Sul-africanos ganham mais interesse pelo português

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Angola, país em que a economia cresce e floresce no coração de uma região dominada pela África do Sul e onde até há alguns anos atrás o Zimbabué também estava em alta.

Sul-africanos ganham mais interesse pelo português

Moçambique, país que tradicionalmente serve apenas como fonte de mão-de-obra do seu vizinho, terra do Rand, embora tenha o seu gás refinado nesse país e seja o seu fornecedor de energia.

Mas o teor desta reportagem que se baseia na "língua" está para a influência que estes dois países têm sobre os seus vizinhos que têm o inglês como língua oficial e da maioria.

A verdade é que apesar da fraca situação financeira, Moçambique tem exercido uma "pressão" para os sul-africanos aderirem à Língua Portuguesa, de acordo com Rui de Azevedo, coordenador do Programa de Ensino de Língua Portuguesa do Instituto Camões na África do Sul, Namíbia, Zimbabué e Suazilândia que referiu ainda que a elevação da economia angolana também tem um papel importante para os cidadãos desses países irem em busca da língua.

Rui de Azevedo revelou serem 3.600 alunos que vão do ensino pré-escolar ao superior, lecionados por 36 professores divididos pelos quatro países. No entanto, onde há mais alunos é na África do Sul, cujos números atingem 2.600, com 51% dos quais representados por cidadãos nativos, contra 49% de cidadãos luso-descendentes.

A língua portuguesa no Zimbabué, Suazilândia, Namíbia e África do Sul tem ganhado mais espaço, com principal incidência neste último país, com 2.600 alunos de português nos ensinos pré-escolar e secundário.

O ensino da língua portuguesa nesses países que tem como línguas oficiais o Inglês, é intensificado pelo Instituto Camões sendo que é na África do Sul, onde se situa a representação desta instituição, o que mais se expande a língua principalmente, em Joanesburgo e Cape Town, através das instituições de ensino locais.

Dados fornecidos pelo Coordenador do Programa de Ensino de Língua Portuguesa nos quatro países, na Suazilândia e Zimbabué, o Camões tem apenas dois professores sendo por isso a principal aposta da instituição apoiar a formação de professores de português nesses países, o que só acontece, até ao momento, no Zimbabué através de um curso de leitores que também é levado a cabo na Namíbia.

Rui de Azevedo fez saber que na África do Sul não há nenhuma instituição que forma professores de português o que constitui constrangimento diante de muita adesão ao ensino da língua.

"Quem está a suportar essa rede de procura é o Instituto Camões o que exige esforços financeiros adicionais e numa altura de crise tem que se ver melhores estratégias de modo a reduzir os custos. Uma das estratégias é apoiarmos na formação de professores locais, pois a língua portuguesa na África do Sul tem futuro. Há já um número considerável de falantes dessa língua, tal como acontece na Namíbia.

" Na Namíbia, de acordo com Azevedo, há um protocolo entre o Instituto Camões e autoridades de educação namibianas de modo a formar mais professores, estes que virão a aumentar o número dos seis professores daquela nacionalidade espalhados pelo país a dar português no ensino secundário como uma disciplina curricular.

"É isso que queremos fazer nos outros países, por isso estamos a negociar com as autoridades académicas de Joanesburgo e de Cape Town, para apoiar a formação de professores, mas sem nos desligarmos do ensino, vamos é mais do que levar professores para algumas escolas, que depois não tem aquele efeito massificador que nós queremos", disse Rui de Azevedo acrescentando que "só os privilegiados é que podem ter português porque não temos professores suficientes, então a ideia é que tenhamos mais professores de português para que possam chegar onde não chegamos.”

“Na África do Sul temos neste momento cerca de 2600 alunos, distribuídos pelos níveis pré-escolares e secundário. Não estou a incluir os de ensino superior.

Esses alunos estão distribuídos por 86 escolas, isto é, estamos só em algumas zonas na maioria de Joanesburgo. Só algumas escolas têm o privilégio de ter o ensino do português com o apoio do governo português.

Há escolas que tem professores de português que são eles quem contratam, mas são em número reduzido. Isso acontece também porque não há professores de português, alguns professores vindos de Moçambique estão a trabalhar aqui mas não é tão fácil, daí a necessidade de formar sul-africanos.

Para que sejam eles a lecionar. Nisso estamos aptos a investir, no entanto, são necessárias parcerias, temos já com a UEM que nos fornece leitores que colocamos nas universidades da África do Sul e na região para formarem professores, vamos estabelecer um protocolo com a UP também para esse efeito. Vamos formar professores locais para manter a continuidade do ensino da língua.

" Porquê o interesse dos sul-africanos pelo português?

"Por causa da proximidade com Moçambique obviamente. Pela visão do futuro dos filhos por parte dos pais.

Eles incentivam os filhos a aprender o português por vários motivos, dentre os quais, o facto de serem luso-descendentes, outros porque são portugueses, uns moçambicanos, outros porque são mesmo sul-africanos e tem a necessidade de ver o filho a aprender uma língua estrangeira.

Se tem que aprender uma língua estrangeira e não as nacionais que são muitas na África do Sul, o português é o que mais faz falta por causa da proximidade com Moçambique e com Angola. E vem aí o futuro posto às relações com o Brasil, por exemplo", considera a nossa fonte.

O dilema do Novo Acordo Ortográfico

O coordenador do programa de ensino de Língua Portuguesa na África do Sul, Suazilândia, Zimbabué e Namíbia, Rui de Azevedo, informou que o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa já está a ser implementado no sistema de ensino da língua nos quatro países.

Entretanto, ciente da polémica que este assunto cria no seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, tece comentários.

"Sei que faz essa pergunta porque essa é uma questão polémica, inclusive aqui nas jornadas há pessoas que defendem o acordo e outras não, mas eu defendo-o. Ele vai internacionalizar mais a língua portuguesa, vai facilitar aos portugueses e pessoas de outras línguas que queiram aprender o português."

A coordenação do ensino a nível da África do Sul, Suazilândia, Zimbabué e Namíbia já está a trabalhar com o novo acordo ortográfico desde Janeiro do presente ano, isto porque "o acordo já foi ratificado por Portugal, foi publicado no Diário da República e o Ministério da Educação já começou a trabalhar com o novo acordo ortográfico desde Setembro do ano passado.

Os nossos manuais escolares já tem o novo acordo ortográfico, portanto para nós não é nenhuma polémica e estamos no processo de transição", afirmou a fonte.

Rui de Azevedo disse ainda que as mudanças não devem ser preocupantes porque "o português é uma língua viva" e como língua viva "se sofre essas mudanças ainda bem. Antigamente escrevíamos Farmácia com Ph, agora já não escrevemos, ao princípio foi difícil para os que assim escreviam, mas adaptaram-se.

" O nosso entrevistado considera que a demora na ratificação do acordo por parte de países como Moçambique e Angola está eivado de outras razões como, por exemplo, a guerra civil em que os dois países estiveram envolvidos sendo, por isso, necessário que se dê tempo ao tempo.

Contudo, "é útil haver uma única grafia da língua portuguesa, assim chegamos a mais pessoas, internacionalizamos mais a nossa língua, é mais fácil para escreventes da nossa língua escrever numa única grafia. Obviamente somos humanos e não podemos agradar a gregos e troianos", rematou.

Moçambique e o Novo Acordo Ortográfico

Marisa Mendonça, diretora da Faculdade de Ciências da Linguagem, Comunicação e Artes (FCLCA) também teceu comentários sobre o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vias de ratificação por Moçambique.

Mendonça deu a conhecer que a Comissão Nacional do IILP - Instituto Internacional de Língua Portuguesa, comissão da qual faz parte, já apresentou ao ministro da Educação moçambicano a proposta daquilo que serão as transformações que advirão da adoção do novo acordo.

Por outro lado, o documento já devia ter sido apresentado ao Conselho de Ministros, mas por uma série de constrangimentos ainda não foi. A nossa entrevistada, considera que "muito brevemente este documento será analisado pelo executivo para que o governo moçambicano possa decidir se ratifica, ou na totalidade, ou com observações, ou se ratifica com algum condicionalismo, o novo acordo ortográfico."

Entretanto, Marisa Mendonça ainda afirma: "eu penso que vai haver algum condicionalismo, no sentido de melhor se poder ajustar o texto de base deste acordo. Falar das empatias ou antipatias perante o acordo, elas existem.

O acordo provoca mudanças e, por um lado, há pessoas que concordam, por outro, há as que discordam. Mas também as mudanças provocam essas posições, as pessoas ou são muito a favor porque acham que é melhor em alguma coisa, ou são totalmente contra porque acham que é a pior coisa do mundo."

Apesar dos constrangimentos que poderão advir das mudanças, Marisa Mendonça entende que, para a aprendizagem do português em Moçambique, o acordo vai ajudar. "

Alguns elementos que constam do acordo vão ajudar as nossas crianças a escrever melhor o português. Sou também um pouco crítica de outros aspetos envolvidos no acordo porque quando começo a ler o acordo com atenção percebo que há alguns elementos que concorrem para a não harmonização da escrita, mas que permitem as duas variedades, então se estamos a criar um acordo no sentido de harmonização, devíamos em todos momentos desse acordo ter presente essa perspetiva."

Mendonça vai longe ainda, ao dar a conhecer que "independentemente de Moçambique ratificar ou não, ele vai ter que adotar" considerando que vários países da CPLP já aderiram, apesar de, mesmos nesses, haver um certo ceticismo. " Moçambique será obrigado a adotar o acordo", reitera.

"O português de Moçambique nasceu com a independência"

Por seu turno, a linguista moçambicana Perpétua Gonçalves versando sobre os "Desafios de Moçambique a nível da Pesquisa sobre o Português", deu a sua opinião sobre a influência do português nos moçambicanos e sobre o que chamou de "Português Moçambicano", caracterizado por algum desvio das normas europeias.

No entender da académica, existem ainda poucos estudos sobre a fonética moçambicana no português e isso poderá se justificar pelo facto de o nosso português não ter mais de quarenta anos, caminhando com os anos da independência de Moçambique (37 anos) do jugo português. "

Há muitos fenómenos a acontecer em muito pouco tempo, praticamente o português de Moçambique nasceu com a independência. Então para uma história da ciência, quarenta anos não é nada e nós temos, portanto, tudo em aberto.

Para dar um exemplo, estudos sobre a fonética, portanto a fonologia, a pronúncia específica dos moçambicanos, praticamente não há nada feito sobre isso.

E é uma área interessantíssima onde acontecem viários fenómenos. Mesmo outras áreas onde já estão relativamente estudadas como por exemplo a regência verbal. Mas isto, refiro-me ao nível da língua.

E o ensino? As estratégias adequadas a esta nossa população e a situação do contacto bilingue? Portanto é um mundo que está em aberto."

Entretanto, enquanto os fenómenos linguísticos moçambicanos ainda são pouco estudados, há por parte de falantes do português em Moçambique uma tendência de abandonar as normas do português europeu.

Sobre isso, Perpétua Gonçalves considera que "o português europeu é a norma oficial e isso não significa que os falantes usem essa língua e eles já estão a introduzir alterações e novas formas de fala e isso traz-nos uma certa dificuldade em saber o que podemos considerar ou não."

Perpétua Gonçalves vai mais longe, mostrando casos concretos do cenário moçambicano. "Por exemplo na concordância verbal, parece que nós queremos seguir a norma europeia; nós não queremos dizer coisas como "nós está cansado" ou "houveram problemas" são esses fenómenos que tendemos a não querer e até corrigimos, mas isso já faz parte da nossa moçambicanidade.

Aliando aos exemplos que dei já, "os jovens não são dados responsabilidades de família". Isto é um tipo de construção absolutamente excluída pelo português europeu, mas que os falantes escolarizados e os não escolarizados usam e que provavelmente vamos querer conservar."

Por outro lado, se o cenário é assim nas zonas urbanas, o que se pode dizer sobre a situação em que estão as zonas recônditas?

“Nas zonas recônditas não se fala português. Nessas zonas falam-se línguas bantu, a massificação é um fenómeno que acontece gradualmente, é uma situação que não pode ser gerida estatalmente.

A própria comunidade vai ajudando a estabilizar os fenómenos, vai ajudando outros a serem excluídos e abandonados. É um processo lento, como em qualquer comunidade, não só na nossa, as línguas vão mudando de forma natural e não por processo governamental, exceto a ortografia.

" A nossa fonte referiu ainda que o problema que Moçambique enfrenta nesta área não difere da situação nos outros países africanos de língua portuguesa, como é o caso da Angola, tendo-se como caso à parte a situação de Cabo Verde que já se identifica com o novo Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa.

Refira-se que estas declarações foram produzidas à margem das VI Jornadas de Língua Portuguesa, que tiveram lugar no Centro de Línguas da Universidade Pedagógica em Maputo onde o acordo ortográfico não foi o foco das discussões, nem dos temas como questão específica destas jornadas da língua portuguesa.

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