Sérgio Rodrigues: ``Buarqueé um mago das palavras

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O Jornal Cultura traz hoje às suas páginas, uma aprecição sobre o Prémio Camões 2019, o brasileiro Chico Buarque da Holnda, feita por Sérgio Rodrigues (nascido em 1962.

O Jornal Cultura traz hoje às suas páginas, uma aprecição sobre o Prémio Camões 2019, o brasileiro Chico Buarque da Holnda, feita por Sérgio Rodrigues (nascido em 1962) um escritor, crítico literário e jornalista mineiro que vive no Rio de Janeiro desde 1980. Vencedor do Grande Prémio Portugal Telecom 2014 (actual Oceanos) com o romance O Drible, que tem como pano de fundo uma história do futebol brasileiro, Sérgio Rodrigues é autor de nove títulos, divididos entre ficção e não ficção, e tem livros lançados na França, na Espanha, em Portugal e nos EUA.
Jornalista profissional com 35 anos de carreira, Sérgio Rodrigues trabalhou como correspondente estrangeiro, repórter, chefe de reportagem, editor e colunista nas principais empresas de comunicação do Brasil. Há dois anos, é um dos roteiristas do talk show Conversa com Bial, da TV Globo. Entre seus outros livros, destacam-se o romance histórico Elza, a Garota e a coletânea de contos A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos, que vai ser lançada neste mês pela Companhia das Letras.

Como recebeu a notícia da atribuição do Prémio Camões 2019 a Chico Buarque da Holanda?
Com muita alegria. Chico Buarque de Hollanda é sem dúvida alguma um dos maiores artistas brasileiros vivos, e ver sua obra reconhecida pelo prémio Camões tem relevância especial neste momento de trevas políticas em que a cultura e a arte vêm sendo sistematicamente atacadas no país como política de governo. No obscurantismo do governo de Jair Bolsonaro, a notícia caiu como chuva em terra seca.

Em 2010, Chico Buarque já fora galardoado com o Prémio Portugal Telecom, pelo seu romance “Leite Derramado”. Esta obra também recebeu no Brasil o prestigiado prémio Jabuti, como melhor livro do ano de ficção e melhor livro de ficção no voto popular. Que qualidades destaca no estilo de escrita de Chico Buarque?
O Jabuti talvez já não seja tão prestigiado quanto foi um dia, mas o fato é que Chico o levou para casa três vezes: além de “Leite Derramado”, com “Estorvo” e “Budapeste” – este, a meu ver, o seu melhor livro, um romance rigoroso e conceitual que é ao mesmo tempo de leitura prazerosa. O Portugal Telecom (hoje renomeado Oceanos), que tem peso bem maior que o Jabuti, Chico o conquistou curiosamente com um de seus livros que considero menos bem realizados, “Leite Derramado”. Chico Buarque é um grande mestre da língua, um mago das palavras. Sua cultura da língua portuguesa combina uma rara erudição com um ouvido de sensibilidade não menos rara para o que se fala hoje, o modo como o idioma está sempre a se reinventar. Tanto virtuosismo pode levar os seus romances a descambar nos momentos menos felizes para um certo esteticismo, um polimento excessivo da frase que provoca perda de espontaneidade. “Leite derramado” tem algumas das mais belas frases escritas em nossa língua nos últimos tempos, e ainda assim – ou talvez por isso mesmo – não chega a decolar como narrativa, a meu ver. Em “Budapeste” e “O Irmão Alemão”, essas duas dimensões, a da tessitura da prosa e a do pulso narrativo, se encontram mais equilibradas.

Para além de escritor, Chico Buarque de Holanda é músico. Que paralelismo e interferências estilísticas podemos encontrar entre a música e a literatura deste autor brasileiro?
Chico é muitíssimo maior como compositor do que como autor de livros. Considero até uma covardia comparar um lado ao outro e estou convencido de que o prémio Camões, como o Nobel de Bob Dylan, sabe bem disso. Estamos falando do artista que é, muito provavelmente, o maior nome da música popular brasileira em todos os tempos, um campo muito produtivo e rico de talentos, talvez o mais relevante da cultura brasileira por tudo o que se fez no século XX. Mesmo em terreno tão competitivo, ele se destaca porque é simplesmente fenomenal a envergadura do cancioneiro buarquiano, de qualidade nunca abaixo de excelente e estendido ao longo de muitas décadas. O principal ponto de contato entre a sua produção poética nas letras de música e os seus livros e peças teatrais é a intimidade excepcional com a língua portuguesa.

O facto de Chico Buarque ter nascido numa família onde o pai é o historiador, Sérgio Buarque de Holanda, e a mãe, a pianista Maria Amélia Cesário Alvim, terá contribuído para quem é ele hoje nestes dois domínios da Arte?
O berço é com certeza privilegiado. Por meio sobretudo dos contactos sociais do seu pai, um intelectual de renome, Chico teve acesso pessoal, ainda bem jovem, aos maiores nomes das artes e das letras no país. Mais do que da sua própria casa, porém, acredito que ele seja fruto de um momento único de efervescência e optimismo da cultura brasileira, entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1960. É filho da bossa nova, de Brasília, do Cinema Novo, de um sonho de Brasil moderno, inteligente e justo que logo iria se frustrar. Mas aí já era tarde, Chico Buarque já estava pronto.

Na sua luta contra o regime militar, Chico Buarque viu várias músicas censuradas e foi ameaçado, tendo se exilado na Itália em 1969. De que forma este exílio marcou a produção artística do escritor e cantor?
Não acho que o auto-exílio, que foi breve, tenha marcado de modo significativo a sua produção. A guerra simbólica contra a ditadura, sim. Há quem argumente que data daqueles anos a sua melhor produção.

Chico Buarque é na verdade um cultor do rigor artístico, porque a peça Gota d'água, em parceria com Paulo Pontes, recebeu o prémio Molière. Que pontos essenciais se destaca na dramaturgia de Chico Buarque?
A produção de Chico Buarque para teatro é bastante variada. De modo geral, acho que podemos destacar o papel da canção, que está sempre presente na sua dramaturgia de forma estruturante, e a influência do alemão Bertolt Brecht.

Como é que analisa a ausência das obras de um prémio Camões como Chico Buarque nas estantes das livrarias angolanas?

Não sei responder a essa pergunta. Seria preciso saber, entre outras coisas, que nomes da literatura brasileira contemporânea podem ser encontrados nas livrarias angolanas hoje. Acredito que estejamos muito distantes uns dos outros, brasileiros e africanos que falam português, o que é algo a lamentar. Se até Chico Buarque, que aonde vai costuma ser precedido pela sua fama de grande artista da canção, tem dificuldade para romper essas barreiras, talvez o problema seja mais grave do que se imagina. O que posso fazer é recomendar, a quem tiver a oportunidade de pôr as mãos nos seus livros, que comece por “Budapeste”, uma pequena joia de romance, ou “O irmão alemão”, o seu livro Iais recente e de prosa mais livre, mais caudalosa, de inspiração autobiográfica.

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