SAMBA TRAORÉ: Um filme de Idrissa Ouedraogo

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Samba regressa à sua aldeia fazendo- se anunciar pela música, o que desperta a atenção dos habitantes, incluindo a bela Saratou e o seu filho Ali.

SAMBA TRAORÉ: Um filme de Idrissa Ouedraogo
SAMBA TRAORÉ: Um filme de Idrissa Ouedraogo

Este homem carrega consigo o fardo de um segredo, o que confere ao personagem uma textura dramática e uma aura de mistério: Salif, ao contrário, exala boa disposição e uma alegria permanente - e os dois homens renovam os fortes laços de amizade ancorados no passado.
Samba é agora um homem de posses, ao invés da maioria dos seus conterrâneos; inevitavelmente, a sua nova condição e atitude gera um clima de suspeição... Enamora-se de Saratou, viúva e mãe de uma criança com quem Samba cultiva uma cumplicidade tocante, partilhando histórias e assumindo o papel do pai que Ali não conheceu; ele é agora um homem pacífico e tenta abertamente cultivar esse seu lado mais humano e votado aos valores da família. A aproximação do casal é feita com poucas palavras e em meio a uma simplicidade arrasadora: Idrissa Ouedraogo, o realizador, mostra-nos com grande subtileza quantas palavras podem caber num simples sorriso, quantas intenções num gesto espontâneo, e como a linguagem gestual pode ser infinitamente expressiva. Existe uma sensualidade latente e discreta que o espectador não pode ignorar.
Samba e Saratou casam-se numa faustosa cerimónia, no entanto a esposa começa a inquietar-se ao testemunhar o sono turbulento do marido e os seus frequentes pesadelos, sobre os quais não diz uma única palavra. Diante da curiosidade geral, Salif opina que o trabalho nos bananais pode proporcionar muita riqueza, tentando desdramatizar e desviar a atenção de um assunto que o preocupa também. Ainda assim, a incredulidade geral mantém-se, pois quando um dos habitantes afirma que Samba pode ter enriquecido trabalhando na cidade, por tratar-se de um homem com estudos, logo alguém afirma, com cepticismo, que «os estudos não costumam conduzir à riqueza».
Ali, a criança, sente-se algo negligenciada e teme que a mãe se distancie de si diante do seu novo amor. As mulheres da aldeia tranquilizam-no, com pragmatismo e ternura, dizendo:
«A tua mãe é uma mulher. E uma mulher deve casar-se. E para além disso, Samba ama-te muito»
Um dia aparece na aldeia um homem de nome Ismael, um antigo caso de Saratou, que é expulso com desproporcionada violência por Samba. Esse comportamento não passa despercebido, nem ao ofendido nem às testemunhas, o que leva Salif a interferir chamando-o à razão.
Finalmente Saratou engravida e é conduzida à cidade numa carroça, rodeada pelo marido e pela melhor amiga, entre outros familiares. O parto anuncia-se complicado e a meio do caminho conseguem prosseguir viagem numa camioneta, no preciso momento em que o marido, sem qualquer explicação, se afasta do grupo, abandonando a mulher em sofrimento.
Após o nascimento da criança, Samba é abertamente hostilizado pelos camponeses por ter abandonado a esposa num momento de vulnerabilidade.
No entanto, este mostra-se disposto a recuperar a sua família e a sua mulher volta a acolhê-lo sem reservas. Samba é finalmente preso pelo crime que o perseguia – um assalto a uma bomba de gasolina que resultou no homicídio do seu cúmplice - e que justificava toda a sua fortuna, mas Saratou promete esperá-lo. A detenção efectiva surge após uma rápida perseguição através de um cenário rochoso; no entanto, a mais dolorosa perseguição terá sido a da sua própria consciência, convertendo-o num homem torturado.
Globalmente o trabalho dos actores é notável, na sua espontaneidade e contenção, e considero particularmente expressiva a representação do maliano Bakary Sangaré no papel de Samba e o à-vontade e orgulho natural da personagem Saratou, magnificamente defendida pela bela actriz guineense Mariam Kaba. Abdoulaye Komboudri, no papel de Salif, assegura com destreza os momentos cómicos do filme, sobretudo nos diálogos e interação com a sua mulher dominadora, que ele adora, e à qual se submete com humildade.
Esta é uma narrativa contada com simplicidade e coerência sobre a impossibilidade de anular o passado, esse conjunto de vestígios que não se apagam nunca e reaparecem por vezes com uma força insuspeitada: para além disso ninguém escapa às teias da sua própria memória e sobretudo dos remorsos. Sobre o amor incondicional, a tolerância e o perdão. Sobre o valor da amizade acima de todas as coisas, sobre a solidariedade feminina, a cumplicidade masculina, e o papel da comunidade nas sociedades rurais africanas; e finalmente sobre a importância da transmissão oral da cultura e o valor insubstituível da família. Um filme belo, filmado em meio à natureza, sem artifícios, acompanhado por uma banda sonora suave e consistente, que constitui também um claro momento de entretenimento.

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