WARDA, LA PASSION DE LA VIE-1: Filme de Mahmoud Jemni

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(Graça e valentia sob um tempo adverso)

WARDA, LA PASSION DE LA VIE-1  Filme de Mahmoud Jemni
WARDA, LA PASSION DE LA VIE-1 Filme de Mahmoud Jemni

Desde os primeiros instantes deste documentário de 32mn percebemos que estamos diante de alguém com um extraordinário carisma e uma luz excepcional. Warda, uma rapariga na casa dos vinte anos, recebe um diagnóstico de cancro da mama horas antes de saber que foi admitida num curso de mestrado. A sua alegria é imensa e quase a faz esquecer o choque da doença com a qual terá que lidar durante algum tempo. Mahmoud Jemni é um realizador tunisino, crítico de cinema e antigo professor. Homem de larga experiência no cinema, como autor e observador, Mahmoud traz esta história para perto de nós com a sua câmara discreta e atenta, e uma música de cortar o fôlego, bela e suave, tocada a flauta, a cargo de Adel Bouallegue, para além das canções trauteadas na voz doce da protagonista. Ela mostra-nos que a vida não pára, e que mesmo nos dias mais sombrios há gravuras para fazer, madeira para entalhar, tintas para misturar, e que a arte é a salvação e uma forma poderosa de resistência à morte.
Warda é coquette – gosta de se maquilhar e de se vestir bem, mesmo correndo o risco de se sujar no atelier- é feminina e entusiasta. Desenha e grava auto-retratos, inclusive sem cabelo (logo após a quimioterapia), e ainda assim ostentando uma beleza etérea e inigualável, serena. É dona da sua própria vida, embora não ignore a sua condição de saúde, que a fragiliza e a limita; permite-se sonhar e fazer projectos, quiçá com mais acuidade e perseverança e possui um sentido de humor e uma alegria contagiantes. Em nenhum momento sentimos que exista qualquer tipo de alienação, de inconsciência, mas antes uma aceitação tranquila de que a doença impõe novos rituais e rotinas temporariamente mas não nos define, nem nos molda. Warda não gosta de moldar – di-lo claramente em relação à cerâmica –prefere a gravura, um trabalho fisicamente árduo, estimulante, que realiza sem luvas para tocar os materiais e senti-los perto de si, como afirma poeticamente; esta actividade intensa mobiliza vários grupos musculares, e permite-lhe livrar-se de todos os seus bloqueios e sentimentos negativos. Por outro lado, não gosta de ser «moldada», muito menos por escolhas que lhe são alheias, como os constrangimentos sociais e culturais, ou pelo peso da sua efémera fragilidade. Warda rejeita para si própria o modelo de uma mulher sem identidade e unicamente valorizada em função do casamento e da procriação. Salta aos olhos que ela é bem mais do que isso, um ser humano por inteiro, com valor intrínseco e inquestionável, que ilumina e inspira pelo simples facto de existir. O documentário acompanha o dia-a-dia desta jovem artista plástica entre as suas rotinas de mulher, os tratamentos, o convívio familiar e as aulas de gravura. A tinta da China, o escopro e o martelo, as limas, a madeira, os ácidos, os rolos compressores e a colher para os acabamentos, são detalhes, gestos e instrumentos que detêm uma importância singular na vitalidade desta artista a acabam por nos transportar também subtilmente para o seu universo criativo («quando está no atelier, está feliz», como declara com candura a dado passo) . Um diagnóstico avassalador causa um grande impacto na vida da pessoa afectada e da sua família: neste caso Warda exulta com a aproximação do irmão mais velho, reservado, que confidencia às câmaras o que a sua própria postura evidencia: os sentimentos são do foro íntimo e não costumava expô-los. Há ainda tempo para ouvir a opinião de médicos e professores, unanimemente rendidos à luminosidade desta jovem «dama de ferro», como é chamada. Não creio que seja de ferro, pois Warda não renega o sofrimento nem o oculta, apenas o sublima e o transforma em arte, por amor-próprio, por paixão pela vida e pelos outros. Assume que actualmente presta mais atenção à sua relação com as pessoas e que se refugia nas coisas positivas.
Mahmoud Jemni não cai nunca na pieguice nem na compaixão desajustada, que Warda não precisa nem merece. Esta relato é sóbrio e centra-se no essencial: a própria vida. Warda e Mahmoud, cada um no seu papel, contam-nos os caminhos da condição humana, com as suas sombras e luzes, com as suas cores e entalhes, que a jovem artista grava em nós como ninguém.

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