REVES DE POUSSIÈRE1 Um filme de Laurent Salgues

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Um filme em tons de alabastro e areia descreve a dura realidade dos garimpeiros numa mina de ouro de Essakane, Burkina Faso.

REVES DE POUSSIÈRE1 Um filme de Laurent Salgues
REVES DE POUSSIÈRE1 Um filme de Laurent Salgues

 O sol, a terra, as casas, partilham nuances de uma mesma cor: confundem-se e confundem-nos, vagueando entre o ouro, o beige e o castanho seco; escondem-se instantaneamente atrás de uma cortina de água e acabam por escapar-se como o vento.
Todo o filme nos cobre com essa poeira ocre, dourada, que invade os sonhos dos emigrantes, de todos os emigrantes, cuja obsessão e intenção primeira é enriquecer e regressar às origens, garantindo o sustento dos que ficaram para trás. Os protagonistas, Moctar, camponês nigerino convertido em mineiro (Makéna Diop) e a jovem viúva Coumba (Fatou Tall-Salgues) carregam no olhar, cada um a seu modo, um fardo que se desvenda lentamente no decurso da trama. Moctar, digno e profundamente solitário, esconde um drama que a sua natureza opaca não deixa adivinhar – e o actor assume a textura da sua personagem através de uma interpretação contida e dramática, como um vulcão que se crê extinto. Na verdade o camponês arrasta consigo a tragédia de uma filha a quem não pôde acudir, vítima de uma pobreza visceral que não lhe deixou margem para cumprir o seu papel de pai, enquanto protector. Fatou Tall-Salgues mostra-se à altura das exigências da viúva Coumba e mãe da pequena Mariama: transpira solenidade e uma dor discreta, consolidada, através de um olhar ausente; pretende enviar Mariama para estudar em Paris, poupando-a a uma vida como a sua, uma vez que já não alimenta sonhos para si própria, pois, como declara sem remorsos: «Há muito tempo que estou aqui». Mariama acaba por significar muito para o camponês Moctar, mitigando o seu sofrimento, e este oferece à sua mãe uma pepita de ouro encontrada durante o garimpo, renunciando à sua própria liberdade.
Mas Paris é longe, em todos os sentidos, e Moctar afirma-o, distante, porventura incrédulo nas promessas do El Dorado, deixando escapar numa simples frase: «C’est loin Paris».
Não há dúvidas de que Paris está muito distante das dunas e das minas, e da vida sem esperança daqueles garimpeiros cujo valor se afere unicamente pelo rendimento do seu labor diário. A condição de emigrante está aqui exposta sem artifícios numa visão bucólica de Salgues, que nos mostra a emigração entre países periféricos, o que constitui de facto uma grande parte dos movimentos migratórios; o sentido da exclusão (Moctar será sempre «o estrangeiro», pois um homem é sobretudo o que parece aos olhos dos outros), a pressão do regresso, os sonhos que alimentam e que constituem a razão da sobrevivência, mais do que o magro salário arrancado em condições sub-humanas através do trabalho nas minas é um claríssimo exemplo dessa condição.
As minas, com os seus incontáveis perigos dos quais poucos conseguem escapar, resultam frequentemente numa pena capital, sentença claustrofóbica para muitos. Os homens mal se distinguem da despojada paisagem e estão aqui por sua conta, sem rede de salvação mais forte que as suas próprias fantasias de evasão e riqueza. Quando descem à mina, as lanternas sobre as orelhas mais parecem enormes olhos de feras assustadas, faróis de desespero; quando regressam à superfície, os seus rostos cobertos de poeira são o retrato fantasmático e distorcido de si mesmos.
O veterano e experiente Rasmané Ouedraogo dá vida à personagem Thiam, o operário que se torna capataz e adopta num piscar de olhos a visão pragmática adequada, recalcando as suas vivências passadas e quaisquer resquícios de humanidade e compaixão pelos seus ex-colegas, convertendo as suas frustrações em arrogância e autoritarismo. «Desde que se toca no metal precioso, não se pode regressar. É uma verdadeira prisão» - é uma das suas reflexões que resume a ligação destes homens a uma não-vida que os suga para o abismo.
Nesta narrativa plástica de Laurent Salgues, o realizador e os actores implicam-se com generosidade, humildade e extrema discrição, sem pressa, deixando-se atravessar pelos próprios ritmos de Essakane e a sua poeira doirada, que os penetra até às entranhas.
Finalmente, o filme vale também e sobretudo pela intenção, pela fotografia, pela cor e pela luz, pela beleza crua das imagens, oníricas, e pela cadência, lenta, envolvente, que nos impõe uma reflexão sobre o sentido dos sonhos e o lugar de cada um no universo que nos cabe ocupar.

Alguns prémios:

Prémio da melhor longa metragem de ficção (El Griot de Viento), Tarifa 2007
Prémio especial do Júri, Prémio SIGNIS, menção especial, Amiens 2006
Prémio Ciné & FX, Prémio Kodak da melhor fotografia para uma primeira obra de ficção, Namur 2006,

Tradução do título do filme:
Sonhos de Poeira1

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