Seis poemas de Langston Hughes

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Fotografia: Langston Hughes

ASPIRAÇÃO

Estirar os braços
ao sol de algum lugar,
e até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
quando já entardeceu,
enquanto a noite vem
?negra como eu ?
descansar... É o que quero!

Estirar os braços
ao sol nalgum lugar,
cantar, pular, dançar
até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
?este o desejo meu ?
quando a noite baixar
negra como eu.

POEMA

A noite é bela:
assim os olhos do meu povo.
As estrelas são belas:
belas são também as almas do
meu povo.

Belo é também o sol.
Belas são também as almas do
meu povo.

LUA DE MARÇO

A lua está despida.
O vento despiu a lua.
O vento arrancou do corpo da lua
as suas vestes de nuvens.
E agora ela está nua,
inteiramente nua.

Mas já não coras,
ó lua impudica?
Pois tu não sabes
que não é bonito estar nua?

(Tradução: Manuel Bandeira)

O NEGRO FALA SOBRE RIOS

Conheço rios:
conheço rios tão antigos quanto o mundo e mais
[velhos que o fluxo de sangue humano
[nas veias humanas.

A minha alma se tornou profunda como os rios.

Banhei-me no Eufrates quando eram jovens as
[auroras.

Construí minha cabana junto ao Congo e ele
[me cantou canções de ninar.

Olhei para o Nilo e acima dele levantei as
[pirâmides.

Ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln
[desceu até New Orleans e vi o seu seio
[lamacento tornar-se ouro, ao pôr-do-sol.

Conheço rios:
antigos, cinzentos rios.

A minha alma se tornou profunda como os rios.

(Tradução: Carlos Machado)

EU, TAMBÉM

Eu, também, canto a América
sou o irmão mais preto.
Quando chegam as visitas,
me mandam comer na cozinha.
Mas eu rio
e como bem,
e vou ficando mais forte.
Amanhã,
quando chegarem as visitas
me sentarei à mesa.
Ninguém ousará
me dizer,
“vai comer na cozinha”,
então.
Além do mais,
vão ver quão bonito eu sou
e se envergonharão -
eu, também, sou a América.

NEGRO

Eu sou Negro:
negro como a noite é negra,
negro como as profundezas da minha África.
Fui escravo:
César me disse para manter os degraus
da sua porta limpos.
Engraxei as botas de Washington.
Fui operário:
sob as minhas mãos as pirâmides se ergueram.
Fiz a argamassa para a fábrica de algodão.
Fui cantor:
durante todo o caminho da África até a Geórgia
carreguei as minhas canções de dor.
Criei o ragtime.
Fui vítima:
os belgas cortaram as minhas mãos no Congo
e me lincham até hoje no Mississipi.
Eu sou Negro
negro como a noite é negra
negro como as profundezas da minha África

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