obscura e lamentável da nossa cultura, expressão de opressão profundamente interligada com a ignorância e a superstição. Assim podemos esquecer: as crenças da feitiçaria, malfeito, maldição ou praga, “má bóca/boca sujo”, e má-língua e mau-olhado, ou que existem animais de natureza maligna ou, então, amaldiçoados pela natureza, como a mula, o corvo e o “manelôbo”.
É também importante recordarmos como as pessoas mais “espertas” enganavam e exploravam a ignorância e a necessidade dos mais fracos, pois “em terra de cego quem tem olho é rei”. Por exemplo, o curandeiro do Monte Piorro, Filipe, fez de certas ervas e das suas orações ao São “Supriano” e às Forças Astrais Superiores a panaceia (remédio) para todas as doenças, principalmente as que eram vistas com sendo provocadas pelo diabo, a feitiçaria, a praga, o mau-olhado, etc. Por isso, a casa do Filipe, tornou-se, por assim dizer, num hospital de pobres, os quais o consideravam como tendo melhores conhecimentos do que os médicos e enfermeiros di Bila (S. Filipe do Ilha do Fogo), porque, ao contrário destes, ele curava todas as doenças, dizia o povo.
Estes mitos e estas crenças populares devem ser lembrados como maus exemplos de costumes que não devem ser transmitidos à nova geração. O seu valor cultural, religioso e moral deve ser esquecido para sempre, porque “outros valores mais altos se levantam” (Camões).

Os nossos bons hábitos, costumes e valores, que devem ser recordados
Outros aspectos narrados pelo autor, inerentes ao nosso modus vivendi e que, pelo seu valor perdurável, não devem ser esquecidos:
- A boa educação que nos foi dada pelos nossos pais, apesar da limitação dos seus conhecimentos escolares;
- A educação moral e religiosa que recebemos em casa, na escola e na Igreja; ou seja, uma educação integral a inculcar na nossa alma e consciência moral, que nos conduza ao dever de amar e fazer o bem ao nosso próximo, respeitar as autoridades e as pessoas mais velhas, dizer a verdade, viver honestamente, repudiar o roubo, a “malandrice”, a vadiagem e a bebedeira. Que nos leve a trabalhar arduamente para não sermos uma sobrecarga para os outros, cumprir as promessas feitas com alguém sem necessidade de testemunhas ou contratos em papel selado, mas segundo o dictum: “a minha palavra de honra basta”. Hoje, esse sentido de honestidade e honradez perdeu completamente o seu significado, porquanto todos querem enganar a todos, procurando viver à custa de outros e desprezando o trabalho honesto, principalmente, o trabalho na agricultura sequeira.
Santo Agostinho escreveu: «Encontrei muitos com desejos de enganar outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado».
Também a expressão “pouca vergonha” perdeu o seu valor psicológico e moral, e portanto deixou de ser um valor positivo na boa educação e prevenção de actos e omissões condenáveis. A propósito do papel da Igreja na educação, o autor descreve como o curandeiro do Monte Piorro conseguiu matricular-se na escola primária de um padre que, nos Mosteiros, além de desempenhar o seu papel de sacerdote, foi também professor e “enfermeiro” que curava doentes, quer usando remédios que importava, quer orando a São Cipriano. Aprendeu também com esse padre a ter compaixão do povo e, por isso, como curandeiro não cobrava os doentes que lhe pediam ajuda.
Outros bons costumes que devem ser lembrados e ensinados aos nossos jovens são, para além da nossa morabeza, também a amizade entre os pais, filhos, netos e os outros parentes, até à terceira e quarta geração (o que parece possuir algo de Bíblico em si). O nosso costume de “djunta mon”, o costume de “dar pratos” aos vizinhos, familiares e amigos, quando se “matava” um porco; a ajuda mútua dos compadres e amigos, mesmo estando no estrangeiro, etc. Todos estes bons costumes estão directa ou indirectamente narrados pelo autor no seu livro “O curandeiro do Monte Piorro”.
A propósito, o curandeiro Filipe, quando não conseguia curar uma doença, recorria ao “djunta mon”. Assim podia pedir a ajuda do curandeiro Mané Preto, que também sabia invocar espíritos para curar ou amaldiçoar as pessoas.
Recomendo pois a leitura do livro a todos os cabo-verdianos, principalmente aos do Fogo e da Brava, visto que é a eles que o livro faz mais referências. Recomendo a todos que conheçam o nosso passado e se preocupem com o futuro da cultura e identidade cabo-verdianas. Recomendo-o igualmente aos africanos de língua oficial portuguesa, já que o autor, Dr. Samuel Gonçalves, é um bom narrador, conhecedor do crioulo do Fogo e dos nossos costumes e domina bem a língua portuguesa.
Com a sua forte imaginação criadora e capacidade pedagógico-didáctica, faz com que, ao iniciarmos a leitura, nos possamos sentir motivados para não a interrompermos até chegarmos ao desfecho dos muitos e significativos episódios, relevantes para a compreensão do livro no seu todo. Está, portanto, o leitor convidado a confirmar ou não este meu ponto de vista. “Dixi”!

António Barbosa da Silva|*

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