Rota pernambucana da escravatura: A Kianda foi levada para o Brasil

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“Made in Africa” é, metaforicamente, um dos episódios antropológicos que se pode reter da leitura do excelente livro, cujo título, infelizmente, embora eivado de marketing contemporâneo, não restitui a profundidade da substância abordada, a ininterrupta transferência dos fins do século XVI ate à segunda metade do século XIX, do património ontológico angolano ao vasto território da América do sul.

Esta admirável síntese acaba de ser, por via da Editora Global, republicada, a justo título, pela terceira vez em São Paulo. Alongando-se sobre 183 páginas, a obra articula-se numa trintena de textos brilhantemente escritos sobre a translação das sereias de Angola para a contra-costa americana, das expressões civilizacionais kongo, da extraordinária epopeia da Rainha Jinga, do imenso sucesso racial do lundu, a insinuante expressão cafune e a confortável maxila.

O autor, que trabalhou nos fins dos anos 50 com o erudito angolano Óscar Ribas, estudioso que foi sempre muito respeitado no Brasil, aborda, em seguida, as incessantes cantigas que fazem relembrar Loanda, a cidade mítica das origens; o popular hábito alimentar "farofa", do kimbundu "kuvala ofa"; a refrescante gongoenha, cuja etimologia no falar de Heli Chatelain é "ngongo menha".

O escritor do Rio Grande do Norte atesta a absoluta crença dos angolenses no Zumbi, a grande deferência a Cabinda Velha e a importância acordada pelos mundongos desterrados ao precioso jimbo ou gimbo. Enfim, aborda, em seguida, o quadro semântico, múltiplo, do termo "milonga".

O investigador nordestino, após ter ligado as water genius da ilha de Muazanga com as de Bahia, Rio de Janeiro e Recife, aborda a inalterabilidade nas tradições afro-brasileiras do coroamento do Rei do Congo e ilustra este facto antropo-político com um maracatu pernambucano, assim como uma cerimónia relativamente ocorrida em Recife, já em 1674.

Segundo Luís Camara Cascudo, o Muene Ekongo é o único Soberano africano cuja figura foi reassumida nas Américas e Caraíbas. Insiste na impressionante extensão geográfica das congadas e na densidade dos seus conteúdos (cenas, sketches, bailados, cantos uníssonos, embaixadas, figurações de batalhas, representações coreográficas, etc.), apoiados, como na festa do Natal de 1900, pelos batuques zambes, evoca naturalmente o jongo e a xiba.

Convulsão inebriante

Analisa o libidinoso lundu ou londum que o capuchinho italiano Bernardo Maria de Cannecatim considerou, no início do seculo XIX, como uma das mais condenáveis exibições coreográficas de Angola.

Notar-se-á que esta foi introduzida em Portugal, nas primeiras décadas do século XVI. É tão aturadamente bailado que o Rei D. Manuel a proibiu. Pena perdida, pois continuou a ser exibida em Lisboa, entretanto com a denominação de meigo lundum gostoso.

O açucarista e esclavagista António de Morais Silva qualificou em Jaboatão, perto de Recife, esta manifestação como indecente; e Charles Ribeyrolles (1858-1860) prognosticou: "é uma dança louca".

Uma das apreciações moderadas sobre a convulsão inebriante bantu, veio, em 1842, do Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, residente em Recife, que admirava, depois do batismo dos nbundos, o belo "landum chorado".

Sílvio Romero, isto em 1888, atestou que o impacto social desta furiosa ostentação dos seios, das ancas e dos quadris foi tão significativo que estava a ser ensinada nas escolas como o lundu do marruá ou lundu do mon roy,

Este excecional desenvolvimento do "quente lundu", dança chula do Brasil, foi confirmado em Paris pelo Barão de Sant'Ana Nery, em 1889, um ano depois de Sílvio Romero, numa obra prefaciada pelo Príncipe Roland Bonaparte, " le lundu, on le danse dans tout le Bresil. Il est d' origine noire".

Infelizmente, por consequência das contínuas e seculares campanhas da puritana evangelização, este baile abrasador desapareceu em Angola. Mas ainda está vivo no Brasil.

Sobreviveu na atual batucada, alteração do envelhecido batuque que, com o seu virulento veneno rítmico, dominou o Brasil.
Veio do Quadrilátero. Em 1937, na sua apreciação desta expressão corporal, o austero Alexandre da Silva Correia, na sua obra Historia de Angola, avisa, igualmente, "é uma dança obscena".

Com a sua adaptação ibérica, Luís da Câmara propôs uma análise da pluralidade significativa do termo milonga; milongueiro, milonguita.

Recorre, para uma das variantes significativas, à Barbosa Rodrigues que certificou em 1886-1887, no Estado da Amazonas, o milongo como, evidentemente, remédio, feitiço, talismã. Afirma que é um termo africano imiscuído na língua geral.

E conclui no facto do congo, do Pai congo, do Tio Angola e de Cabinda puro, que este todo fiote, como se diz em fala popular no nordeste, deve se ter cristalizado com os seus valores humanos na personalidade do povo brasileiro; processo de inculturação provado pelas centenas de brasileirismos vindos, nomeadamente, do Reyno de Maniconguo.

Outros valores foram preservados através da memória da Rainha Nzinga. Em 1944, o memorialista que publicou no Rio de Janeiro o estudo " A Poltrona da Rainha Jinga" certifica, na base do testemunho de Von Martius, em Junho de 1818, recolhido em Tijuco, Diamantina, Minas Gerais, que aí foi eleita uma Rainha Xinga com os mafucas.

Para ele, é a única monarca feminina que continua íntegra na memória dos afro-brasileiros; prova com a relevante e marcial evocação da Princesa de Gabazo nas congadas do nordeste do Brasil, da qual chegou à conclusão que "Jinga vive".

Nesta sua terra natal, o escritor evoca o bom funji, o roi-funge e o funje do almoço, através do livro Vocabulário Pernambucano de Pereira da Costa, de 1937, que em 1914 recolheu dados no Jornal de Recife.

Para que as relações dos dois emergentes não sejam somente mercantil, mas sim assente dialeticamente em valores humanos, "Made in Africa", obra resultante de uma pena talentosa e de uma leitura agradável, merece nos dias de hoje uma edição angolana.

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