“Sangoaru of Maldives (originally from Angola): A rota asiática da Escravatura"

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A presença de Sangoaru, nosso compatriota, na ilha das Maldivas é uma confirmação histórica que se pode extrair da leitura das atas da Primeira Conferência sobre "A Diáspora Africana na Ásia", realizada em Panaji, em Goa, uma compilação de comunicações publicada pelas edições Jana Jagrati Prakashna, em Bangalore, sob a coordenação editorial de Kiran Kamal Prasad, professor na Universidade desta cidade do sul da Índia e do veterano linguista belga-brasileiro, Jean ­ Pierre Angenot.

“Sangoaru of Maldives (originally from Angola): A rota asiática da Escravatura”

Estendendo-se por 775 páginas e publicada sob a tutela da Sociedade para a Investigação, Cultura, Educação e Desenvolvimento da Diáspora Africana na Ásia e financiada pela UNESCO, através o seu destacado projeto "A Rota do Escravo", esta obra articula-se em seis capítulos, cobrindo uma quarentena de contribuições, que fixam, entre outros aspetos ligados à substância da problemática definida, a instalação e evolução social, religiosa, económica, mas igualmente política dos melano-africanos nas ilhas do Oceano Índico, nas regiões adjacentes aos Mares e Golfos do Médio e Próximo Orientes e na Ásia, particularmente, na Índia.

Aborda-se, aí, portanto, as velhas relações humanas e comerciais entre as costas de África oriental e essas zonas, assim como o conjunto dos processos linguísticos e antropológicos que desencadeou esses contactos.

Nota-se, aí, a perpetuação de tradições africanas nos rituais de casamento, nos corpora orais, o artesanato, o posicionamento dos "Siddis" (negros) no sistema das castas e o tratamento particular das mulheres escravas, finalmente bem integradas nas sociedades recetoras, realidade que fragilizara a ordem esclavagista. Com efeito, elas procriarão, no Médio Oriente, os "mawalid", mestiços árabo-africanos.

As contribuições publicadas, inteiramente em inglês, de carácter essencialmente, monográfico, evocam casos de  figuras em Goa, Dubai, nas Ilhas Maurícias, no Irão, na Coreia, em Hong Kong e em vários Estados da imensa federação indiana.

Um dos anexos do livro permite apreciar a expansão dos Bantu, nem sempre cativos, além da costa "zanzabari".

Com efeito, constituíram, nos territórios ilhéus próximos, no Médio e Próximo Oriente e no vasto continente asiático, uma cinquentena de comunidades. Encontram-se, aí, nomeadamente, os Swahilis de Oman, os abid de Qatar, os afro-turcos, afro-palestinianos em Israel e nos territórios ocupados, os afro-iraquianos na região de Basra, os Habashis, na província de Kerman, no Irão, os Shidi-Makrani, no Paquistão, os Kaf ir no Sri Lanka, os Afro-Malaccan na Malásia, os Kunlun em Macao e Hwangchou e os afro-japoneses, em Nagasáki.

Encontram-se, igualmente, grupos de niger Belanda Hitam em Java, na Indonésia, afro-timorenses em Dali e Bhandis, Chaus, Namdari e Shamal, na vasta União Indiana.

RETENÇÕES BANTU

Reter-se-á, dentre os especialistas que contribuíram para as atas da Conferência de Goa, o metódico Ali Moussa-Iye, originário da Somália, a duplamente inesperada, feminista e afro­dubaiana, Aisha Bilkhair Khalifa, que foi, oportunamente, membro do Comité Cientifico da "Rota".

De notar, Abdulaziz Y. Loghi, professor de kiswahili na respeitável Universidade de Uppsala, na Suécia, que corajosamente abordou as retenções bantu no além Oceano Índico, na sua tentativa intitulada "Linguistic Evidence of Bantu. Origin of the Sidis of India".

Para este especialista este-africano, o léxico bantu atestado entre os locutores Sidis de Karnataka provém, provavelmente, dos descendentes da colónia portuguesa de Goa, que se refugiaram mais ao sul. Esses eram, provavelmente, segundo ele, originários de Angola e Moçambique.

Quanto aos Kafara de Diu e aos Saheli de Daman, Lodhi supõe que eles vieram, prospectivamente, da África do Sul e da costa tanzano-keniana.

Baseando-se no glossário estabelecido por Richard Burton, em 1851, do falar sidi, que contém uma centena de topónimos, o linguista de Uppsala liga esses elementos com os idiomas bantu da Tanzânia, de Moçambique e do Malawi, tais como o chamba, o zigua, o ngindo, o yao, o makua, o nyanja e o chewa.

Reencontram-se, aí, termos bantu tais como:

 - langa, designando os respeitados cantores ­ batedores de tambores - moto, o fogo - komongo, significando uma montanha ou um jazigo onde se extrai o ferro ou o próprio mineral - maji, a gau - vura, a chuva - macho, os olhos - viyakazi; a irmã - mana, uma criança - wapi, onde? - koenda, avançar - kulya, comer

O inevitável membranófono bantu, o poderoso ngoma, foi conservado pelos "Danados da Índia" nos seus desencadeamentos coreográficos, chamados sidi goma.

Por outro lado, a influência bantu sobre este dialeto crioulizado, chamado konkani, está, mais ou menos, confirmada no plano da persistência fonética.

Enfim, o último estudo, pondo em relevo as sobrevivências bantu, sobretudo na Ásia do sudoeste, e precisamente, nas ilhas Maldivas, é de Edward L. Powe sobre a gesta de Sangoaru.

A transcrição desta tradição contém a evocação "ni Angola Bunbaasa". Este investigador supõe, na base desta passagem da récita, que Sangoaru, tornado Sultão Ali, veio de Angola passando por Mombasa.

Conclui a irmando que "Sangoaru of Maldives (originally from Angola) is another example of an African from Angola who became a powerful island chief in the Maldives".

Inédito reagrupamento de sínteses sobre a presença africana na Ásia e nas regiões adjacentes, as atas da Conferência realizada nas margens do Mar da Arábia permitem entrever numerosos eixos de investigação, tais como o desenvolvimento de estudos de carácter linguístico e antropológico, necessariamente comparados entre as culturas bantu e as continuidades além Oceano Índico e o Mar Vermelho.

E, quase certo que análises comparativas de ponta, permitirão, sem dúvida, revelar outras retenções bantu, visto que a terra-mãe dos "Homens" contribuiu para a grande mestiçagem antropobiológica e as influências culturais registadas nesta parte do mundo.

CONCLUSÃO

Fenómeno que se abateu sobre a África, resultado de uma relação de força desfavorável ao continente, este consubstanciou-se na instalação de centenas de milhares de cativos nigers, logo a partir do século VI, no além Oceano Índico. Dentre desses onkhwatwa, houve alguns milhares que foram desterrados para as ilhas do Oceano Índico, as regiões adjacentes aos Mares e Golfos do Médio e Próximo Orientes e na Ásia, particularmente na Índia.

A existência das colónias portuguesas na Ásia é um facto que deve encorajar os historiadores angolanos a produzir estudos sobre os traços dos e kalango nesta parte do mundo, que hoje, estão de corpo e alma fortemente integrados no desenvolvimento do país de Sangoaru.

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