Sete poemas de Friedrich Hölderlin

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ÀS PARCAS

Concedei-me, ó Parcas omnipotentes, só mais um verão!
E um outono, que me amadureça o canto,
Para que meu coração, desse doce labor saciado,
Em júbilo possa então morrer!

Em vão procura no escuro Orco repousar.
Mas se eu chegar um dia a esse divino poema
Tão caro ao meu coração,

Ditoso acolherei o teu, ó silente país de sombras,
E estarei em paz; mesmo destroçado e da lira despojado,
Uma única vez igual aos deuses terei vivido.
Isso me basta.

(1798)

BUONAPARTE

São vasos sagrados, os poetas.
Vasos, onde o vinho da vida e o espírito
Dos heróis se preserva.

Mas é tão rápido o espírito
Deste jovem: como não quebraria,
Se acaso o vaso o quisesse aprisionar?
Que o poeta o deixe intacto como o espírito da Natureza;
Perante questão tão delicada, transforma-se o mestre em menino.

Não lhe é possível viver e permanecer no poema,
Vive e permanece no mundo.

O APLAUSO DOS HOMENS

Não está o meu coração mais vivo, e belo, e puro,
Desde que amo? Porque me estimáveis mais
Quando eu era insuportavelmente arrogante e brutal,
Verborreico e vazio até ao desespero?
Ah, só o reboliço das feiras agrada à multidão,
E o servo, mais não sabe que honrar o bárbaro e o violento;
No divino creem apenas
Aqueles que o trazem dentro de si!  

FANTASIA DO CREPÚSCULO

À soleira da sua porta descansa o lavrador,
Contemplando feliz o fumo que sobe da chaminé.
Hospitaleiros, os sinos lentos da aldeia
Acolhem o viandante.
Talvez os marinheiros voltem agora ao porto.
Em cidades longínquas se dilui
O alegre rumor dos mercados; na serena latada
Brilha a mesa posta para os amigos.
Pobre de mim! De trabalho e salário
Vivem os mortais, alternando alegres
Lazer e cansaço: porquê então, só no meu peito
Não dorme nunca este espinho?
É toda uma primavera que cheira e floresce no céu da tarde;
As rosas desabrocham inumeráveis, e, tranquilo, fulgura
O áureo mundo; oh, levai-me para ele,
Nuvens de púrpura! E que lá nas alturas,
Em luz e ar se transmudem meu amor e mágoa!
Porém, como se escorraçado da súplica insensata, em fuga
Desparece o encanto. Anoitece. E, solitário
Como sempre, debaixo do céu e ao relento me encontro.
Vem tu agora, sono aprazível! Excessivamente ambiciona
O coração; mas, por fim, também tu te apagas,
Ó inquieta e sonhadora juventude!
Harmoniosa e serena, chega então a velhice.

A PRIMAVERA

Da alta desmesura dos céus desce o novo dia,
A manhã desperta por entre as sombras,
Engalanada e alegre, à humanidade sorri,
À humanidade suavemente penetrada de júbilo.
Nova vida deseja abrir-se ao porvir,
Parece querer cobrir-se de inumeráveis flores
O grande vale, a Terra, sinal de dias felizes,
Afastando da Primavera os signos dolorosos

3 de Março de 1648

Humildemente,
Scardanelli

ÚLTIMO POEMA: PAISAGEM

Quando, ao longe, a vida que habitam os homens,
em direção ao tempo do resplendor das vinhas
se esvai,
despidos pelo verão se encontram os campos,
e em sombria imagem surge a floresta.
Que a natureza acrescente a imagem dos tempos,
e permaneça. E os tempos, velozes, deslizem;
da perfeição vem isso: que brilhem
para o homem as alturas do céu,
enquanto a árvore se vai coroando de flores.

24 de Maio de 1784
(aliás 1843)
Humildemente Skardanelli (aliás Hölderlin)

VISÃO

Imagens que a plenitude do dia dá a ver aos homens,
No verdor da plana distância,
Antes que a luz decline para o crepúsculo,
E a ténue claridade amenize com doçura os sons do dia.
Escura, cerrada, parece a miúdo a interioridade do mundo,
Sem esperança, cheio de dúvidas o sentido dos homens,
Mas o esplendor da Natureza alegra seus dias
E distante jaz a obscura pergunta da dúvida.

24 de Março de 1671

Humildemente,
Scardanelli.

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