Roberto Chihorro: O dom prodigioso da infância

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Olhando para a obra de ilustração infanto-juvenil de Roberto Chichorro, o que primeiro se nos dá a ver é uma genuína alegria de processo de criação, e de obra criada.

Roberto Chihorro: O dom prodigioso da infância

Da sua paleta de cores - essas cores que são Vida em seu estado mais puro, de canto e de celebração -, ressalta uma liberdade e um despudor de entusiasmo e de quase vertigem, como se toda a cosmogonia ali patente entrasse em transe mediúnico, e não mais parasse de nos fulminar com a sua harmonia de descoberta, revelação e dádiva.

Um apuradíssimo e rigoroso sentido da matéria de que é feita a infância - esse dom maravilhoso da felicidade preservada e contagiante, que faz libertar pássaros, jacarés e camaleões das encordoadas violas de lata tocadas por cachorros fadistas e sentimentais mascarados de jiboias, e acompanhados ao batuque por macacos sambistas, e pelo reco-reco das asas dos grilos e das cigarras, numa kizomba danada - está indelével em toda a sua obra de ilustração.

E, a par daquela apaixonada inventividade criadora, que só a leveza de uma infância plena de mundos e de afetos é capaz de sedimentar num ser humano, eis as raízes e o húmus de onde brota toda a força encantatória destas aguarelas, a soltarem-se constantemente das garras desatentas das molduras, para se entregarem, sedutoras, irresistíveis, aos cinco (ou seis) sentidos de quem as "escuta" no seu mais íntimo resplendor.

A sageza do talento deste Pintor que nunca perdeu a atenção revivificadora da infância - sageza tão carregada daquela ternura que antecede a maternidade e a prolonga por toda a sua obra de permanência no reino maravilhoso, fabuloso e mágico das lendas, dos mitos fundadores, das canções de embalar, dos provérbios, das adivinhas e dos adágios que restituem cosmogonicamente a infância à Infância -, torna-nos os olhos mais altos e mais límpidos. Os olhos da Alma, quero eu dizer.

Devo à generosidade do José Eduardo Agualusa a minha primeira parceria com Roberto Chichorro. Foi em 2006, com o livro de poemas infanto-juvenis "Debaixo do arco-íris não passa ninguém".

Sem nada me dizer, José Eduardo Agualusa levou ele mesmo o original dos meus poemas (juntamente com "O homem que não podia olhar para trás", de Nelson Saúte) às mãos de Roberto Chichorro, para que deles inventasse o que neles faltava: um encantamento enfeitiçante de cores e de formas, de bichos e de gente, que não parasse nunca de dançar na imaginação de quem alguma vez por esse prodigioso dom da infância fosse tocado.

"Debaixo do arco-íris não passa ninguém" acabou por vir a ser um dos volumes inaugurais da coleção Mama África ("O ilho do vento" de José Eduardo Agualusa, ilustrado por António Ole; "O beijo da palavrinha" de Mia Couto, ilustrado por Malangatana; e "O homem que não podia olhar para trás" de Nelson Saúte, também ilustrado por Roberto Chichorro, eram os restantes volumes da referida coleção, a que mais tarde se juntou "O leão e o coelho saltitão" de Ondjaki, ilustrado por Rachel Caiano), coleção essa vinda a lume pela então recém-criada editora Língua Geral, do Rio de Janeiro.

Algum tempo e obra feita depois, um telefonema de Luís Carlos Patraquim traz-me a notícia de "umas ilustrações prontíssimas", da autoria de Roberto Chichorro, para uns poemas meus. E foi logo dizendo, em tom de cumprimento e saudação codificados:
- Tu não mereces esta maravilha, meu sacana!
- Mas que poemas?
- quis eu saber, qual amante traído, a sentir um autêntico parque eólico de chifres a ventoinhar na cabeça.
- Os poemas infantis que deste ao Agualusa, para a editora brasileira...

E passou o telefone celular, para combinarmos encontro.

Por sugestão e convite do próprio Chichorro, implementou-se (como muito bem se diz em língua portuguesa de Moçambique) um almoço "a três" em sua casa, para me mostrar os dez trabalhos nados e criados para esse lugar de poemas, onde, "Debaixo do arco-íris não passa ninguém".

Foi uma festa. E tudo nessa tarde saltou à corda "no arco do arco-íris".

Desde então, cumprimos mais duas parcerias: a peça de teatro "A caçada real" e o livro de poemas "Brincando, brincando, não tem macaco troglodita".

É para mim um privilégio, no sentido mais nobre do termo, poder assinar alguns livros de parceria com Roberto Chichorro. Porque é a dinâmica musical das suas linhas e o movimento das cores (sobre o qual paira a mão invisível, porém torrencial de Vida em estado primevo de invenção e fruição, do Pintor) quem ilumina e dá sentido às palavras que um dia me calhou escrever para este destino comum de - e, parafraseando Portinari - ver se conseguimos fazer as nossas terras.

Com mais festa, e Vida.

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