Sete indicadores para o futuro da humanidade

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Se, nos dias de hoje, o valor é transformado em preço, e uma árvore só tem valor pela madeira que produz ou um animal pela carne e pele, é porque, segundo Cristovam Buarque, o projeto humanista perdeu-se com o passar dos séculos. Para que surja uma nova forma de humanismo baseada na modernidade ética, é preciso ter em conta as alterações planetárias que estão a suceder.

O Humanismo surgiu no Renascimento como resultado da fusão entre o pensamento grego clássico, então ressuscitado, que valorizava a primazia do Homem sobre a Terra, consolidando a ideia de que Homem é um ser à parte do resto da natureza – separado e dominante. Esta visão não só prevaleceu como foi reforçada pelo domínio absoluto e pela transformação da natureza pelo Homem.

Ao mesmo tempo que o humanismo ganhava terreno, iniciava-se, no entanto, um caminho no sentido da desumanização. A bomba atómica, por si só, é um símbolo da criação de uma civilização esquizofrénica. O ser humano dominou a natureza, utilizando a tecnologia que criou, mas a humanidade começou a ser dominada pela tecnologia. É esta tecnologia que agora define as características do sistema social, destruindo o ambiente e aumentando a desigualdade social.

O facto de o futuro do nosso planeta ser incerto significa que teremos de voltar a considerar o projeto humanista, que, para mim, deve assentar em sete pilares.

Promover políticas a nível planetário

Aquilo que a cidade significava para os atenienses tornou-se, nos dias de hoje, no estado da nação para as democracias modernas. E a cidadania – esta criação grega que indica o compromisso dos residentes de uma cidade para com essa mesma cidade – começou a tornar-se um compromisso para com o país inteiro.

A crise planetária atual levanta a questão da nossa responsabilidade enquanto cidadãos da Terra. Por outras palavras, esta crise apela a um compromisso individual como destino da humanidade e da Terra. Para mim, este novo humanismo deve ter em conta a importância de todos os seres humanos e o sentimento de solidariedade global.

Respeitar a diversidade cultural

O Homem tem vindo a desrespeitar os seus semelhantes, como comprova o genocídio dos povos indígenas americanos, a escravidão africana, bem como todas as outras formas de racismo e xenofobia que revelam um sentido de superioridade. O novo humanismo deverá livrar-se do etnocentrismo, deve tornar-se acêntrico e respeitar a diversidade cultural. Devemos apaziguar os conflitos existentes entre culturas e considerar que a variedade de culturas é um indicador de riqueza da civilização, Onde a interação entre as mesmas é mais do que a soma das partes.

Preservar o meio ambiente

No que respeita à natureza, o Humanismo tem-se pautado por uma atitude irresponsavelmente arrogante: não lhe atribuiu nenhum valor. Esgotou os recursos naturais e debilitou o equilíbrio ecológico de tal forma que a continuidade da civilização está em risco. Apenas o trabalho humano ou um preço atribuído pelo mercado geram valor num planeta ameaçado e desvalorizado. As árvores são valorizadas pela madeira e os animais são valorizados pela carne ou pela pele. O novo humanismo que advogo deverá auspiciar uma civilização totalmente integrada no equilíbrio ambiental. Os resultados económicos não deverão continuar a ser calculados com base na soma dos bens materiais e dos serviços – PIB. Deverá, também, ter em conta todos os custos relacionados com os resíduos resultantes do processo de produção.

Garantir oportunidades iguais

O Humanismo foi um oásis para o sonho da igualdade, mas o capitalismo aumentou de tal forma as desigualdades que as diferenças na esperança de vida dependem agora dos rendimentos pessoais. Sonho com um humanismo que assegure oportunidades iguais, que atue como uma escada para a ascensão social, que elabore linhas ecológicas para definir os limites de um consumo que está a esgotar o ambiente e que, em simultâneo, proteja os expropriados.

Promover uma produção equilibrada

A ideia de valorizar a mão-de-obra em detrimento da terra tornou o Homem um criador de valor e colocou os trabalhadores no centro do processo de produção. Este grande salto voltou-se, contudo, contra o Humanismo, quando o valor foi transformado num preço definido por forças de mercado místicas fora do controlo humano. As explicações substituíram a justiça, as exigências substituíram as vontades e os desejos do consumidor substituíram a satisfação das necessidades. Para construir um novo humanismo, temos de redefinir o caminho das nações e da humanidade no sentido de um processo de produção ecologicamente equilibrado. Temos de atribuir valor a bens não-negociáveis. No novo humanismo, tem de se abolir a escravatura, que continua a encarcerar homens ao reduzi-los a meras peças no processo de produção.

Integração através da educação

Na era industrial, o Humanismo prometeu um mundo de rendimentos iguais, graças à economia. O Capitalismo defendia a ideia de que o aumento na produção e as leis de mercado conduziriam ao efeito trickle down, distribuindo os rendimentos por toda a pirâmide social, do topo para a base. Por sua vez, no Socialismo, a distribuição seria assegurada pelo estado e pelas leis de planeamento.
Atualmente, de acordo com o novo conhecimento e a economia de capital humano, a chave do progresso económico e da justiça social deve ser auspiciada através de uma educação de qualidade para todos. O desafio do novo humanismo reside em assegurar que todas as crianças tenham acesso, de forma equitativa, a uma boa educação, independentemente da raça, dos rendimentos familiares ou do local de residência. O efeito trickle down prometido pelo Capitalismo já não terá origem no mercado, mas sim num efeito trickle up induzido pela educação.

O objetivo a longo prazo deste processo será a integração de todas as pessoas de todo o mundo, utilizando todas as técnicas disponíveis numa rede planetária.

Uma modernidade técnico-ética

O processo industrial da civilização caracteriza-se pela procura contínua da modernidade técnica, definida pela utilização da tecnologia mais avançada. Isto exigiu a criação de uma racionalidade económica que justifica os produtos de tecnologia de ponta e abandona objetivos sociais, relegando assim os valores éticos.

Deverão ser os valores éticos que, no novo humanismo, funcionam como vetores que definem objetivos sociais, e estes devem ser considerados a base para uma racionalidade económica que definirá todas as escolhas técnicas. Mesmo neste caso as técnicas deveriam ser escolhidas de acordo com princípios éticos e estéticos, e não apenas com base na eficiência económica.

No novo humanismo, a modernidade técnica, definida pela originalidade da tecnologia e do humanismo, será substituída por uma modernidade ética.
Por exemplo, o meio de transporte moderno, em vez de ser definido pelo número de carros privados em circulação, seria avaliado pelos respetivos resultados: redução do tempo de viagem, conforto do utilizador, pontualidade, acesso universal.

Assim como Einstein tentou falar com Deus – em quem não acreditava – para aprender como Ele tinha desenhado todos os pormenores do mundo, o novo humanismo deverá conceber o caminho ideal para construir uma civilização democrática, tolerante, eficiente para a humanidade e para cada ser humano, e que respeite a natureza. O único caminho é o do diálogo entre pessoas e entre pessoas e a natureza. O novo humanismo promoverá o diálogo entre as culturas e a Terra-Mãe.
In “Correio da UNESCO”, Outubro – Dezembro 2011

Cristovam Buarque é senador e professor na Universidade de Brasília, e foi ministro da Educação em 2003. Dedicou a sua carreira política especialmente ao combate da iliteracia, à implementação de reformas agrárias e à melhoria do sistema de saúde do Brasil e das condições de trabalho neste país.

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