Tchalé Figueira a arte da circum-navegação

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Tchalé Figueira – nome de referência da cultura cabo-verdiana – é pintor, poeta, escritor. Nasceu em S. Vicente em 1953, atualmente vive em Mindelo, mas é comum encontrá-lo por outras paragens, porque a sua arte apresenta-se, em exposições várias, nos grandes areópagos do mundo, como Lisboa, Dakar, Pontedere, Basileia, Praia, Nantes, Boston, Aveiro, Luanda, Matosinhos – enfim, onde a sua arte de pintar se apresenta.

Tchalé Figueira

De uma família de artistas plásticos – o seu irmão, Manuel Figueira, é um dos grandes pintores da escola do Mindelo, tal como sua mulher, Luísa Queirós. Com uma vida aventureira, Tchalé foi marinheiro e cozinheiro de bordo, tendo frequentado os melhores ateliers da Europa, como a Kunstschulle, em Basileia. Prémio da Fondation Jean Paul Blachere 2008, na Bienal de Dakar (Senegal), Tchalé publicou “Todos os Naufrágios do Mundo”, “Onde os Sentimentos se encontram”, “O Azul e a Luz”, “Poemas de amor”, “Solitário”, “Ptolomeu e a sua Viagem de Circum  Navegação”, “Contos Basileia” e “A Viagem”.

- Há na pintura de Tchalé resquícios (ou influências) do modo de pintar de seu irmão, que foi brilhante da Escola de Belas Artes em Lisboa? São famosas as “discussões” entre os dos irmãos – até que ponto elas se refletem na sua arte?

TF- …O que posso dizer é que ele foi quem espoletou a minha paixão pela pintura.
Mas não me sinto em termos técnicos influenciado por ele. Aliás, somos de duas escolas diferentes.

- Como é que se deu a sua aproximação à pintura contemporânea europeia?

TF – Foi quando deixei o mar e emigrei para Suíça em 73 e fui estudar na Kunst Gewerbe Schulle.

- Porquê, partindo do princípio de que estas opções são conscientes, a sua atração pelo neoexpressionismo e a sua, caminhada posterior rumo ao minimalismo ou, se quiser, rumo ao infantilismo ?

TF - Picasso disse: “Eu não busco, encontro” -A minha pintura é uma mitologia pessoal em constante mutação

- Se tivesse que fazer hoje uma perspetivada pintura cabo-verdiana, como a definiria ? Que lugar pode ocupar nela a arte de Tchalé Figueira?

TF -No seu lugar próprio, não me interessa definir posições. A Arte como poder criativo, tudo vem do interior desconhecido. A retórica é neste caso, para mim, supérflua.

Que pintura é esta, em Cabo Verde, sem galerias, com dificuldade muita para adquirir materiais, sem escolas ? É justo falar de um “milagre” ?

TF -Milagre está na criatividade do Artista. No que diz respeito a escolas e galerias, depois de 36 anos de independência, é o vazio total. Em Mindelo já existe uma escola superior de Belas Artes, a MEIA, que há bem pouco tempo nasceu. Auguro tudo do melhor a esta escola.

Poema de Tchalé Figueira

Esta é a cidade que cheira a mar,
Suas iluminadas casas
Firmes no tempo,
Lojas antigas de odor baunilha,
Olfacto é memória na
Minha origem,
Miríade de peixes
Argentinas escamas,
Seu mercado de peixe, das alvacórias

Contos e coitos,
Lua de prata dos trovadores,
Quaternário compasso
Morno das mornas,
Barbearias e espelhos
Tesouras doiradas,
Chovem cabelos de outros mundos,
Flores que brotam a mestiçagem

Violinos em transe falam
Com Deus, cidade de pássaros,
Asas abertas, luz de mulher,
Curvas e montanhas, melaço de cana,
Sorriso de crianças, as seis da tarde,
Minha cidade, de dor e beijos,
Casas de lata, palácios e mortos,
Velha cidade, a beira-mar.

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