Sangue por sangue

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O novo filme de Spike Lee, Da sweet blood of Jesus oferece um cocktail admirável entre afectação e hemoglobina a rodos. Por detrás da classe e das boas maneiras, escondem-se por vezes vícios e maus hábitos. Realmente, ninguém está a salvo da ignomínia.

Sangue por sangue

Quarta-feira à noite, recebo uma mensagem de um amigo numa rede social, propondo-me visionar em antestreia o próximo filme do cineasta afro-americano Spike Lee. Aceito de imediato. Fico então à espera de receber um convite para uma projecção privada, embora mundana. Qual não é a minha surpresa quando recebo uma hiperligação para ver o filme tranquilamente em casa. O meu amigo insistiu na questão da confidencialidade.
Aquiesci. Não enviaria a hiperligação a ninguém e assistiria ao filme sozinha com as minhas pipocas. No ecrã de 17 polegadas do meu computador, preparo-me para me ligar de novo ao universo de Spike Lee. Perante os meus olhos, na penumbra da minha sala, o riquíssimo e brilhante arqueólogo, Dr. Hess discute com o seu colérico assistente. Impulsivo, este último mata-o com uma antiga adaga Ashanti. Cheio de remorsos, o assistente suicida-se com uma bala na cabeça. O Dr. Hess Greene, interpretado por Stephen Tyrone Williams, volta à vida. Ressuscita, como Cristo. Depois, bebe avidamente o sangue do assistente, cujo cadáver descobre. O elegante gentleman metamorfoseia-se então em personagem dividido, tentando por todos os meios encontrar sangue fresco, indispensável à sua sobrevivência. O dandy da pitoresca Martha’s Vineyard transforma-se em assassino que vagueia pelas ruas dos bairros pobres de Nova Iorque, usando também um capuz enterrado na cabeça. E depois, o encontro com a viúva do seu defunto assistente, empurra o Dr. Hess para os braços do amor. A mulher, Ganja Hightower, é soberba, possui um certo temperamento e uma fleuma a toda a prova. A actriz, Zaraah Abrahams, encarna com convicção uma mulher segura do seu encanto e da sua sedução. Consegue sem dificuldade fazer-se amar pelo Dr. Hess, encantado por tanto refinamento. Este possui a riqueza, ela encarna a beleza e a juventude. Em conjunto, sentirão o gosto da eternidade. O vinho tinto muda-se em cadinho de sangue. O Dr. Hess encontrou assim na esposa, que se tornou também viciada no precioso líquido vermelho, como outros o são no álcool, no sexo ou nas drogas, a acólita perfeita.
Os críticos de cinema americanos não apreciaram muito o filme, apesar das suas qualidades. Com efeito, este filme evoca Blacula (1972) um filme de vampiros, mas desta vez Spike Lee vai além desse registo. É difícil resistir à atracção do Belo, de África e do Sagrado. Lá, nada-se no luxo, no sangue e na volúpia. Não há muito lugar para a descrição detalhada da pauperização dos Negros da América nem para a estetização do seu sofrimento. A maior parte da acção tem lugar na refinadíssima ilha de Martha’s Vineyard, abrigo de paz para uns poucos eleitos da Costa Leste. A imensa propriedade é sublimada pelas riquezas do património cultural africano. É um manancial! Um quadro de Kehinde Wiley, máscaras, tapeçarias em veludo de Kasaï, antílopes Ci-Wara, só obras de arte africanas decoram a bela habitação. O simbolismo africano plana sobre este filme. A cor branca, associada a diversos ritos funerários em África e nas diásporas negras, é utilizada com inteligência. De certa forma, Spike Lee defende a causa do cinema africano ao realizar este filme. Abre uma via que deveria ser explorada mais vezes. Este realizador diaspórico faz o elo com o seu país desde o gospel até às músicas contemporâneas. A participação do cantor Raphael Saadiq arrebatará todos os fãs. A banda sonora é soberba, nem menos era de esperar de um melómano como Spike Lee. Mas, sobretudo, Lee aborda, à sua maneira, o ténue elo existente entre as religiões sacrificiais (nomeadamente as de África com o animismo) e as religiões éticas, a religião cristã em particular. No Evangelho segundo São João, capítulo 6, versículo 54, pode ler-se: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna […]». A maioria das peças de arte africana pertence ao domínio litúrgico, ao registo sagrado dos povos africanos. O sangue da aliança e o vinho são no fundo a mesma coisa. O destino humano e a redenção estão no cerne do debate, mais do que a existência de uma vida após a morte. Por fim, Spike Lee traça em pontilhado um auto-retrato das tensões que o habitam. O realizador está orgulhoso do seu sucesso e das suas amizades de alto nível mas sem deixar de sentir a raiva das gentes do gueto. Essa cólera mantem-no e permite-lhe conservar uma certa acuidade, uma bela cerebralidade, sem chegar a definir-se. Neste conto audiovisual afro-americano, duas faces da América negra contemporânea afrontam-se nesta alegoria, através da figura distinta deste Janus afropolitano.
Resta lamentar algumas deficiências do cenário e certas cenas que apenas serviram para evidenciar a beleza plástica das actrizes. Teríamos gostado de ver uma digressão mais longa, mais esotérica, sobre a adaga «mágica», um pouco no espírito do célebre arqueólogo Indiana Jones. O que me ficou, é que tudo vem de África, até mesmo Cristo.

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